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Alibris: o velho alfarrabista que deu as boas-vindas à Internet

Alibris: o velho alfarrabista que deu as boas-vindas à Internet

 

O universo literário é tão vasto que inevitavelmente existem obras que, por comercialmente não serem bem-sucedidas, acabam por cair no esquecimento da maioria dos leitores – da maioria, mas não de todos. Neste post, falamos-lhe do Alibris, uma plataforma online que se especializou em encontrar livros antigos e obras raras que não encontramos nas prateleiras das livrarias comuns. Continue a ler e saiba toda a história.

Espera, alfarrabistas na Internet? Nem mais: transpondo a mística dos livros com cheiro a velho para o mundo online, a Alibris sacudiu o pó das prateleiras para potenciar o prazer da leitura. Atualmente, é uma das melhores empresas do segmento livreiro e tal deve-se, sobretudo, à qualidade do serviço que nos oferece raridades de difícil acesso a preços bastante acessíveis.

Antes de nos alongarmos sobre o funcionamento da empresa, importa responder a uma questão que nos parece importante: afinal, como surgiu a ideia? Para perceber toda a história da loja online é preciso recuar aos finais da década de 70, inícios da década de 80. É nesse período que situamos Richard “Dick” Weatherford, um professor universitário que gostava tanto de livros como de novas tecnologias.

Alibis: uma ideia visionária que amadureceu na gaveta

Depois de vários anos na carreira académica, o professor resolveu abandonar o ensino para se dedicar a uma paixão antiga. Assim, abriu as portas da própria casa e começou a vender livros usados através de catálogos: catalogava as obras, as pessoas escolhiam e depois encomendavam. Rapidamente percebeu que esta não era a melhor forma de vender livros antigos e, por isso, começou a delinear uma nova estratégia.

No ano de 1982, Dick mostrou que estava à frente do seu tempo ao escrever um plano de negócios onde explicava palavra por palavra como a Internet podia ser uma mais-valia para o negócio dos alfarrabistas. Em vez de usar os velhos catálogos, o antigo professor propunha a criação de uma base de dados com livros antigos e a partir da qual seria fácil encontrar o livro pretendido.

O plano de negócios fazia parte do projeto para uma nova empresa chamada Interloc, que não chegou a sair do papel graças à falta de investimento e à inviabilidade do projeto numa altura em que os computadores ainda não estavam acessíveis a todos. O nome era uma espécie de diminutivo da palavra interlocutor e transmitia toda a ideia por detrás da base de dados: servir de intermediário entre vários alfarrabistas e o consumidor final do livro.

Cerca de 10 anos depois, Dick foi contratado pela Faxon – uma empresa que tratava do processo de subscrição de livros e revistas – que viu na contratação a possibilidade de salvar a BookQuest, considerada como uma das mais antigas bases de dados para livros antigos. O antigo professor não foi muito bem-sucedido no seu trabalho, mas o contacto com a BookQuest lembrou-o que o seu plano de negócios ainda estava atual.

É então que, com a ajuda de alguns vendedores de livros que conhecia, foi capaz de angariar a quantia suficiente para abrir finalmente a Interloc. Estávamos então no ano de 1993 e a World Wide Web era ainda uma criança de colo.

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Numa primeira fase, a Interloc trabalhava apenas com vendedores profissionais e a base de dados não podia ser consultada pelos leitores. Tudo muda quando Dick decide contratar Tom Sawyer, um especialista que em 1993 tinha construído o primeiro software de desktop para vendedores de livros, o Record Manager. Foi a partir daí que a Interloc começou a permitir a transferência de listas de livros entre computadores, criando o primeiro sistema de “wants” a que hoje estamos tão habituados em redes como o GoodReads ou a wishlist da Fnac.

Da Interloc à Alibris foi pequeno passo de gigante

O fim da Interloc e nascimento da Alibris deveu-se a uma feliz coincidência. Certo dia, durante um jantar, algures em 1997, Marty Manley, um sindicalista e secretário assistente de Bill Clinton, perguntou a um escritor, seu amigo, como poderia encontrar um livro que já não estava em circulação. Foi então que o escritor lhe recomendou que usasse o Interloc. Durante o jantar, foi capaz de encontrar o livro e ficou tão surpreendido que quis marcar um encontro com Dick Weatherford.

Foi durante esse encontro que Manley e Weatherford discutiram como é que a ainda pequena empresa se poderia tornar num fenómeno do comércio eletrónico, unindo vendedores de livros, leitores e lojas de todo o mundo. O período que se seguiu foi passado em viagem: os dois visitaram inúmeros alfarrabistas dos Estados Unidos e começaram a perceber como poderiam trabalhar com eles. Pouco depois, nascia a Alibris.

Alibris: onde o passado e o futuro andam de mãos dadas

Como seria de esperar, a Alibris foi evoluindo para se transformar num negócio cada vez mais completo. Embora a procura de livros usados continue a ser o serviço principal, a plataforma alargou-se a outras áreas e hoje vende também as mais recentes novidades literárias, assim como filmes e música.

Independentemente do crescimento, mantiveram-se os pilares da Interloc e os ideais de Marty e Dick. A empresa estabeleceu parcerias com números vendedores profissionais e independentes, conseguindo um total impressionante de 150 milhões de obras disponíveis à distância de um clique.

Além de ajudar os consumidores, a Alibris é também uma mais-valia para os alfarrabistas que assim têm uma forma de fazer com que os livros perdidos nas suas estantes sejam efetivamente vendidos. Um dos segredos para o sucesso do negócio está precisamente nessa relação de confiança. Aliás, se repararmos, o utilizador nem sequer precisa de abandonar a plataforma para efetuar a comprar.

A qualidade do serviço serviu também para homogeneizar os preços, para que os vendedores pudessem praticar preços justos e que não houvessem disparidades entre o mesmo livro vendido aqui e acolá. Quem tem a ganhar é o cliente que assim tem a garantia de que não lhe estão a pedir uma quantia exagerada por uma determinada obra.

No futuro, a Alibris espera alargar a oferta disponível e tornar-se tão competitiva na música e no cinema como é no mercado dos livros. O crescimento que ocorreu até agora é a prova de que já muito foi feito, mas a empresa não tem dúvidas de uma coisa: ainda há muito para conquistar.

 

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