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António Gedeão: leia agora o poema inédito publicado postumamente

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António Gedeão: leia agora o poema inédito publicado postumamente

 

Para sempre relembrado como um dos poetas mais importantes da literatura portuguesa do século XX, António Gedeão deixou-nos um legado poético de uma sensibilidade intensa e quase alquímica, tantas vezes enraizada nas ciências a que dedicou a maior parte da sua carreira.

Nascido como Rómulo Vasco da Gama Carvalho em Lisboa, no ano de 1906, faleceu na mesma cidade, em 1997. Para trás deixou a longa carreira como poeta, autor dramático, cientista e historiador. Com o seu nome próprio, Rómulo de Carvalho é autor de numerosos volumes de divulgação da cultura científica, publicados, nos anos 50 e 60.

No entanto, é como poeta e sob o pseudónimo de António Gedeão que melhor o conhecemos. Contemporâneo da geração de “Presença”, o poeta só se revelou na segunda metade do século, sendo saudado, no momento da sua revelação, por David Mourão-Ferreira como uma voz “inteiramente nova” no panorama poético dos anos 50.

Para essa originalidade concorriam, entre outros traços, a incorporação das tradições do primeiro e segundo modernismos, a opção por um estilo rigorosamente cadenciado e ritmado, a expressão da inquietação e angústia colectivas do Homem do pós-guerra ou o recurso frequente a uma terminologia ou imagística provenientes do domínio científico.

O seu trabalho tocou tantas pessoas, e tantos artistas de áreas que ultrapassam a literatura, que vários dos seus poemas foram também divulgados através da música, como, por exemplo, Calçada de Carriche, Fala do Homem Nascido, Lágrima de Preta e Pedra Filosofal, tendo este último, composto e cantado por Manuel Freire, obtido um sucesso invulgar.

No livro Poetas Visitados, da jornalista Maria Augusta Silva, temos a oportunidade de revisitar o trabalho de dezasseis poetas e também de conhecer dezasseis poemas inéditos de tais nomes entre os quais se encontra um assinado por António Gedeão. É esse mesmo poema que apresento a seguir.

Poema inédito de António Gedeão: “Certezas, precisam-se”

 

Preciso urgentemente adquirir meia dúzia de valores absolutos,

inexpugnáveis e impenetráveis

firmes e surdos como rochedos.

 

Preciso urgentemente de adquirir certezas,

certezas inabaláveis, imensas certezas, montes de certezas

certezas a propósito de tudo e de nada,

afirmadas com autoridade, em voz alta para que todos oiçam,

com desassombro, com ênfase, com dignidade,

acompanhadas de perfurantes censuras no olhar carregado, oblíquo.

 

Preciso uegentemente de ter razão,

de ter imensas razões, montes de razões

de eu próprio me instituir em razão.

Ser razão!

Dar um soco furibundo e convicto no tampo da mesa

e esplanar razões nas ventas da assistência.

 

Preciso urgentemente de ter convicções profundas,

argumentos decisivos,

ideias feitas à altura das circunstâncias.

Preciso correr convictamente ao encontro de qualquer coisa,

de gritar, de berrar, de ter apoplexias sagradas

em defesa dessa coisa.

Preciso de considerar imbecis todos os que tiverem opiniões diferentes da minha,

de os mandar, sem rebuço, para o diabo que os carregue,

de os prejudicar, sem remorsos, de todas as maneiras possíveis,

de lhes tapar a boca,

de lhes cortar as frases no meio,

de lhes virar as costas ostensivamente.

Preciso ter amigos da mesma cor, caras unhacas,

que me dêem palmadinhas nas costas,

que me chamem pá e me façam brindes

em almoços de camaradagem.

Preciso de me acocorar à volta da mesa do café,

e resolver os problemas sociais

entre ruidosos alívios de expectoração.

Preciso de encher o peito e de cantar loas,

e enrouquecer a dar vivas,

de atirar o chapéu ao ar,

de saber de cor as frequências dos emissores.

 

O que tudo são símbolos e sinais de certezas.

Certezas!

Imensas certezas! Montes de certezas!

Pirinéus, Urais, Himalaias de certezas!

O livro Poetas Visitados

O livro “Poetas Visitados”, editado pelas Edições Caixotim foi apresentado em 2004 e hoje, mesmo que seja difícil encontrá-lo à venda, tornou-se possível resgatar esta brilhante pérola poética de António Gedeão.

Entre os 16 nomes de poetas que são revisitados encontra-se Albano Martins, Ana Luísa Amaral, António Osório, António Ramos Rosa, Armando Pinheiro, Casimiro de Brito, Cruzeiro Seixas, e. m. de Melo e Castro, Gastão Cruz, João Rui de Sousa, Joaquim Pessoa, José Manuel Mendes, Manuel Alegre, Manuel António Pina, Teresa Rita Lopes e, claro, António Gedeão.

 

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