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Artur Varatojo: o português da literatura policial

Artur Varatojo: o português da literatura policial

 

Comunicador nato ligado à literatura policial, Artur Varatojo não se distinguiu apenas na escrita. Durante 25 anos esteve ligado à rádio, mas foi na televisão que ganhou mais notoriedade como especialista de criminologia e assuntos policiais, em programas como “ABC do Crime” e “Selecção Policial”.

Há alguns anos atrás, a Goreti Teixeira teve a oportunidade de entrevistar o autor e de debater um pouco sobre o estado da literatura policial, durante a sua passagem  no I Colóquio sobre a Literatura Policial, no Fórum da Maia.

Neste post, prestamos uma última homenagem a Artur Varatojo – que faleceu em 2006, com 80 anos –  assim como ao género policial que marcou a sua vida e carreira enquanto escritor e inspetor.

Artur Varatojo: como está o género policial?

Goreti Teixeira (GT): Concorda que a literatura policial tem estado um pouco à margem dos outros géneros literários?

AV: Claro que sim. Actualmente, os principais concorrentes da literatura policial passam pelos livros de Harry Potter, O Senhor dos Anéis e ainda pelos livros das jovens escritoras portuguesas, que suscitam o interesse da juventude pelos relatos que fazem do dia-a-dia e porque sabem molhar muito bem a pena no sexo. São estes os livros que se vendem e não os do crime que acabam por ficar na prateleira.

GT: Durante a sua passagem pelo I Colóquio sobre Literatura Policial que decorreu no Fórum da Maia, a sua dissertação incidiu sobre o famoso detective Sherlock Holmes. Porquê esta escolha?

AV: Tentei ligar esta personagem ao seu autor, Conan Doyle. O objectivo era dar a conhecer aos presentes um pouco sobre este enigmático detective, explicando como é que ele nasceu, que relação é que o autor tinha com a sua criação, se gostava desta figura ou se a detestava. Particularmente, acho esta personagem detestável, porque conseguiu tirar protagonismo ao seu autor. Se fizermos uma entrevista de rua e perguntarmos às pessoas quem é o Sherlock Holmes todas elas sabem quem é um detective ou um investigador. No entanto, se perguntarmos quem é Conan Doyle ninguém sabe e afinal foi ele quem lhe deu vida. Por vezes as criações acabam por ultrapassar os próprios autores. Talvez por isso, nos poucos contos que escrevi, criei a personagem do inspector Varatojo. Esta figura não pode passar por cima de mim, porque foi criado com o meu próprio nome.

GT: Qual é a base para a construção de um conto ou novela policial?

AV: Em primeiro lugar tem que existir um cadáver. Podemos inventar um roubo espectacular, mas o crime é muito mais atraente. Depois é necessário criar vários suspeitos, dando assim a oportunidade ao público de se “armar” em Sherlock Holmes e dar os seus palpites. Se o leitor é enganado com pistas falsas acaba por detestar o autor, mas se durante a leitura chega à conclusão de que lhe passou ao lado um pormenor importante para desvendar o caso, então o autor é formidável. Esse era o êxito de Sherlock Holmes.

 

Mesmo nos jornais de hoje isso acontece, não temos é a continuação dos casos. São escritas algumas linhas sobre os anos a que foi condenado, mas o que interessa ao público é saber o porquê dele ter cometido tal crime. O que importa é saber toda a história que está para trás até ter chegado a este ponto.

GT: Na sua opinião que medidas deveriam ser tomadas para que a literatura policial pudesse renascer, digamos assim?

AV: Precisa do apoio da imprensa, da televisão, da rádio, ou seja, dos grandes meios de divulgação que em vez de lutarem unicamente pelo crime, têm de lutar pela literatura policial. É necessário criar um ambiente, estimular as editoras, porque as nossas editoras têm vontade de lançar no mercado livros policiais, no entanto, precisam de ter uma boa distribuidora, o que já é difícil. Depois existe a forte competição, porque todos os dias saem para as livrarias centenas de livros de todos os géneros, alguns deles bem publicitados porque já ganharam prémios e estão bem cotados no estrangeiro. A desgraçadinha da literatura policial acaba por ir para debaixo do balcão.

GT: Nos seus contos de Natal, alguma vez escreveu algum em que o Pai Natal é assassinado?

AV: Não é assassinado em nenhum, porque os contos são todos de ordem humana. Num deles, por exemplo há um indivíduo que actua vestido de Pai Natal, mas acaba por ter uma atitude de salvar alguém. Noutro há também uma homem desempregado que interpreta a figura do Pai Natal e, pelo facto de ter ajudado um indivíduo de ser atropelado acaba por arranjar emprego. Em todos os meus contos há sempre uma participação um bocado piegas pela minha parte, mas humana.

GT: Recorde-me um pouco dos 25 anos em que teve um programa na rádio?

AV: Durante esse tempo fomentei bastante aquela que considerava ser a boa e sã literatura policial. Era um programa composto por textos, concursos em que os leitores que tinham de responder a determinados problemas, adaptações radiofónicas de contos famosos. Na altura, cobri quase todas as estações, porque o programa era transmitido no Rádio Clube Português, na Renascença, nos Emissores Associados, em Angola, em Moçambique, na Guiné, nos Açores…

Foi um período do qual sinto saudades e há bem pouco tempo um amador ligado a estas coisas da Internet pediu-me alguns desses programas de rádio que ele passou, tendo só naquela semana recebido a visita de 11 mil pessoas. Isto quer dizer que o público também tem saudades desse tempo, mas nenhuma estação de rádio me convidou para voltar a fazer um programa daquele género, porque se o fizerem eu aceito.

 

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