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As Brumas de Avalon: cavaleiros, irmãs feiticeiras e espadas míticas

As Brumas de Avalon: cavaleiros, irmãs feiticeiras e espadas míticas

 

Estamos algures em 2005 quando tropeço pela primeira vez nas lendas arturianas. Já conhecia o mítico Rei Artur – uma personagem do folclore inglês – do filme da Disney A Espada Era a Lei. No entanto, estava consciente de que havia muito para além da história do rapaz que tira uma espada encantada de uma pedra. Uma vez que já tinha lido Harry Potter e aguçado o meu interesse pela magia, tinha-me cruzado com nomes como Merlin e Morgan le Fay, que sabia pertencerem a este universo mítico.

E, embora não saiba muito bem como, tinha ouvido falar de Avalon e de uns livros chamados As Brumas de Avalon que, só pelo nome, parecem auspiciar logo algo de místico. Felizmente, a minha mãe trabalhava numa livraria e soube-me esclarecer sobre o que eram aqueles quatro livros de Marion Zimmer Bradley.

Ao ver-me tão fascinado, a minha mãe decidiu presentear-me no Natal desse ano com os dois primeiros títulos dessa saga… e o álbum Amarantine da artista Enya. Os meus amigos ainda hoje se riem quando conto esta história, mas a verdade é que aquele foi um excelente Natal! Em menos de uma semana, li o primeiro livro ao som das músicas celtas e místicas da cantora irlandesa. Uma combinação muito bem pensada.

Hoje, dez anos depois de ter lido a saga, volto a revisitar o mundo de Camelot, a passar por entre As Brumas de Avalon e a contar-vos a história do Rei Artur e da sua meia-irmã Morgaine. Pelo menos, segundo a perspetiva de Marion Zimmer Bradley.

As Brumas de Avalon: quem conta um conto, acrescenta um ponto

Antes de mais, quero fazer aqui uma breve explicação referente ao vasto universo arturiano. Ao longo da história da literatura, muitos autores tentaram contar e recontar as histórias de Artur, dos Cavaleiros da Távola Redonda e da sua malvada (ou não) irmã Morgaine. A questão é que não há certezas quanto a certos factos. Há até mesmo quem conteste se o Rei Artur existiu ou não. Assim, os livros d’As Brumas de Avalon são apenas mais uma adaptação de histórias folclóricas, com claras notas de ficção provenientes da mente da autora.

A acção dos quatro livros acontece numa Britânia que se encontra em crise política e religiosa, algures no século IV ou V depois de Cristo. Por esta altura, a ilha Britânia e os seus reinos eram governados por um Rei Supremo e, no território, era possível  encontrar inúmeras tribos celtas que resistiam à Nova Fé e continuavam a praticar culto à Deusa Pagã.

Entretanto, do mar vinham os ataques de Anglo-Saxões, provenientes de terras nórdicas como a Germânia e que procuravam conquistar glória e pilhar riqueza. Neste panorama, a doutrina cristã começa também a consolidar-se e a crescer ao ponto de se tornar rival da religião celta.

Percebido o contexto histórico, falemos então de Avalon. Reza a lenda que Avalon era uma ilha, situada algures na Britânia – que alguns historiadores acreditam ser, hoje, a cidade de Glastonbury, no sul de Inglaterra – e que funcionava como o coração da velha religião celta. Era aí que a Grã Sacerdotisa vivia e treinava iniciantes nas artes da alquimia, das ervas, da magia e da adoração à Deusa, ao lado do Grão Sacerdote, também conhecido como Merlin, que supervisionava a educação dos homens.

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Mas este eram costumes em declínio: os livros mostram-nos como há cada vez mais pessoas a render-se à fé cristã e a repudiar a divindade da Terra. Na tentativa de salvar a religião celta, a Grã Sacerdotisa Viviane alia-se a Merlin para, juntos, colocarem em marcha um plano que salve Avalon. Como que por magia, quanto mais as pessoas esquecem a Deusa, mais a Ilha de Avalon se perde entre o manto de brumas que a envolve, como uma muralha natural disposta a protege-la de inimigos.

A solução será, portanto, colocar no Trono um Rei Supremo que apoie tanto a Religião Cristã como a Celta e que, ao partir na luta contra as invasões dos Anglo-Saxões, se faça acompanhar de um estandarte que leve tanto a cruz de Cristo como o símbolo da Deusa. O primeiro livro mostra-nos logo o plano de Viviane para que a sua irmã, Igraine, se aproxime de Uther Pendragon, o homem que em breve se vai tornar Rei Supremo da Britânia.

Casada com Gorlois, com quem já teve uma filha chamada Morgaine, Igraine obedece à irmã e a Merlin. A profecia acaba por se concretizar e, em poucos meses, Uther mata Gorlois num campo de batalha, casa com Igraine e é eleito pelos reis da Britânia para ocupar o trono. Mas este era só o início dos planos de Viviane e Merlin: o futuro de Avalon reside, na verdade, nas duas crianças de Igraine: Morgaine e o seu filho com Uther, o famoso Artur.

As Brumas de Avalon: magia, incesto e tragédia

Artur deverá ser, um dia, o homem a ocupar o Trono Supremo da Britânia e a sentar na mesma mesa celtas e cristãos, garantindo que há espaço para os novos e velhos costumes. Em criança, é levado para casa de um guerreiro onde recebe a educação necessária para se tornar rei. Morgaine é levada para Avalon, onde aprende tudo o que precisa de saber sobre a religião celta e treinada para, um dia, assumir o lugar de Grã Sacerdotisa.

Eventualmente, quando Morgaine e Artur terminam os seus treinos, os estrategas Merlin e Viviane preparam o próximo passo do plano: o reencontro dos irmãos. Mas se estava à espera de um momento feliz e familiar, desengane-se. Os irmãos encontram-se, mascarados, durante o ritual da fertilidade, também conhecido como Beltane. Depois de matar um Veado, Artur dirige-se a uma caverna para consumar o seu prémio: a virgindade da irmã. Esta relação incestuosa, e absolutamente chocante era, no entanto, desconhecida pelos irmãos. Nenhum deles sabia a verdadeira identidade do outro (porque não se viam desde crianças) e julgavam estar apenas a cumprir os desígnios da Deusa.

Ironicamente, esta foi a etapa do plano de Viviane e Merlin que provocou a tragédia que se segue nos livros seguintes. Morgaine Le Fay, que neste livro não é uma vilã como a pintam em muitas outras histórias, é quem nos relata toda a história. Para mim, é uma das personagens literárias mais brilhantes com que me cruzei.

A Saga as Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley, composta por quatro livros, conta-nos a ascensão de Artur ao Trono até ao momento em que perde a sua última batalha. Pelo caminho encontramos uma galeria de personagens e histórias, nas quais destaco obviamente Lancelot, o cavaleiro mais leal da Távola Redonda, que se apaixona por Guinevere, a rainha e esposa de Artur.

 

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Comments

  • Iara
    13 Agosto, 2017

    Que legal! Li os livros de Marion quando tinha vinte anos e todos eram emprestados da biblioteca municipal de minha cidade, Piracicaba. Lembro bem dos livros com muitas páginas e sem capas tão sugestivas como essas que vi aqui. Porém não deixou de ser uma viagem e tanto nas histórias em torno de Rei Arthur na visão e narrativa feminina.

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