Home / Literatura Portuguesa /

O barroco também chegou à Literatura Portuguesa

O barroco também chegou à Literatura Portuguesa

 

Generalizou-se o uso do termo Barroco para designar as características mais gerais que então assumem a cultura seiscentista ocidentais. No seu sentido histórico mais geral, Barroco designa um certo número de estruturas formais ligadas com inovações técnicas e científicas que essencialmente correspondem à coexistência e interdependência, mesmo conflituosa, de formas sociais profundamente diferentes na Europa.

É tal a renovação da pintura que permite, tanto a Rubens como a Velásquez, criar a sensação da atmosfera organizando o espaço pintado segundo gradações de cor ou segundo linhas de movimento aparentem ou que permite, tanto a Rambrandt como a Zubarán, recriar as sensação de espaço pelo claro-escuro. Mais: é tal o crescimento da arte dos sons, que permite a Bach e Handel organizar a música em profundidade.

Na medida em que se considere o Barroco como ligado ao Absolutismo, o seu contorno define-se mais claramente. Com efeito, a centralização régia levada a auge, e de resto em perfeito sincronismo com o reforço da autoridade papal e da disciplina eclesiástica católica, faz-se sentir, principalmente, na arquitectura.

A questão é que o Barroco também chegou à literatura portuguesa e neste post, que faz parte de um especial sobre a história literária de Portugal, é sobre este género que falamos.

As minas do Brasil e o apogeu do Barroco em Portugal

A descoberta do ouro e dos diamantes do Brasil, assim como o incremento das exportações de vinhos (estabilizadas pelo tratado de Methuen em 1703), adiam de novo o problema económico e social português.

No tempo de D. João V, o  ouro brasileiro repete os efeitos das especiarias de Quinhentos: a indústria definha, o comércio externo tem como base a exportação de ouro, a emigração aumenta, a burguesia dedica-se ao contrabando e a disciplina monástica mundaniza-se. É nesta altura que se publica o mais extenso cancioneiro do barroquismo, a Fénix Renascida, que depois será actualizada sob o título de Postilhão de Apolo. Os títulos dos livros são muito longos  compostos.

Considerado o mais significativo de seu género à época, a Fénix Renascida não se encontra sistematizada de forma alguma e mistura poesias líricas, heróicas, satíricas e burlescas, religiosas e outras puramente narrativas.

O petrarquismo, o erotismo muito realista, a caducidade da vida, temas fúteis, a sátira aos vícios da sociedade, motivos religiosos e históricos: são apenas alguns dos temas todos retratados de forma ornamental nos textos desta obra.

 

A  Corte na Aldeia (1619), de Francisco Rodrigues Lobo, foi o primeiro livro português em que se discutiram e teorizaram duas características do barroco: o cultismo, ou seja, o gosto da superlativação que utiliza sobretudo metáforas e recursos de expressividade meramente verbal; e o conceptismo, isto é, o exercício da agudeza de engenho, o virtuosismo de um pensamento que procede por meio de subtilezas analógicas.

A Corte na Aldeia podia servir de vade-mécum às numerosas academias que, a partir da dos Singulares (1628), foram surgindo em Lisboa e no Brasil, à sombra de certas casas senhoriais ou então de certos altos dignatários eclesiásticos.

Nestas academias os filhos letrados da burguesia, que ascendiam pela Universidade às altas magistraturas, ombreavam com a aristocracia de sangue. Mas o espírito cortês, o amaneiramento de relações tornou-se nelas a nota dominante, o que não permitiria intrusões plebeias como as de Solino na Corte na Aldeia.

Padre António Vieira e os seus sermões

O legado literário do Padre António Vieira é enorme, pois compreende cerca de duzentos sermões, mais de meio milhar de cartas, numerosos relatórios, representações, pareceres e outros documentos da natureza política ou diplomática, além de opúsculos religiosos ou de exegese profética, e de defesa perante a Inquisição.

O primeiro traço característico desta obra reside na sua entrada na ligação com a vida pública: o escritor e o homem de acção são indissociáveis em Vieira, e o mais profundo interesse dos seus escritos deriva justamente disso.

Mesmo as peças de oratória sacra intervêm, com frequência de modo aberto, nas questões mais candentes da política brasileira ou metropolitana. É por isso que a eloquência mais persuasiva e o recheio mais denso da sua obra se vão encontrar nos passos mais directos dos seus sermões, nas cartas mais longas e empenhadas em polémica, ou oferecendo documentos admiráveis, como aqueles que se relacionam com as suas grandes campanhas contra o estilo brutal da Inquisição portuguesa e contra a escravidão ou arbitrário tratamento dos Ameríndios.

 

Partilhar este artigo

Deixar Comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *