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Bob Dylan, Nobel da Literatura 2016: Os Tempos estão a Mudar

Bob Dylan

Bob Dylan, Nobel da Literatura 2016: Os Tempos estão a Mudar

 

Com alguma surpresa, Bob Dylan foi anunciado como o Prémio Nobel da Literatura 2016 por “ter criado novas formas de expressão poética dentro da grande tradição musical Americana.” A distinção, anunciada na quinta-feira dia 13 de outubro de 2016, provocou de imediato uma série de aplausos na sala da Academia Sueca. Todos os jornalistas esperavam que o anúncio recaísse em nomes como Haruki Murakami, Philip Roth, Adonis ou Ngugi wa Thiong’o.

Porém, para confusão de muitos, foi o músico Bob Dylan o nome anunciado. Uma escolha menos convencional mas que é merecida. Nascido no Estados Unidos da América, mais precisamento no estado de Minnesota, Bob Dylan nasceu com o nome de Robert Allen Zimmerman. Neto de judeus russos que tinham emigrado para os Estados Unidos, Dylan começou desde muito cedo a mostrar uma aptidão não só para a música – meio onde é mundialmente reconhecido – mas também para a poesia. À medida que aprende piano e guitarra sozinho, começa a desenvolver um apetite pela literatura.

Os anos vieram a ditar que se tornaria uma referência no mundo da música. Com uma carreira que já ultrapassou a barra dos 50 anos, é uma referência dentro do género da música rock e foi apontado pela revista Rolling Stone como o 7.º artista mais importante de todos os tempos. Mas continua a faltar algo aqui: qual a ligação de Bob Dylan ao mundo da literatura?

Esta pergunta será feita e debatida várias vezes nas próximas semanas. Já que Bob Dylan é principalmente visto como uma referência musical e não como um nome de peso literário – pelo menos não ao ponto de outros favoritos deste ano – por que razão ganhou o Nobel da Literatura?

O facto de Bob Dylan ter escrito a maior parte das músicas que interpretou ao longo da sua carreira é por si só um manifesto do seu talento poético. O álbum Blonde on Blonde, 0 sétimo disco do norte-americano, é uma verdadeira obra poética em formato musical. É neste álbum que podemos encontrar algumas das suas canções mais conhecidas e que melhor representam o seu estilo artístico, como Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again e Just Like a Woman. Basta ouvirmos esta músicas e absorvermos a letra para percebermos por que razão o músico foi laureado com a distinção máxima da literatura.

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Além de todo o seu conhecido trabalho poético, Bob Dylan escreveu em 1966 o livro Tarântula, o seu único trabalho de ficção, que faz uma excelente alternância entre poemas e prosa. E aqui percebe-se também a relação próxima com a música, já que a obra reflete as preocupações artísticas que encontramos nas canções contemporâneas de Bob Dylan: um sentido de protesto, uma diversão e espontaneidade verbais, e uma crença na legitimidade da rua. Vamos falar deste mesmo estilo que tanto assenta no conceito de conflito mais à frente.

Mais recentemente, publicou também a elogiada autobiografia Chronicles (2004) – disponível na FNAC PORTUGAL AQUI ou na LIVRARIA CULTURA AQUI – e os livros If Dogs Run Free (2013) e If Not You (2016) com reinterpretações de canções suas direcionadas ao público infantil, contando com a ajuda dos ilustradores Scott Campbell e David Walker, respetivamente.

O título deste post, que é uma referência direta a uma das músicas mais conhecidas de Bob Dylan, está dotado de uma verdade que se espelha cada vez mais à nossa volta. Já não precisamos de papel para consumir literatura. Nem estamos a falar do confronto entre digital e papel: estamos a falar de toda a outra literatura que nos rodeia, que sempre nos rodeou, mas que não tem o reconhecimento merecido simplesmente porque não está impressa em papel.

Não podemos considerar literatura a poesia que encontramos na letra de uma música, que foi trabalhada criativamente como tantos outros poemas e livros de ficção? A nós esta parece uma atribuição justa do prémio – ainda que surpreendente – e uma prova que estamos mesmo a avançar para um mundo de mudança.

A principal influência de Bob Dylan

Sabia que o nome artístico de Robert Zimmerman, o famoso Bob Dylan, bebe diretamente de um grande nome da literatura? Foi em 1959 que Bob Dylan se apresentou pela primeira vez com este nome. Na sua autobiografia, revelou que era a sua forma de homenagear o poeta galês Dylan Thomas, o homem que moldou o estilo lírico e até mesmo os tipos de músicas que Bob Dylan escreveu ao longo da sua carreira.

Um tema central na maior parte da poesia de Dylan Thomas é o conflito: o conflito entre o conteúdo e a estrutura do poema, o conflito entre o sujeito e o assunto de que está a falar, entre outros. Este mesmo tema de conflito também pode ser visto na obra de Bob Dylan, que muitos consideram ser o maior compositor de protesto de todos os tempos. Bob Dylan esteve constantemente em conflito com alguma coisa, quer se trate de racismo na “Oxford Town” ou a guerra em “Masters of War“. A poesia de Dylan, assim como a poesia de Thomas, é uma poesia que vive do conflito.

Mas a presença de conflito no trabalho de Dylan não é o único indicador da influência de Thomas. A poesia de Thomas também é notoriamente lírica. Há uma espécie de musicalidade para os seus poemas que podem ser ouvidos quando as palavras são lidas em voz alta e que não está presente na obra de outros poetas. Este mesmo estilo lírico pode ser encontrado nas letras compostas por Bob Dylan.

 

A influência da Beat Generation

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A evolução do ritmo dos blues para o rock and roll foi fortemente evidenciada graças a artistas como Bob Dylan e a músicos que, na década de 60, eram influenciados diretamente pelo trabalho de poetas e escritores do conhecido movimento Beat Generation. Mesmo que Bob Dylan tenha chegado já na reta final deste movimento, o contributo que deu e continua a dar foi significativo e forte o suficiente para fazer parte da História.

Ao longo da sua carreira Bob Dylan admitiu também a forte influência que o movimento teve na sua escrita. “Só comecei a escrever poesia quando deixei o secundário. Tinha dezoito anos ou perto disso quando descobri Ginsberg, Gary Snyder, Philip Whalen, Frank O’Hara e esses tipos todos.” Aliás, a relação de Ginsberg e Dylan é hoje vista como a relação entre um pai e um filho, apesar de Ginsberg ser apenas quinze anos mais velho.

A proximidade dos dois era mais do que evidente, tendo trabalhado juntos em inúmeras ocasiões. Dylan admitou mesmo que Ginsberg foi uma influência fundamental no seu trabalho e na sua vida. Um amigo, colega e mentor, os dois partilharam ideias e trocaram impressões quanto aos trabalhos um do outro.

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E, claro está, o trabalho de Jack Kerouac também pesou como influência para Bob Dylan, ainda que nunca se tenham conhecido pessoalmente. Apesar da ligação de Bob Dylan a Jack Kerouac ser meramente artística, na verdade o autor de On The Road foi uma das grandes fontes de inspiração na personalidade do cantor. Contudo, como disse o próprio Dylan na sua autobiografia, depois de se mudar para Nova Iorque perdeu rapidamente aquele espírito hipster, cru e sem propósito personalizado por Dean Moriarty, no livro On the Road, personagem inspirada em Neal Cassady. Esta é a prova de que Bob Dylan conhecia intimamente o trabalho de Kerouac e se revia nele, mas foi além dessa influência.

Todavia, pela altura em que Bob Dylan começou a sua carreira, Jack Kerouac preparava-se para terminar a sua, mergulhando na espiral obscura de alcoolismo e paranóia que o matou na década de 1969, quando tinha apenas 47 anos. Como dissemos acima, os dois nunca se conheceram, mas Bob Dylan visitou mais tarde a sepultura de Kerouac com Allen Ginsberg, como podemos ver na fotografia acima, numa das imagens mais icónicas da sua relação direta com a Beat Generation.

O atraso do nobel da Literatura em 2016

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Todos os anos, em outubro, são atribuídos os seis prémios Nobel no espaço de uma semana. No entanto, algo inédito se sucedeu em 2016 quando foi comunicado que a atribuição do Nobel de Literatura seria mais tarde do que previsto.

Ainda que tenham surgido rumores de que o atraso foi provado porque os júris não conseguiam chegar a consenso, o académico Per Wästberg negou os rumores e alegou que o atraso foi meramente provocado por uma questão de logística. Ainda assim, os rumores voltaram a ganhar mais alento quando o editor de cultura de um reputado jornal suíço apontou que havia desacordo entre o júri.

E que desacordo poderá ter sido este? Os especialistas acreditam que possa estar relacionado com o mais recente trabalho do poeta sírio Adonis – que era um dos favoritos – e que apresenta uma visão polémica e política do islamismo. Em 2005, também aconteceu um pequeno atraso quando o júri entrou em desacordo quanto ao trabalho de Orhan Pamuk – que acabou por não vencer em 2005 – mas que eventualmente foi condecorado com a distinção no ano seguinte.

No ano passado o prémio foi atribuído à bielorrusa Svetlana Alexievich. Recordamos que o prémio Nobel da Literatura foi entregue pela primeira vez em 1901 e, desde então, já distingiu 113 escritores entre os quais o português José Saramago. Para saber mais sobre a história deste prémio e o processo de atribuição do mesmo, recomendamos a leitura do post Nobel da Literatura: tudo o que precisa de saber.


 

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