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A Crucificação e a Canção de Henry Miller

A Crucificação e a Canção de Henry Miller

Que seus detratores o acusem de pornógrafo, de misógino, de preconceituoso – tudo bem. Que muitos países tenham fechado as portas a sua obra; considerando-a muitas vezes obscena, de mau gosto, e mesmo assim, viessem a publicá-las décadas depois – tudo bem também. Porém, ninguém há-de negar, assim como o poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891), e mais tarde, o também poeta, romancista e dramaturgo Jean Genet (1910-1986), o escritor norte-americano Henry Miller (1891-1980) foi para a virada do século XIX, para o século XX, um modelo de romantismo.

Com o mesmo júbilo com que Walt Whitman cantou a Canção de mim mesmo, partindo da perspectiva do próprio (Ser) corpo para falar sobre gênero, raça e democracia, Henry Miller também exaltava, a maneira de um clown, as maravilhas de sua existência, suas misérias e principalmente “o prazer” – Isso ainda no florescer da psicanálise.

O homem, uma vez expulso do paraíso, havia ficado doente. E para Miller, a vida mecanicista em que estava inserida a sociedade pós-revolução industrial; e mais precisamente o American way of life, é o que levaria a sua destruição. Por isso, a única salvação seria à volta ao estado das coisas “essências”, a vida santa.

E era como uma espécie de santo; não se apegando a nada – além de um pouco mais que um prato de comida, nem a ninguém – que não fossem amizades genuínas ou paixões casuais, é que recorreu às experiências próprias de quase indulgência, chegando até mesmo a passar fome (Nova York, Paris…) em busca de uma verdade, ou sentido mais profundo da vida; retratando tipos sórdidos, dementes ou na maioria das vezes, ordinários – Que poderiam inclusive ter saído de alguma novela de Dostoiévsky, sua maior influência- e mais comumente a prostituição.

 

Há, em toda a sua obra, uma nostalgia à ideia do Paraíso perdido. Uma celebração a vida no seu estado mais primitivo, como a figura do bom selvagem. Em seus textos, sempre estabelecia contrapontos entre a vida na civilização (a quem sempre atacava ferozmente) e a vida em tribo (dogmas, costumes e rituais) e seus sentidos cosmogônicos, místicos, como a teosofia de
Madame Blavatsky. Henry Miller criou um tipo singular de humanismo, na forma mais ampla do que se possa entender essa palavra, indo do aspecto mais baixo do ser humano ao mais sublime. Deu voz aos seres invisíveis, homens comuns, habitantes das sarjetas por onde andou. Ou que outro autor de nosso tempo poderia nos dizer algo como: A prostituta é uma espécie de santa, porque despreza a carne quando se está apaixonada? Talvez, somente algum outro tipo de homem que tivesse peito suficiente para dizer: Quem nunca pecou que atire a primeira pedra…

“O sexo” no universo de Miller parte de um imperativo natural, como na literatura do romancista inglês D.H. Lawrence – tão essencial como outras funções fisiológicas orgânicas. Porém, diferente de Lawrence, Henry Miller expressa a condição patética humana em sua literatura, ao mesmo tempo em que se aproxima das ideias dos escritores libertinos do século 18, e da noção subjetiva “sobre o corpo” que havia nos movimentos de vanguarda europeus – como o dadaísmo e o surrealismo, do qual era entusiasta – assim como de outros movimentos que também tivera contato, como o anarquismo.

Mas foi na pornografia que ganhou maior notoriedade.

Sim, foi no campo minado do “sexo” que fez sua bandeira – quase um princípio particular de moralidade – e paradoxalmente enxergou na carne a libertação – ainda no longínquo ano de 1934, quando lançou o seu primeiro livro, Trópico de Câncer, relato de sua vida de penúria nas ruas e cabarés da Cidade Luz; antecipando o que seria conhecido mais tarde como “amor livre”. Saindo da condição de maldito, para finalmente ser um dos escritores mais celebrados pela juventude hippie, quase trinta anos depois.

Entretanto, restringir sua obra apenas ao “erotismo” é cair em erro. O grande tema de Henry Miller sempre foi a liberdade. Assim como o diretor de cinema Quentin Tarantino usa a violência como ferramenta em seus filmes, Henry Miller foi um homem que usou as armas do seu tempo. Quem já leu seu magistral ensaio “O tempo dos assassinos”, um paralelo em que Miller estabelece entre sua vida e obra, ao do poeta Rimbaud, sabe do que estou falando – E acreditem-me, há mais semelhanças do que diferenças entre os dois gênios. Bem como no livro-viagem “O colosso de Marússsia”, livro que conta da sua estada na Grécia no período de entre guerras; ao seu modo, um relato lírico, sobre homens comuns, poetas, mitologia, sonhos e sobre passado e futuro da raça

Li pela primeira vez Henry Miller no ano de 2001, na casa de um amigo, seu livro Sexus, uma edição da editora  círculo do livro, de 1985. Era um livro de capa vermelha, estampada com o dorso de uma mulher com os seios quase a amostra (final de ditadura…), de camisola preta, que mais se assemelhava a uma edição da revista playboy.

Fiquei sem chão.

Há muito que desejava escrever sobre Henry Miller, mas, confesso, estava reunindo coragem para escrever sobre esse Gigante. (Apesar de que li todos os seus livros que foram publicados no Brasil, uma pequena biografia sua, e alguns livros de Anaïs Nin, porque figurava Henry Miller!) Se eu consegui, ou não, não sei. Talvez, por minhas palavras, nada; por minhas intenções, tudo! [1]

 

[1]  Trocadilho com o famoso poema de Walt Whitman: Não me fechem as portas, orgulhosas bibliotecas Não me fechem as portas, orgulhosas bibliotecas, pois justamente o que estava faltando/em tuas prateleiras apinhadas, é o que venho trazer/-mal acabado de sair da guerra, um livro: Pelas palavras do meu livro, nada; Pelas intenções, tudo!

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