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Como é Linda a Puta da Vida: um livro que não é só de Miguel Esteves Cardoso

Como é Linda a Puta da Vida: um livro que não é só de Miguel Esteves Cardoso

 

Como é Linda a Puta da Vida, de 2013, é um livro de Miguel Esteves Cardoso, mas que não é só dele. A obra resulta da junção de vários textos escritos pelo cronista para o jornal Público e que, uma a uma, foram sendo publicados e partilhados com os leitores. Transformadas agora em livro, estas crónicas que se fundem com a vida do autor contam trivialidades, paixões eternas e observações mais ou menos pertinentes.

Segundo o próprio, esta foi a primeira vez que o escritor e o homem se cruzaram nas mesmas páginas. Numa escrita tão criativa quanto a que ele próprio se permite, Miguel Esteves Cardoso fala de coisas tão díspares e aleatórias como comida, o tempo ou o sistema binário. Não fosse, aliás, esse o conceito de crónica: um género jornalístico onde o autor tem a liberdade para divagar episódios do seu dia-a-dia e do dia-a-dia dos outros, assim refletindo direta ou indiretamente a sociedade em que se insere.

Embora possam parecer, por vezes, desconexos, há algo nos textos de Miguel Esteves Cardoso que os distinguem. Além da escrita que é só dele, o autor possui uma visão do mundo peculiar e uma imaginação capaz de criar pontes onde elas, à primeira vista, não existem. Vejamos, por exemplo, a sinopse onde faz apologia do gato, dizendo que o animal “descobriu o sistema binário da existência”.

Parece algum complexo, não parece? Não é: o sistema binário da existência não é mais do que a seguinte sequência de ideias: “Dormir faz fome. Comer faz sono. Acordo porque tenho fome. Adormeço porque comi. Nos intervalos faço as necessidades””. Faz sentido, não?

Com uma escrita simples e despretensiosa, Miguel Esteves Cardoso tem o mérito de ser capaz de conjugar palavras numa ordem certeira. O resultado: põe-nos a pensar em algo que nunca nos tinha passado pela cabeça, mas que – de forma mais ou menos realista – até tem razão de ser.

Como é Linda a Puta da Vida: um livro vivido a dois

Palavrões à parte, resta dizer o porquê do título do livro. Como é Linda a Puta da Vida chama-se assim porque o autor qualifica a vida como “madrasta”. Todavia, segundo o próprio, são as pequenas coisas que fazem com que ela mereça, ainda assim, o adjetivo de linda.

Nas palavras do escritor, Como é Linda a Puta da Vida foi escrito por Miguel Esteves Cardoso, mas é “um livro vivido a dois”. Nele cabe outra personagem, que talvez mais do que o próprio MEC, pode ser considerada como a principal. Falamos de Maria João, a mulher com quem partilha a vida e por quem nutre um amor que os leitores foram conhecendo, dia-a-dia, através das páginas do Público.

Em Como é Linda a Puta da Vida, Miguel Esteves Cardoso descreve as esperanças e desesperos de uma luta contra o cancro de que a Maria João sofreu, mas que também pôs a sua via em risco. Afinal, como disse numa reportagem à SIC, também ele teria morrido se a mulher tivesse sucumbido.

Dizemos por isso que o livro é nada mais do que o resultado desta viagem conjunta pela vida, pois também Miguel Esteves Cardoso não seria o mesmo enquanto escritor se não fosse a sua amada. “Foi o amor pela Maria João que me manteve vivo. Como escritor também”, lê-se no prefácio.

 

Maria João e os outros

Maria João é também o nome do primeiro capítulo, onde encontramos crónicas como Carta a Deus, Tens de ter força ou Um segredo de um casamento feliz. Organizadas cronologicamente, as crónicas formam uma narrativa, que é uma vida e vice-versa.

É neste capítulo que vemos os momentos de maior desespero e de maior alegria de Miguel Esteves Cardoso, sendo que o capítulo funciona como uma espécie de diário com narrações da luta contra o cancro, primeiro no cérebro e depois na mama.

Embora Maria não seja o único tema do livro, foi esta a parte que mais gostei. A forma como aborda a doença, o amor e a forma como os outros veem o cancro é diferente e desafia as mais profundas lógicas do pensamento social e humano. Revolta, paixão e esperança são alguns dos sentimentos espelhados pelas palavras de Miguel Esteves Cardoso.

“Um dos problemas do cancro e de outras doenças debilitantes é o conselho que damos aos doentes: “Tens de ter força!”. Não percebo este conselho que mais parece uma ordem. Que quer dizer? Que se deve criar mais força? Que se deve manter a pouca força com que se fica?”, lê-se em Tens de Ter Força.

A vida aos saltos, O tempo e o que se come nos intervalos, As coisas que nós cá sabemos e Os meus passageiros favoritos são os títulos dos outros quatro capítulos que se seguem. O tempo, o espaço, a memória e a portugalidade são alguns dos temas recorrentes das crónicas que, juntas, formam uma visão própria da realidade, roçando diferentes quadrantes da vida sozinho e com o outro.

Mais genéricos do que o primeiro capítulo, estas crónicas permitem-nos mergulhar na forma de pensar de Miguel Esteves Cardoso, algo que só seria possível se seguíssemos as publicações no Público. Livres, soltas, sem fio condutor e sem precisar de um, as crónicas de MEC formam um livro que é mais do que uma reflexão. Aos olhos de quem lê, fica um verdadeiro retrato da sociedade e do homem que a descreve.

 

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