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As crónicas de Fernão Lopes e as outras que se seguiram

As crónicas de Fernão Lopes e as outras que se seguiram

 

A maior personalidade da literatura medieval portuguesa, e também um dos nomes cimeiros da nossa literatura em geral, é o cronista Fernão Lopes, com quem se inicia a série de cronistas gerais do Reino.

A carreira de Fernão Lopes como cronista começa, segundo os registos que nos chegam até hoje, em 1419, ou antes, pois nesse ano colaborava com o então infante D. Duarte na compilação e redacção de uma crónica geral do reino de Portugal. Só em 1434 aparece uma referência oficial ao cargo para que o rei D. Duarte o nomeou – pôr em crónica as histórias dos reis que antigamente foram de Portugal e os feitos de D. João I –  pelo que é remunerado com uma tença.

Em 1449, pouco antes da Batalha de Alfarrobeira, ainda recebe uma tença de D. Afonso V pelos seus trabalhos literários, mas já nessa época tinha entrado em actividade um outro cronista, Gomes Eanes de Zurara. A última obra em que Fernão Lopes trabalhou foi a terceira parte da Crónica de D. João I, que ficou incompleta e foi continuada por Zurara.

Neste post, que faz parte de um especial do Mundo de Livros sobre a história da língua e literatura portuguesa, debruçamo-nos no importante trabalho literário executado por Fernão Lopes, que fundou uma dinastia de cronistas na História de Portugal.

As crónicas de Fernão Lopes

Para quem não está familiarizado com o termo, uma crónica é um relato de eventos históricos em ordem temporal. Este tipo de documentos, que existem desde a Antiguidade Clássica, tornaram-se especialmente comuns durante a Idade Média e o período do Renascimento. Por norma, cabia a um Cronista oficial, nomeado pelo soberano, estar encarregue de registar os acontecimentos para os deixar preservados para a posterioridade.

Fernão Lopes foi o primeiro cronista da História de Portugal, tendo até sido retratado no Painel do Arcebispo nos célebres Painéis de São Vincente (imagem principal do post) atribuídos a Nuno Gonçalves. Como resultado da sua longa atividade chegaram até nós: Crónica de El-Rei D. Pedro, Crónica de El-Rei D. Fernando e Crónica de El-Rei D. João.

A Fernão Lopes é atribuída ainda, apesar de estarem provavelmente inacabadas, as crónicas dos reis de Portugal, desde o governo do Conde D. Henrique até D. Afonso IV. Estas crónicas dos reis de Portugal têm como fundo principal a parte da Crónica Geral,  de 1344, referente aos respectivos reis; mas o seu redactor completou-as com documentos autênticos, tais como inscrições epigráficas e documentos de chancelaria, provavelmente encontradas na Torre do Tombo. Entre as fontes mencionadas, conta-se uma crónica de D Afonso Henriques e versões contraditórias do reinado de D. Sancho II.

O método de Fernão Lopes

Fernão Lopes (imagem abaixo) excede a craveira de um cronista à maneira medieval. Se é verdade que parte da sua obra faz a compilação de memórias anteriores, também é verdade que outra parte já resulta de uma investigação original e crítica. Isto representa um grande avanço sobre a historiografia medieval, nomeadamente sobre a francesa, que não passa de uma reportagem baseada em recordações pessoais ou relatos de testemunhas.

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Como guarda-mor da Torre do Tombo, Fernão Lopes tinha ao seu alcance os arquivos do Estado, circunstância de que soube fazer uso, transcrevendo, resumindo e aproveitando a correspondência diplomática, os diplomas legais, os capítulos das Cortes, e outra documentação que ainda enriqueceu examinando cartórios de Igrejas e lápides fúnebres.  Com este material foi-lhe possível fazer a crítica e a correcção das memórias existentes, segundo um método que se assemelha ao de dois a três séculos mais tarde.

Para dar expressão a esta poderosa e ampla visão da sociedade era preciso um escritor com qualidades excepcionais de artista, que lhe permitissem organizar num conjunto convincente a reconstituição dos acontecimentos.

Assim, Fernão Lopes insere nas suas crónicas uma variedade e animação nos aspectos a episódios de todo um mundo que ressurge e que dão à sua obra um interesse espectacular, teatral, especialmente grato ao gosto romântico do “pitoresco”, que quatro séculos depois tiraria partido deste enorme caudal de episódios, ambientes e figuras.

As crónicas como epopeias

As crónicas de Fernão Lopes, se por uma lado constituem um progresso em relação à narrativa medieval, por outro fazem pensar num género literário que é muito anterior a este tipo de narrativa. A mesma combinação de feitos individuais e de movimentos de massas, a mesma unidade de acção onde convergem vários acontecimentos para o desfecho, a mesma ordenação de grandes séries de episódios, encontramo-las nas epopeias, nomeadamente nos poemas homéricos e na Chanson de Roland.

Outro dos aspectos que levam as crónicas de Fernão Lopes a aproximarem-se das epopeias, sendo um deles a identificação do poeta com uma colectividade em que se dá a encarnação do Bem, e à qual está prometido, de forma irreversível, o destino vitorioso.

Em Fernão Lopes, mais do que em Camões, pode dizer-se que encontramos na sua forma mais consumada e viva a epopeia nacional portuguesa, que já vimos esboçar-se nas tradições épicas afonsinas.

 

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