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A Cultura Inculta e o declínio da cultura geral

A Cultura Inculta e o declínio da cultura geral

 

“A falha em ler bons livros tanto enfraquece a nossa visão como fortalece a nossa tendência mais fatal – a crença de que o aqui e agora é tudo o que existe”. É com este excerto, retirado do livro A Cultura Inculta, de Alan Bloom, que iniciamos a review a esta obra editada nos Estados Unidos em 1987.

Antes de mais, fique a saber que A Cultura Inculta é um um ensaio sobre o declínio da cultura geral e de como a educação superior defraudou a democracia e empobreceu os espíritos dos estudantes de hoje. Um livro que, na altura do lançamento, foi altamente elogiado por jornais como o The New York Times, a Time e o Washington Post e que é hoje visto como um manifesto em defesa dos velhos cânones literários.

Tendo como título original The Closing of the American Mind, que poderia ter sido traduzido em português para O Encerramento da Mente  Americana, o livro faz uma abordagem desde a falta de objectivos das universidades à falta de conhecimentos dos estudantes, passando pelos clichés da libertação à substituição da razão pela criatividade, mostrando como a democracia ocidental acolheu inconscientemente ideias vulgarizadas de niilismo e desespero, de relativismo disfarçado de tolerância.

“A crise social e política do ocidente no século XX é realmente uma crise intelectual”, disse o autor. “O que vemos hoje é gente nova que, sem uma compreensão do passado e uma visão do futuro, vive um presente empobrecido”.

Apesar de quase trinta anos nos distanciarem da data da primeira edição deste título, a obra continua a estar incrivelmente atualizada e a refletir as necessidades culturais do mundo moderno. Por isso mesmo, faz todo o sentido publicar esta review em pleno século XXI.

A Cultura Inculta: onde estão os Grandes Livros?

É exatamente com o problema da educação liberal no final do século XX que Allan Bloom abre A Cultura Inculta. Num mundo onde os estudantes aprendem desde crianças que os valores são relativos e que a tolerância é a primeira virtude, o que acaba por acontecer é, na verdade, o oposto: os jovens chegam à Universidade sem qualquer crença nas suas vidas. Mesmo que acreditem ter uma mente aberta, as suas mentes estão na verdade fechadas para o que realmente interessa.

Ao explicar onde estamos agora e como aqui chegamos, Bloom apresenta uma crítica devastadora à educação moderna norte-americana, assim como uma história intelectual dos Estados Unidos que deve a sua fundação à filosofia Iluminista. Mesmo que esta crítica se aplique a priori aos Estados Unidos, o modelo educativo norte-americano encontro pontos comuns com aqueles aplicados em países ocidentais. Longe de querer ser apenas outro crítico cheio de comentários a fazer ao sistema educativo, Bloom foca-se na história e na influência que certas doutrinas filosóficas tiveram na alteração de padrões sociais.

Descontos!
 

O pessimismo de Allan Bloom acerca das perspetivas das gerações futuras e da educação liberal não está totalmente fundamentado. Ainda assim, é graças a esta obra que muitos dos seus leitores têm seguido os seus conselhos e trabalhado para inverter as tendências académicas criticadas pelo autor. Um alvo constante da sua crítica é a medida, aplicada por certas Universidades, em retirar das bibliotecas ou dos programas curriculares os chamados Grandes Livros.

Para quem não sabe, os Grande Livros são obras literárias considerados pilares da fundação da literatura ocidental. Existem várias listas destas obras, que variam conforme o nível de dificuldade de leitura e se destinam a diferentes graus de escolaridade. Por outras palavras, tratam-se dos Clássicos da Literatura. As listas percorrem títulos que vão desde as grandes epopeias a ensaios da Antiguidade Clássica, sem excluir obras emblemáticas do século XX.

De acordo com Allan Bloom, a exclusão de tais obras dos programas curriculares serviria apenas para limitar os horizontes das novas gerações. Dessa forma, o autor defende que as obras sejam lidas nas suas versões originais e não abridged. O termo inglês abridgment refere-se, na verdade, ao processo literário de condensar ou reduzir um livro para uma versão mais curta mas sem quebrar a sua estrutura e unidade. Quase como um livro de difícil leitura reescrito para ser compreendido mais facilmente.

Quem foi Allan Bloom?

Professor de História das Ideias na Universidade de Chicago e notável tradutor de Platão e Rousseau, Allan Bloom foi o autor de A Cultura Inculta. Nascido em Indianapólis, a 13 de setembro de 1930, este filósofo e professor americano distinguiu-se pelas suas opiniões político filosóficas relativas ao estado da cultura. Por isso mesmo foi, mais do que uma vez, considerado conservador pelos órgãos de comunicação social. Ainda assim, por várias vezes o autor quis esclarecer essa dúvida: não era conservador, tudo o que defendia era uma vida teorética.

Em 1992, Allan Bloom morreu no hospital de Chicago. Mas nem no seu leito de morte pôs de lado a paixão pelas letras. Aí, terá ditado o seu último trabalho, publicado alguns meses após a sua morte e intitulado de Amor e Amizade onde debate várias interpretações do conceito do amor. Hoje, está confirmado que o seu trabalho exerceu uma forte influência sobre o movimento neoconservador norte-americano.

 

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Comments

  • Antônio Soares da Silva Neto
    17 July, 2016

    O comentário a respeito desse livro de Allan Bloom,intitulado ”A Cultura Inculta“,reforça minhas considerações e reflexões intelectuais sobre um assustador fenômeno humano observável: a cada nova geração humana, o conhecimento individual (de cada pessoa que surge) é menor que o de seus antepassados.

    • Betocadilhe
      10 March, 2017

      Tem toda a razão! Os jovens de hoje não buscam mais conhecimento, mas apenas prazer. Estudam para passar nas provas e não para adquirirem conhecimento. Nunca tivemos tanta informação, mas com tão pouco saber.

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