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Harry Potter and the Cursed Child: a maldição da inconsistência

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Harry Potter and the Cursed Child: a maldição da inconsistência

 

Na noite de 30 de julho para 31, tal como muitos outros milhares de fãs, estive na fila do evento organizado pela Livraria Lello – que ficou muito aquém das expectativas do que foi promovido pela organização – para garantir a minha cópia da peça de teatro Harry Potter and The Cursed Child que continuaria a história do Rapaz Que Sobreviveu a partir do ponto onde deixamos as personagens pela última vez.

Confesso que já me estava a preparar para esta história há alguns meses. Qualquer fã da saga Harry Potter precisa de saber, antes de abrir este livro, que não vai encontrar o mesmo tipo de escrita dos sete primeiros livros da saga. Em primeiro lugar, esta não é sequer uma história escrita por J. K. Rowling, mas sim por Jack Thorne – um argumentista britânico, conhecido pelos seus trabalhos de teatro e televisão. Ainda que o universo seja da criadora de Harry Potter e a autora tenha dado o seu contributo com ideias para a história original, não são diretamente as suas palavras que estamos a ler.

Em segundo, qualquer leitor precisa de ter em consideração que este é um guião. Não temos aqui as descrições fabulosas que encontramos nos livros. Sobretudo, temos diálogos e pequenas notas entre parêntesis que nos permitem perceber movimentos feitos pelas personagens e em que locais se encontram. O que é bastante normal: esta é uma história preparada diretamente para teatro. J.K. Rowling, aliás, nunca escondeu o facto de que o livro comercializado não deveria ser interpretado como um “livro”, mas sim como uma peça.

O que nos leva ao terceiro ponto: muitos leitores só conseguirão sentir a verdadeira magia desta história se a virem em palco e se abstraírem do enredo original. O espetáculo visual que deve ser – e que está a ser tão aclamado pela imprensa internacional – poderá de facto render a história e dar-lhe algo mais que o guião não consegue.

Antes de começar o livro, tomei tudo isto em consideração, não levantei muito as minhas expectativas e só depois comecei a ler. Ao chegar à última página, comprovei isto mesmo. Nos próximos parágrafos, faço uma análise extensiva a certas partes da obra.

Se ainda não assegurou a sua cópia de Harry Potter and the Cursed Child, pode fazê-lo em:

DAQUI PARA A FRENTE ESTE POST CONTÉM SPOILERS SOBRE HARRY POTTER AND THE CURSED CHILD

As personagens originais

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Comecei a ler o livro por volta das 9 horas da manhã do domingo, do dia 31 de julho, e dei por mim a acabá-lo nessa mesma noite, já perto das onze horas. Tinha intenção de o ler mais devagar, mas as cerca de 330 páginas de história leem-se num abrir e fechar de olhos, especialmente graças ao espaçamento que encontramos entre os diferentes diálogos. E a verdade é que, por muitas falhas que possa apontar à obra, me diverti a ler este livro e me manteve entretido ao ponto de fechar o mundo à minha volta e ler até terminar. E isso é que importa num livro.

Para mim, ler (ou reler) um livro de Harry Potter é como voltar a casa. Sempre que faço uma releitura descubro novos detalhes que nunca antes tinha visto, relembro enredos que já tinha esquecido, volto a apaixonar-me por personagens. Por isso, é claro que foi agradável rever velhas personagens e perceber como cresceram. Gostei especialmente da Ginny Weasley, que aqui assume um papel mais central na história, sendo muito mais um suporte para o Harry do que os seus melhores amigos (o que faz sentido, já que agora são casados). A dinâmica deles enquanto casal é incrível. Perceber que a Ginny é editora da página desportiva d’ O Profeta Diário deixou-me satisfeito e mais ainda o facto de que ela não é a típica dona de casa feiticeira, como a sua mãe. Na verdade, descobrimos que até é Harry quem mais cozinha em casa… Ri-me bastante com este detalhe e fiquei muito contente. Eis uma família que rompe os padrões da normalidade, mas que é “aparentemente” feliz.

Também gostei do Ron que, a meu ver, é o que mantém uma evolução mais realista do trio principal da saga original. Pai de duas crianças, casado com Hermione e gerente da loja de brincadeiras criada pelos seus irmãos gémeos, Ron é o típico pai divertido, que faz piadas parvas (que nem sempre têm piada) e que alivia a tensão quando se torna densa demais. Não tem uma carreira brilhante como Auror (vamos ser sinceros, ele nunca foi assim tão bom aluno!) e não se importa com o facto da sua mulher “brilhar” mais do que ele a nível profissional. Na verdade, parece bastante feliz.

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Também gostei da Hermione, claro, já que é uma das minhas personagens preferidas. O facto de ser interpretada por uma atriz de cor, na peça de teatro, não me afetou nada e, enquanto lia, era assim que a imaginava. No entanto, achei um bocado estranho que se tivesse tornado Ministra da Magia, especialmente logo assim tão de repente. Nunca a imaginei nessa posição e acho que colocá-la numa tarefa tão importante, no topo da autoridade do mundo da magia, foi algo que me custou a adaptar um bocado… Não que esteja a questionar a sua habilidade para liderar! Porém, nunca vimos a Hermione a demonstrar intenção de ter uma carreira diretamente relacionada com o poder. Imaginava-a muito mais a fazer algo relacionado com a aplicação de leis, relações com muggles ou a regulamentação dos direitos das criaturas mágicas.

Quanto ao Harry, não sei muito bem o que dizer: acho que a sua caracterização se manteve próxima daquilo que imaginava que seria. Sempre o imaginei como um Autor – feiticeiro que combate feiticeiros das trevas – mas o cargo como Head of the Departmant of Magical Law Enforcement também lhe assenta bem porque, afinal de contas, continua a trabalhar para assegurar o equilíbrio no mundo da magia. A “nova” dinâmica entre os três melhores amigos também foi engraçada de acompanhar, a cumplicidade entre os três que se mantém e até mesmo a cena em que os dois casais jantaram juntos.

Draco Malfoy, aqui caracterizado como um homem amargo, atormentado pelo passado e pela morte da mulher, Astoria, pareceu-me um pouco obscuro de mais. Ainda que a personalidade de Draco tenha melhorado para o fim da peça, a partir do momento em que se torna amigo dos seus antigos rivais, esta foi uma personagem por quem não senti especial empatia.

As personagens da nova geração

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O mesmo já não acontece com Scorpius Malfoy, o único filho de Draco, que é sem dúvida uma das melhores personagens desta peça e da “nova geração”. Muito ao contrário do seu pai – arrogante, popular e que via o mundo com noções um pouco “fascistas” –, Scorpius Malfoy é um rapaz tímido e um verdadeiro geek que adora livros, mas que é ao mesmo tempo perseguido por estranhos rumores acerca do seu parentesco e que, inesperadamente, trava amizade com nada mais, nada menos, que Albus Potter, o segundo filho de Harry.

Engraçado como este encontro entre as duas personagens, que se sentam na mesma carruagem do Hogwarts Express, se opõe ao encontro de Harry e Draco, no primeiro livro, que se sucedeu exatamente nas mesmas circunstâncias. Mais engraçado: ver esta diferença resulta no facto de Albus não ser selecionado para os Gryffindor mas sim para os Slytherin. Quando isto aconteceu, fiquei ainda mais satisfeito, porque a história seria extremamente aborrecida se Albus fosse para os Gryffindor, certo?

Quanto a Albus Potter, que é sem dúvida a personagem principal deste livro e aquela que vejo como a “cursed child” (criança amaldiçoada), tenho também algumas coisas a dizer. Foi interessante ver que nem tudo é fácil para o filho do Rapaz que Sobreviveu. Como é crescer sendo o filho do homem que derrotou o feiticeiro mais terrível de todos os tempos? Logo ao entrar no Hogwarts Express, a prima de Albus, Rose Weasley-Granger, diz-lhe que devem escolher os amigos certos já que são filhos dos grandes heróis da Batalha de Hogwarts. Que pressão!

Rapidamente, Albus tem então de lidar com o facto de ser diferente: ao ser selecionado para os Slytherin, sente-se marginalizado. Mesmo que Harry lhe tenha dito que não mal nenhum em ser dos Slytherin, Albus sente que há algo de errado consigo, especialmente quando vê o seu irmão mais velho nos Gryffindor, tal como a sua prima e, dois anos mais tarde, a sua irmã mais nova, Lily. Pela escola, rumores correm de que ele é uma aberração, um Potter nos Slytherin, uma verdadeira vergonha…

Sem talento para jogar Quidditch, sem ser sequer popular em Hogwarts e tendo dificuldade em criar laços emocionais com o seu pai, esta distância entre pai e filho começa-se a tornar mais forte e a dar espaço para que “forças das trevas” se intrometam e tentem perturbar a paz alcançada no final do sétimo livro.

Albus Potter, sempre movido por uma necessidade de mostrar ao pai que pode estar à sua altura e assim conquistar o seu apreço, acaba por se deixar seduzir intencionalmente para um plano obscuro. Cometendo muitos dos erros que Harry Potter cometeu quando tinha a sua idade, tentando perceber e sentir o que é “amor” – aquela que continua a ser a magia ancestral deste universo – acaba por arruinar o mundo que conhece e por se ver a si mesmo numa tentativa de o salvar.

E é aqui que as coisas começam a perder controlo.

Viagens no tempo e realidades alternativas

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Em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, fomos introduzidos pela primeira vez ao conceito de viajar no tempo. Tudo acontecia graças a um pequeno instrumento que Hermione tinha para voltar umas horas atrás no tempo e assistir a aulas em simultâneo. Porém, sempre se explicou que voltar no tempo era algo perigoso. Ninguém podia ver uma pessoa que voltasse atrás no tempo, por exemplo, ou interferir com acções que condicionassem eventos que soubéssemos que já tinham acontecido no futuro. Aliás, J. K. Rowling explicou isto de tal forma que dava a entender que o passado é escrito uma vez e que, mesmo que alguém do futuro volte atrás para fazer algo, o que quer que tenha feito já ficará registado.

Em Harry Potter e a Ordem de Fénix, durante a Batalha do Departamento dos Mistérios, todos os Time-Turners que existiam foram destruídos graças a um feitiço em ricochete. Em entrevistas, J. K. Rowling explicou que este momento foi a sua forma de garantir que nenhuma outra personagem voltava a mexer com o tempo. Portanto, qual foi o sentido de trazerem de novo para Harry Potter and the Cursed Child um enredo que envolve Time Turners, viagens no tempo… e que quebra todas as regras que J. K. Rowling nos ensinou?

A meu ver, não faz sentido nenhum.

Ler isto deixou-me incrivelmente desapontado e fez-me sentir que a história tinha sido elaborada por um amador. Albus e Scorpius viajam no tempo para tentar salvar Cedric Diggory, que morreu durante o Torneio dos Três Feiticeiros, no quarto ano de Harry Potter, e acabam por interferir com o tempo e arruinar as suas vidas. São vistos por Hermione, por exemplo, e isso de alguma forma acaba por mexer com o futuro, para que Hermione e Ron nunca se tenham casado ou tido filhos. Aliás, Hermione transforma-se numa espécie de psicopata.

E mais tarde, quando voltam a interferir com o tempo na tentativa de corrigirem este erro, acabam por provocar problemas ainda maiores: o futuro é alterado para uma realidade onde Harry Potter está morto, Albus Potter nem sequer nasceu e onde Voldemort triunfou sobre o mundo. Entretanto, Hermione, Ron e Snape são os últimos guerreiros de uma resistência que se opõe ao regime de Voldemort. Parece uma anedota, mas é o que encontramos neste livro.

Nada disto faz sentido. O universo de  J. K. Rowling nunca abordou que a utilização errada de Time Turners resultava na criação de Mundos Paralelos. Porque foram inventar algo desta dimensão, mexer de tal forma com a história (até mesmo com a história de um dos livros), quando podiam ter optado por um plot mais simples e realista? Aposto que existem até fanfictions sobre Harry Potter, com viagens no tempo à mistura, que respeitam melhor as leis em que assenta este universo. E isso é algo que me custa perdoar.

Compreendo que o objetivo desta peça é entreter a audiência, surpreende-la com efeitos incríveis em palco, mas como fã de Harry Potter e da história, acho uma grande violação à história original mexer assim de repente com tantas regras e conceitos que nos foram ensinados.

A filha das trevas

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Outra coisa que não fez muito sentido (embora não tenha desgostado a 100%) foi a personagem de Delphine Diggory/Lestrange/Riddle. Voldemort, pelos vistos, teve uma filha com Bellatrix Lestrange, algures no sexto livro. Os mais atentos percebem que não é algo impossível: Bellatrix Lestrange esteve ausente grande parte do sexto livro da saga (provavelmente porque estava grávida) e sempre teve uma obcessão pelo Senhor das Trevas, uma obcessão ligeiramente sexual.

Em Harry Potter and the Cursed Child, a filha de Voldemort espera trazer o pai de volta acreditando numa profecia que envolve o próprio filho de Harry Potter e a sobrevivência de Cedric Diggory.  É ela que tece todo um plano para manipular o tempo e convencer Albus Potter a prevenir que Diggory morra na terceira tarefa do Torneio dos Três Feiticeiros. Ainda que não tenha sido dada grande densidade psicológica a Delphine, é interessante ver uma descendente do Senhor das Trevas a fazer o seu melhor para honrar os seus feitos e, de certa forma, o deixar orgulhoso. Tal como Albus tenta fazer.

Mas há aqui outra pequena questão a ter consideração: quantas vezes nos disse J. K. Rowling que Voldemort era incapaz de sentir amor, que tinha até mesmo medo desse sentimento? Como é que Voldemort decide que afinal deve ter uma filha? Talvez tenha sido movido pelas suas noções de pureza do sangue feiticeiro. Ainda assim, parece estranho imaginar Lord Voldemort a envolver-se com uma mulher, ou a ser pai.

O importante feitiço que foi esquecido

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E, por fim, para não me alongar muito mais nas falhas, falo de uma que me incomodou um bocado, que detetei imediatamente e que ainda agora não percebo como pode ter sido deixado ao acaso. Já no Ato IV, quando Albus Potter e Scorpius Malfoy são levados atrás no tempo, até ao ano de 1981, por Delphine Diggory, percebem que a filha de Voldemort vai tentar impedir a derrota do seu pai, impedindo-o de matar Harry Potter.

Em Godric’s Hollow, vila onde vivem os Potter, vemos então a casa da família e o casal feliz, com o bebé com pouco mais de um ano, no dia de Halloween, horas antes de Voldemort chegar para cometer o crime hediondo que resulta no início de toda a história do Rapaz que Sobreviveu. Mas a questão é: porque estamos a ver a casa dos Potter? Porque vemos James a brincar com Harry e Lily a sair com o filho num carrinho de bebé? Porque é que Albus Potter, Scorpius Malfoy e todos os outros que chegam mais tarde conseguem ver a casa?

Todos os fãs que leram os livros de Harry Potter sabem que Voldemort teve dificuldade em encontrar e matar os Potter porque a casa estava protegida com o feitiço Fidelius. Isto é nos explicado em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. O feitiço Fidelius pressupõe que uma casa fica completamente escondida a não ser que o seu Guardião, uma pessoa apontada pelo residente da casa, revele a morada exata desse local. O mesmo aconteceu, por exemplo, com Grimmauld Place, a casa onde a Ordem da Fénix tinha a sua sede. Entretanto, a casa dos Potter esteve sempre protegida com este feitiço, até que Voldemort conseguiu extrair a morada de Peter Pettigrew, o Guardião escolhido dos Potter.

Mas como é que Scorpius, Albus e todos os outros conseguiram ver uma casa protegida por um feitiço… se o Guardião, supostamente, não lhes tinha revelado a morada? Este pode ser um detalhe mínimo para alguns leitores, mas para mim não é. A sobrevivência dos Potter assentava basicamente neste princípio e só falhou porque um dos seus amigos os traiu. Este foi um detalhe considerado dezenas de vezes nos livros… e totalmente esquecido nesta “oitava história”. Uma vez mais, expresso a minha desilusão.

Pensamentos finais

capa do livro cursed childEm geral, gostei de rever as personagens e de conhecer a nova geração. Gostei especialmente de Scorpius, como podem ter percebido. Porém, a forma como as personagens foram utilizadas na história, e a própria história em si, constitui o verdadeiro problema de Harry Potter and the Cursed Child. O enredo pareceu-me quase sempre forçado. Talvez em teatro resulte melhor. Talvez se não consideramos com tanto rigor as histórias anteriores as coisas pareçam mais “bonitas”.  Todos os efeitos descritos, vistos em palco, devem ser de facto incríveis. Ainda assim, isto já são muitos “talvez”.

Por agora, fico satisfeito por ter passado o aniversário do Harry com uma história original, ainda que lamente que a J. K. Rowling não se tenha empenhado um bocadinho mais para nos trazer um livro a sério, com toda a estrutura e detalhes coincidentes a que nos habituou. Como uma amiga me disse e com razão, o teatro é um meio elitista – especialmente quando se encontra, para já, reservado a uma única cidade do mundo – e ter limitado uma história a esse meio, tendo em consideração a dimensão dos fãs da saga, é algo que não faz sentido.

Entretanto, continuo a achar que é uma leitura que todos os fãs de Harry Potter devem fazer. Porque, afinal, Harry Potter é Harry Potter.


 

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Comments

  • Nayla
    02 Agosto, 2016

    Olha, depois de ler a sua análise, posso dizer que estou chocada com tanto furo e tal,sem falar que essa leitura em roteiro não me atrai,a impressão que eu tenho è que a J.K e todos envolvidos no projetos estão sendo um tanto Lucius Malfoy e tão mais preocupados em lucros,pq gente… Sei não!

  • Tiago Cardoso
    21 Fevereiro, 2017

    Concordo com o autor sobre quase tudo, só acho que a descrição “magica” não faz falta nenhuma, a historia se passa no mesmo lugar dos outros 7 livros, então de certa forma já estamos bem familiarizados com os o ambiente.
    Ficou de fora ai no review, o Deus ex machina absurdo do Draco, que estava com a solução de todos os problemas dês do inicio!

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