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D. Teresa: a biografia que revela a mãe do primeiro rei de Portugal

D. Teresa: a biografia que revela a mãe do primeiro rei de Portugal

 

D. Teresa – A Primeira Rainha de Portugal é o título desta que é a primeira biografia histórica sobre uma das mais importantes personagens da História de Portugal, precisamente, a mãe de D. Afonso Henriques.

De autoria de Marsilio Cassotti e com prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins, o livro traz a lume uma faceta menos conhecida de D. Teresa que, segundo o escritor, “era tão hábil que sabia usar as armas masculinas do poder, mas também as femininas. Sabia fazer a guerra e sabia cortar cabeças, ao mesmo tempo que sabia ser astuta e fazer intrigas”.

Marrsilio Cassotti estudou Ciências Políticas e Relações Internacionais na Universidade Católica de Buenos Aires e Línguas no Instituto Católico de Paris. Durante vários anos, foi director de uma colecção de História pertencente a uma importante editora de Barcelona, e é autor de estudos fundamentais sobre mulheres.  O livro D. Teresa, A Primeira Rainha de Portugal é a primeira biografia que publica sobre uma personagem fundamental da história portuguesa, a mãe de D. Afonso Henriques.

Neste post, recordamos uma entrevista realizado por Goreti Teixeira a Marsilio Cassotti. Um livro que promete satisfazer todos os que nutrem um especial interesse pela Idade Média e História de Portugal.

D. Teresa: “Sabia fazer a guerra e cortar cabeças”

Goreti Teixeira (GT): O que o levou a escrever sobre D. Teresa – A Rainha de Portugal?

Marsilio Cassotti (MC): Quando realizei o trabalho sobre as Infantas de Portugal, Rainhas em Espanha, a minha última biografia histórica, apercebi-me que a versão que conhecia sobre D. Teresa, e que é praticamente aquela que todos os portugueses e espanhóis conhecem, não coincidia em nada com a realidade que me mostravam os documentos.

Os documentos retratam uma mulher que se pode dizer de grande actualidade, pois justamente abordam o tema da política, ou seja, a mulher e o poder, mas não da forma como sempre se deu a conhecer. A mulher sempre teve poder. Um poder feminino através do qual influenciava o marido, os filhos ou até os amantes como se encontra no livro das Infantas. É um “poder brando”, mas no caso de D. Teresa este é muito actual, porque se trata de uma mulher inteligente, valente e com grande força de vontade que disse: “Agora, eu vou mandar, mas não como os meus antepassados. Vou mandar por minha própria conta”.

E a verdade é que ela o fez do ponto de vista político, militar, religioso e económico. O facto de ela actuar de uma forma que parecia contraditória fazia parte da sua estratégia e esse foi o erro em que caíram as pessoas inteligentes que quando a estudaram pensaram que aquela era a sua maneira de agir. Na realidade, D. Teresa era tão hábil que sabia usar as armas masculinas do poder, mas também as femininas. Sabia fazer a guerra e sabia cortar cabeças, ao mesmo tempo que sabia ser astuta e fazer intrigas.

GT: No livro diz que D. Teresa era ambiciosa, inteligente, orgulhosa, astuta… há mais características que lhe consiga atribuir além destas?

MC: Inteligente, acima de tudo. Depois com uma grande força de vontade, diplomata, bonita… tinha muitas virtudes. Há detalhes que não se encontram na documentação como, por exemplo, que D. Teresa era uma pessoa culta.

GT: Entre a sua meia-irmã D. Urraca existem pontos em comum ou divergem muito uma da outra?

MC: Há características que coincidem. Ambas são inteligentes, astutas, têm força de vontade e, sobretudo, são independentes. E, se tanto ela como a irmã tinham estes atributos é porque conviveram com eles em suas casas através das suas tias e avós que deviam ser mulheres de armas

D. Urraca também herdou esse lado, ao contrário das outras três irmãs que se tornaram muito submissas. A diferença política entre D. Urraca e D. Teresa é que a primeira nasce como herdeira legítima de Leão e Castela, ou seja, filha de uma Borgonha, logo era uma mulher segura de si mesma e das suas origens. D. Teresa era filha ilegítima do rei Afonso VI de Castela e Leão, com a amante Jimena Muñiz que também era de muito boas famílias também. Mas apesar de não ser filha legítima, acabou por ser legitimada pelos seus actos, pois tinha uma grande confiança em si.

GT: O que o fascina no universo feminino para que há 12 anos trabalhe sobre ele?

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MC: Os livros fazem-se para serem vendidos e as mulheres quando os lêem são muito mais agradecidas do que os homens. Procuro identificar as personagens que escrevo com os leitores, no caso com as leitoras, mas naturalmente que os livros são para todos. Contudo, a História foi sempre praticamente escrita por homens, sobre homens e sempre que se fala das mulheres é sempre sobre um ponto de vista masculino.

Não que as mulheres tenham sido só santas, mas acredito que as pessoas valem o que valem pelas suas próprias capacidades, independentemente, do seu sexo. Se uma pessoa é mais capaz, tem maior força de vontade e é mais inteligente é essa quem tem de mandar, seja homem ou mulher. O universo feminino interessa-me porque é actual. Porque significa algo de novo. Porque as pessoas que se interessam por este universo abordam-no com mais seriedade.

GT: Foi difícil encontrar documentação sobre D. Teresa?

MC: Sinceramente, não. O que foi difícil foi construir uma ideia que fizesse a relação entre os documentos que existem, porque além dos documentos das chancelarias reais leonesa e portuguesa, há também outros contemporâneos dos factos, especialmente os relacionados com as autoridades religiosas peninsulares e a Santa Sé. O mais difícil foi encontrar um sentido, uma relação entre uns e outros e ver de que forma me podiam levar a um discurso que me permitisse construir a história de D. Teresa.

Eu mesmo fiquei surpreendido, porque a verdade é que me lancei nesta tarefa pela paixão que senti por esta personagem. Foi como se me tivesse a atirar para uma piscina sem saber se tinha água ou não. Até chegar ao resultado final fiz 16 versões e quando cheguei à quarta reparei que se tratava de uma personagem sobre a qual nunca havia sido nada escrito. Senti-me feliz por ter pelo menos uma estrutura e uma personagem real.

Marsilio Cassotti: “A História de Portugal é uma mina de ouro”

GT: O que tem a Península Ibérica de tão interessante para não se debruçar, por exemplo, em outros universos femininos como os das monarquias inglesa ou sueca?

MC: Em primeiro lugar devido a circunstâncias profissionais. Sou argentino e descendo de família italiana que se educou na América e na Europa. Vivi em Itália, mas como considero que a Península Ibérica tem mais futuro do que os outros países estabeleci-me em Barcelona. Por necessidade profissionais produzi textos sobre personagens da Península Ibérica, ao mesmo tempo que comecei a interessar-me por elas porque me pareceram mais valiosas.

Cheguei a fazer alguns trabalhos sobre Maria Antonieta, mas é um assunto que já foi tratado muitas vezes. Existem cerca de 20 versões que falam sobre ela e, por isso, torna-se difícil ser-se sublime. No livro das Infantas, por exemplo, haviam dois ou três nomes que nunca tinham sido falados. Numa entrevista afirmei que a História de Portugal é uma mina de ouro e para um historiador ou para alguém que gosta de descobrir coisas, é mais interessante trabalhar neste universo do que estar sempre a ver os mesmos documentos se quiser, por exemplo, falar sobre Maria Antonieta.

Não há coisas novas, ao contrário do que acontece em Portugal que teve muito bons historiadores, inclusive, Oliveira Marques que considero um maestro, porque os historiadores portugueses são muito eruditos. No entanto, parece que às vezes, por medo de perderem prestígio, não quiseram chegar ao público com uma cultura média. Não foi o caso de Oliveira Marques que foi um grande professor e os seus textos podem ser lidos por um jovem que está no liceu ou por uma senhora que está a fazer uma licenciatura em Filosofia, pois ambos entendem o que lá está escrito. Esse é o valor de um historiador.

GT: Hoje há mulheres como D. Teresa?

MC: Um caso triunfante é Angel Merkel, a chanceler alemã. Quando apareceu, ninguém a conhecia, ou seja, além de ser formada em Física tinha feito política local. A Alemanha é um país difícil, avançado, com pessoas muito cultas, por isso, penso que dominar os alemães não será uma tarefa simples. Outro caso é Hillary Clinton que acabou por ser mais prejudicada por causa do marido do que propriamente por si mesma.

O seu grande erro foi ter casado com Bill Clinton. Não teve a coragem que teve D. Teresa que não se casou com Henrique de Borgonha para ser alguém. Ela já o era antes do casamento e consegui-o através dos seus próprios méritos. A Hillary Clinton tem o lado de mulher moderna que quer lutar pelos seus próprios meios, mas por inerência herdou o mal do marido, pois na altura da traição com Mónica Lewinsky manteve-se com ele pois já tinha a intenção de abraçar uma carreira política.

 

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