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E-primatur: nesta editora é você quem decide o que publicar

E-primatur: nesta editora é você quem decide o que publicar

 

Uma editora onde quem manda são os leitores. É assim que se afirma a editora portuguesa E-primatur. E-primatur? Sim, leu bem. Comecemos por desconstruir a história e propósito desta editora a partir da sua designação. Aí em casa, aqueles familiarizados com História e Latim, poderão ter identificado uma semelhança entre o nome da editora e o carimbo usado pela Inquisição para aprovar os livros que podiam ser impressos. Se as obras correspondessem às exigências do Santo Ofício, eram carimbados com a palavra Imprimatur e enviados para publicação.

No entanto, ainda que conte com uma linha editorial muito própria, a editora não tenciona de forma alguma aproximar-se ao regime inquisitorial do século XVII. Neste contexto, quem assume o poder de carimbar “imprimatur” nas obras não é um grupo de editores, mas sim os leitores.

Esta é a prova de que o leitor pode assumir um papel tão importante como o editor, fazendo uso da tecnologia para ocupar tal posição. O sistema proposto pela E-primatur é simples: cada leitor pode visitar o site da editora, ou usar as redes sociais, para indicar que livros gostaria de ver publicados no mercado português. Mesmo que a editora não dê a sua garantia final de que tais livros façam parte do catálogo, todas as sugestões serão analisadas cuidadosamente e tomadas em consideração.

Atenção: isto por si só constitui um risco para o projeto, mas um risco que vale a pena. A editora viverá principalmente do comportamento dos leitores, de como participarem na promoção e divulgação dos livros, tendo para tal as redes sociais um papel tão importante como os círculos de amigos.

As sugestões literárias, claro, terão de obedecer a uma linha editorial definida pela editora. Em vez de publicar novos autores e textos originais, a E-primatur tem os seus olhos virados para textos clássicos que até à data não receberam edições em língua portuguesa ou que, tendo recebido, pecam na qualidade da tradição.

Parte do projecto contempla ainda a figura do crowdpublishing. Para quem não está familiarizado com o conceito, o crowdpublishing pressupõe a edição de livros a partir de financiamento coletivo, como apoio à publicação, mas sobretudo como mecanismo de promoção, divulgação e financiamento.

Descontos!
 

A ideia de fundar uma editora que assentasse nestes moldes ocorreu a três profissionais com experiência no mercado literário: Hugo Xavier, ex-editor da Cavalo de Ferro e Ulisseia/Grupo Babel; Pedro Bernardo, responsável editorial de Edições 70 e Actual, do Grupo Almedina; e João Reis, ex-editor da Eucleia.

O propósito deste grupo de editores era o de quebrar certas convenções que espartilham o mercado literário português. A desculpa habitual das editoras para a publicação de determinado título ou a não publicação de outro é o “mercado” e o mercado são os leitores. E porque não dar-lhes diretamente voz? Este será o primeiro projecto editorial que vai efectivamente dar esse passo tão ousado.

No primeiro ano a E-primatur vai escolher os livros e fazer edições pequenas. Por cada livro a lançar, os leitores podem fazer uma doação, cujo valor está estipulado no site. Entretanto, no segundo ano, a editora já quer ter o crowdpublishing a funcionar a sério.

“Apresentaremos as propostas de edição com seis meses de antecedência e as pessoas farão as doações. Só editaremos os livros que as pessoas financiarem e só aceitaremos financiamento suficiente para a produção do livro. Ou seja, não há ganhos extra. Não vamos ganhar dinheiro com este projeto. Queremos apenas publicar os livros que muita gente quer ler mas que as editoras continuam a dizer não haver mercado para eles. Pois não, não há mercado. Há pessoas”, contou Hugo Xavier em entrevista ao Observador.

 

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