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Ensaio Sobre a Lucidez: “Não faço propaganda ao voto em branco”

Ensaio Sobre a Lucidez: “Não faço propaganda ao voto em branco”

 

Em 2004, pela altura do lançamento do livro Ensaio sobre a Lucidez, o auditório da faculdade de Arquitectura do Porto encheu-se para ouvir José Saramago falar da sua publicação. Nesse dia, tive a oportunidade de estar presente neste evento e de assistir ao Nobel da Literatura português falar, na primeira pessoa, sobre esta obra polémica que tece críticas ao sistema político.

Recordo-me perfeitamente que José Saramago disse muito cedo que não pretendia, com o Ensaio sobre a Lucidez, brincar com o voto em branco. Esta é uma frase que faz todo o sentido tendo em conta o tema da obra.

Ainda assim, o autor reforçou que aquela não era uma ode contra o voto. Muito pelo contrário, “uma vez que sendo este inseparável e indispensável ao funcionamento do sistema democrático, quis reflectir sobre isto a que chamamos democracia”.

Ensaio sobre a Lucidez: e se votássemos todos em branco?

A história do livro apresenta um país onde, numa eleição autárquica, acontece algo de estranho. Nessas eleições há um voto em branco que atinge os 70 por cento. Como tal nunca tinha acontecido em nenhum governo, e por não estar preparado para enfrentar a situação, as autoridades alegam que o resultado se deve ao facto de ter chovido muito e de as pessoas se manterem relutantes em sair de casa. As eleições são repetidas. Porém, na segunda volta, o cenário alastra-se com o aumento de 83 por cento de votos em branco.

Relativamente a Ensaio sobre a Lucidez, José Saramago disse: “não ando fazer propaganda ao voto em branco, apenas digo que existe, que é um voto perfeitamente legítimo e usá-lo não é um acto subversivo”, tendo acrescentado que a obra “podia ser um ensaio político, mas embora tenha esse título, trata-se de um romance que é ao mesmo tempo uma fábula, uma sátira e uma tragédia”.

A reflexão centra-se no facto de que não vivemos numa democracia, mas sim “num sistema definido por regras democráticas, mas de limitado alcance, na medida em que só podemos tirar um governo e pôr outro.”, disse José Saramago perante a audiência. “O poder executivo, legislativo e judicial é o desenho do poder que conforma e informa a sociedade, mas nós vivemos num tempo que não deveria permitir ilusões, porque o poder real está do outro lado. O poder real é o económico, não o da mercearia da rua ou do supermercado, mas aquele que é representado pelo sistema das grandes multinacionais e pluricontinentais”.

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Questionado sobre a hipotética possibilidade da situação imaginada no livro poder acontecer em Portugal e sobre se teríamos alguém na sociedade à altura de interpretar esse sentido de voto, Saramago responde: “O pior que poderia acontecer era que houvesse alguém para interpretar, porque, certamente, cairia na tentação de interpretar a seu gosto e segundo os seus interesses”.

Acrescentando que ao verificar-se esta situação “então teríamos um povo inteiro a participar no grande debate sobre a democracia e se esta situação se multiplicasse no mundo, existia a obrigação de rever completamente os sistemas que obrigaram a fazer depender a democracia política da ‘tirania económica'”.

E na primeira pessoa continua: “Com todos os seus defeitos temos uma democracia ainda incompleta e insuficiente, que está bloqueada pelo tal poder económico que tem as suas razões. Se a situação mudar, muda porque os cidadãos assim o pretendem. O que digo é isto: tudo menos a resignação, pois para curar a resignação não basta deixar de votar no partido A para votar no partido B, porque isso não modifica muito”, concluindo que “a realidade de hoje é a de que os governos não governam, são comissários políticos do poder económico”.

José Saramago, condecorado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998, morreu no dia 18 de junho de 2010. Entre a sua obra literária deixou 18 romances, para além de inúmeras compilações de crónicas, teatros, contos, diários de memórias, livros de poesia e um livro de viagens. A sua obra e vida é recontada neste post do Mundo de Livros.

 

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