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O escritor sem abrigo que escreveu um bestseller

O escritor sem abrigo que escreveu um bestseller

 

Depois de 20 anos a viver na rua, Jean-Marie Roughol decidiu escrever uma autobiografia – com ajuda de um ex-ministro – e tornou-se um bestselller. Hoje, apesar do sucesso, continua sem tecto.

Em frente à loja da Chanel em Paris, Jean Marie Roughol costumava brincar com a sua própria miséria. “Uma esmola para dormir no Hotel Plaza (um dos mais luxuosos da capital francesa), por favor”. Um dia cruzou-se com o presidente do Tribunal Constitucional francês e guardou-lhe a bicicleta enquanto este fazia compras nos Campos Elísios.

O homem, Jean Louis Debré, ex-ministro dos Assuntos Internos, bem podia ser o seu anjo da guarda: tornaram-se amigos e foi ele que o aconselhou a passar a sua história para o livro. Sem sonhar, claro, que seria um bestseller de 176 páginas em apenas 3 meses.

Como é que Jean se tornou um escritor sem abrigo

A história de Jean-Marie tinha tudo para correr mal desde o início. Em criança, foi abandonado pela mãe, que se despediu dele com a frase “Vou sair, e tu, se fores esperto, vais ficar sozinho que depois trago-te uns bombons”. O miúdo ficou ao cargo do pai, que era alcoólico. Aos 20 anos tudo se complicou. É despedido do café onde servia às mesas e caiu nas ruas de Paris. Durante mais de duas décadas sobreviveu à custa da solidariedade alheia. Mas a sua tragédia pode agora ter os seus dias contados.

Depois de aceitar o conselho do seu ilustre amigo, Roughol pôs as mãos à obra e escreveu mesmo as suas memórias. Sem computador, improvisou frases e capítulos em papéis velhos que encontrava no lixo. O amigo ajudou-o: acompanhou o processo, editou-lhe o texto e fez-lhe a revisão final. O resultado chama-se Je Tape La Manche – Une Vie Dans La Rue (A Minha Vida como Mendigo – Uma vida nas ruas), sempre num registo bem-humorado apesar da história dura do seu amor.

Descontos!
 

No livro conta que a amizade improvável com o ex-ministro ficou cimentada no dia em que foram ambos vistos por um casal que exclamou: “Olha ali o Debré a falar com um sem-abrigo”. Apesar de hoje ser conhecido dos parisienses, Jean-Marie continua a viver nas ruas, embora já não seja o homem que as pessoas se habituaram a ver junto às lojas luxuosas. Em vez de pedir para dormir num hotel luxuoso – como fazia antes de editar o livro –, costuma agora pedir “uma ajuda para o mendigo da moda”.

Jean-Marie, de 47 anos, passa agora mais tempo a dar entrevistas do que a mendigar. Conseguiu até um adiantamento da editora Calmann-Lévy para comprar um smartphone e atualizar a sua página do Facebook – com 600 amigos – onde publica fotografias em sessões de autógrafos do seu livro e jantares com marisco.

Porque é que Jean-Marie ainda vive nas ruas?

Jean-Marie, que já vendeu 50 mil cópias do seu livro, ainda não recebeu os royalties, o que o obrigará a viver nas ruas até outubro de 2016, altura em que a editora acertará contas com o seu mais recente escritor.

“Daqui a 10 meses vou receber os direitos de autor, no entanto preferi que me pagassem já uma parte. As pessoas escrevem-me e sou constantemente abordado pelos meus leitores. Na semana passada fui a um restaurante com um americano que comprou 15 exemplares. Outro suíço, trouxe-me chocolates”, contou à AFP.

 

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