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Françoise Frenkel: a voz da II Guerra Mundial descoberta apenas em 2010

Françoise Frenkel

Françoise Frenkel: a voz da II Guerra Mundial descoberta apenas em 2010

 

Ao falarmos de literatura produzida nos anos da II Guerra Mundial, literatura que nos fala dos dias de terror e do medo provocado pelo Holocausto, é comum que nos venha à mente O Diário de Anne Frank. No entanto, há poucos anos, uma outra história foi descoberta sobre estes dias: o testemunho de uma mulher que conheceu na pele o terror da nazi e que conseguiu fugir para lutar pela sua vida.

Toda a história de um velho livro encontrado perdido numa livraria gira em torno da figura de Françoise Frenkel. O mistério advém do facto da autora judia, natural da Polónia, ter escrito um livro igualmente misterioso sobre a sua fuga dos nazis na cidade de Vichy, em França, em meados de 1940. O enredo inspirado puramente na sua experiência relata-nos a sua tentativa desesperada e bem-sucedida em fugir dos comboios de deportação de Auschwitz para alcançar a Suíça, que se assumia então como território neutral.

Descrever o livro como poderoso é um insulto a Françoise Frenkel, porque através das páginas desta obra o que sentimos é absolutamente transcendente. A obra está escrita numa prosa crua, que combina a crueldade e a beleza da vida no contexto de guerra, chocando e tocando o leitor numa tempestade de sensações que se prolonga por mais de 250 páginas.

Mesmo hoje, pouco se sabe da vida de Françoise. Os detalhes que emergiram até à data servem apenas para adensar o mistério desta personagem. Segundo investigações, sabe-se que Françoise morreu em Nice, em 18 de janeiro de 1975, mas não existem fotografias ou cartas que nos apresentem algo vívido acerca da sua vida. Somente o seu livro, intitulado originalmente como Rien où poser sa tête – que tem sido traduzido e adaptado para Uma Livraria em Berlin, mas que na tradução literal significa  Nenhum sítio onde encostar a cabeça – resta até aos dias de hoje.

Como Françoise Frenkel foi redescoberta em 2010

A obra terá sido publicado originalmente em Genebra, em setembro de 1945, e recebeu apenas uma breve crítica positiva numa publicação feminista suíça no ano seguinte. Fora isto, o livro caiu no esquecimento, as edições foram desaparecendo e o nome de Françoise Frenkel ficou envolvido nas sombras do anonimato… Pelo menos até bem há pouco tempo quando um exemplar foi redescoberto num velho sótão no sul de França, em 2010.

Tudo mudou no momento em que um homem ficou intrigado com o título enigmático inicial do livro. Ao abrir a obra ficou maravilhado ao descobrir o testemunho de uma judia polaca, fundadora da primeira livraria francesa em Berlim, em 1921, que percorreu o continente à procura de esconderijo das perseguições nazis, desde a capital da Alemanha à de França.

 

A nova editora do livro, a Gallimard, em Paris, admitiu à imprensa que não conseguiu identificar os herdeiros legais de Françoise Frenkel para solicitar a autorização dos mesmos para voltar a publicar a obra. No entanto, mais do que este mistério, é o facto da autora não mencionar o marido Simon Raichenstein uma única vez no seu livro.

Simon Raichenstein foi detido numa incursão da polícia francesa em Paris em julho de 1942 e enviado para o campo de  Drancy no dia 24 do mesmo mês, acabando por morrer meses mais tarde em Auschwitz, a 19 de agosto desse ano. O livro, mesmo cobrindo esse período em grande detalhe, não apresenta qualquer menção ao seu marido.

Reeditado em francês com o prólogo de Patrick Modiano, autor que venceu o Nobel da Literatura em 2014, o livro Uma Livraria em Berlim promete fazer de Françoise Frenkel uma das vozes da II Guerra Mundial, mesmo que o seu trabalho só surja à luz do dia mais de 70 depois do fim da guerra mais catastrófica da Humanidade.

Entre os poucos pertences que existem da autora, está a sua certidão de nascimento, a máquina de escrever, algumas roupas e, claro, o livro. Todos os seus objetos estavam escondidos num baú e são as únicas coisas que se sabem dela. Não existe nenhuma fotografia mas, segundo Patrick Modiano, na verdade, nada mais é preciso saber sobre a mulher que não os seus relatos. No prólogo do livro assinado por Modiano pode ler-se que “a grande singularidade da obra Uma livraria em Berlim é, justamente, não se poder identificar a sua autora de uma forma precisa”.  Infelizmente, o livro ainda não se encontra no mercado português.

 

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