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Guerra dos Tronos: os desabafos de um fiel leitor

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Guerra dos Tronos: os desabafos de um fiel leitor

 

Antes da série, havia os livros. Antes da fama, havia apenas um simples escritor com uma boa história. Antes de longas filas para receber autógrafos, não havia fãs suficientes para encher uma pequena sala. Mas agora a realidade é outra. Neste artigo, faço a minha análise geral à saga que deu origem à série da HBO A Guerra dos Tronos, oficialmente chamada de As Crónicas de Gelo e Fogo e desabafo um pouco a minha frustração no que toca a duas ou três coisinhas.

Corria o ano de 2008 quando decidi comprar o livro A Guerra dos Tronos. Foi um daqueles livros que me chamou a atenção pela capa. Ao passar pela secção de Fantasia da Fnac, peguei no livro e li a sinopse. Isso foi mais do que suficiente para me convencer a sair da loja com o livro e para que o lesse num abrir e fechar de olhos. Sabem aqueles livros que prendem? A Guerra dos Tronos, para mim, foi um desses livros.

Nos meses que se seguiram, fui lendo compassadamente cada um dos livros. Tinha percebido então que o primeiro livro tinha sido lançado em 1995 e que até 2008 só tinham sido lançados outros 3 livros de uma saga que, supostamente, será composta por 7 volumes (George R. R. Martin admite a possibilidade de existir um 8.º livro, caso a história se alongue). Porém, de livro para livro, Martin tem demorado cada vez mais tempo a escrever.

Em 2011, o lançamento do quinto livro A Dança dos Dragões coincidiu com o início da série da HBO. Com um elenco de luxo, a série não só provou ser um sucesso para os leitores como também para  novos fãs. Eu, como tantos outros, decidi ver a série, conciliando o que sabia dos livros com o que via na televisão.

Ao longo de 50 episódios fui aceitando desvios que os produtores fizeram à história. A série é uma adaptação dos livros e é normal que haja diferenças. Ok, tudo bem. No entanto, o que me custa realmente aceitar é que os fãs saibam o final da história a partir do ecrã  e não das páginas de um livro. É disso mesmo que quero desabafar.

Guerra dos Tronos: mas afinal, o que é isto?

Comecemos pelo início. Afinal, o que há em A Guerra dos Tronos que coloca a história nas bocas do mundo?

a-guerra-dos-tronos-george-r-r-martinPrimeiro, o arranque da saga é excelente. No primeiro livro A Guerra dos Tronos somos apresentados à família Stark – responsáveis pelo governo do vasto território do Norte de Westeros – que se preparam para receber a visita do rei Robert Baratheon. Mas a visita tem um propósito: o rei Robert pretende convidar Lorde Eddard Stark para se juntar a ele na capital como Mão do Rei, um importante cargo político. Isto acontece após a morte do anterior Mão do Rei, que aconteceu sobre estranhas circunstâncias.

Nos primeiros capítulos Eddard Stark é confrontado com o dilema de aceitar ou não a oferta. Acaba por aceitar o cargo quando uma carta secreta chega a Winterfell, revelando que o anterior Mão do Rei foi morto por envenenamento pela família da rainha, os Lannister. Homem honrado, Eddard decide que o melhor que pôde fazer é viajar para a capital e investigar os Lannister, a família mais poderosa do reino, e perceber que jogo andam a jogar.

E, de imediato, as personagens são atiradas para uma teia de conspirações, segredos e jogos de poder que culminam, no final do primeiro livro, num momento de que ninguém estava à espera e numa guerra sangrenta.

Mas do outro lado do Mar Estreito, nas Cidades Livres, temos também a história de Daenerys Targaryen e do seu irmão Viserys, dois jovens pedintes que sonham com o Trono de Ferro – a cadeira onde se senta o rei de Westeros. Mas porque sonham estes Targaryen com o Trono? Porque há muitos anos, quando Daenerys estava ainda por nascer, era o seu pai que ocupava esta hedionda cadeira. Consumido pela loucura, o seu reinado terminou quando Robert Baratheon iniciou uma rebelião, obrigando os Targaryen sobreviventes a fugir.

E tudo indica que Daenerys tenha uma hipótese de recuperar o trono do seu pai. Após um casamento estratégico com um homem selvagem, Daenerys consegue arranjar para o irmão um exército constituído por milhares de homens. No final do livro, no entanto, consegue chocar três ovos de dragões… e quem tem dragões consegue fazer tudo, não é verdade?

a-dança-dos-dragões-george-r-r-martinNão, talvez não seja assim tão fácil. Nos dois livros que se seguem, A Fúria dos Reis e A Tormenta de Espadas, George R. R. Martin prova-nos que o número de homens de um exército, ou o facto de termos dragões ou não, não é suficiente para ganharmos uma guerra. O caminho mais honrado nunca é o caminho que garante uma coroa. É preciso saber jogar o Jogo dos Tronos e pensar a longo alcance. Seguir o coração em vez de honrar compromissos é também um luxo a que não nos podemos dar se temos uma coroa na cabeça… e se não a queremos perder.

Em A Tormenta de Espadas atingimos o clímax máximo da saga. A Guerra dos Cinco Reis, iniciada no final do primeiro livro, perde quase todos os Reis que deram o nome ao conflito e os sobreviventos ainda lutam para garantir o seu lugar no reino. George R. R. Martin prova também aos leitores que não tem medo de matar personagens, especialmente aquelas de quem mais gostamos.

O ritmo do livro 4 e 5, O Festim dos Corvos e A Dança dos Dragões abranda um bocado. Os fãs que esperavam mortes e cenas chocantes ficam desiludidos, entre os quais eu mesmo, por encontrarem agora um registo mais lento que envolve mais diplomacia do que propriamente ação. Nota-se que o escritor está a deixar que as suas personagens se preparem para algo grande que acontecerá em Os Ventos do Inverno.

Guerra dos Tronos: são spoilers os verdadeiros vilões desta história

O problema que me tem atormentado recentemente é que a série televisiva está antecipar a história. Apesar de terem mudado o rumo de muitas personagens, os realizadores da série já confirmaram que a ideia é chegarem ao mesmo final que George R. R. Martin planeou para As Crónicas de Gelo e Fogo. Os que preferirem ler o livro, podem certamente deixar de ver a série, se é que alguma vez viram.

No entanto, falando por experiência pessoal, sei que mesmo que não visse a série acabaria por saber a história que ainda não foi revelada nos livros. Como? A praga dos famosos spoilers, o nome atribuído à informação crucial que estraga uma história para quem ainda não a conhece. Tais spoilers iam-me aparecer no Facebook, em sites de entretenimento que costumo visitar para consumir notícias e até mesmos nos telejornais televisivos de canais nacionais. Um momento surpreendente no final da 5.ª temporada mereceu uma reportagem da SIC, por exemplo. Por isso, percebi que tinha um dilema: ver a série ou esperar que alguém me estrague a história.

Absolutamente fã d’A Guerra dos Tronos, quero assistir ao desenrolar da história e ver o que as personagens fazem, seja pela televisão ou pelo livro. Não quero que ninguém me venha contar o que aconteceu. Em forma de desabafo, lamento que o autor e os produtores da HBO não tenham pensado estrategicamente sobre esta questão.

O ideal seria que a série tivesse começado na mesma altura em que sair o sexto livro. Estimando que o escritor demora cerca de 6 anos para escrever um livro, isso dava tempo o suficiente para que a série explorasse toda a história dos livros sem estragar para os leitores aquilo que ainda não foi publicado. Talvez, quem sabe, chegassem a coincidir o final da série com o lançamento do último livro? Se fosse eu no Trono de Ferro de todas estas decisões, era exatamente isso que teria feito.

 

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