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Guerra e Paz: a história Russa como obra-de-arte

Guerra e Paz: a história Russa como obra-de-arte

 

Já tinha lido Anna Karenina há uns anos quando senti de novo um apelo a Tolstoy, como se alguém me chamasse para ler a sua grande obra Guerra e Paz. Por ocasião de uma visita a Londres em novembro de 2015, passei por uma das livrarias da capital britânica e encontrei um exemplar em inglês desta obra, com precisamente 1273 páginas, e por menos de 10 libras. Não hesitei e trouxe-o imediatamente.

A leitura só aconteceu algumas semanas mais tarde. Pensei: se vou começar um livro desta magnitude, prefiro que aconteça no início do próximo ano. Pelos vistos, não consegui esperar. De acordo com a minha conta do Goodreads, comecei Guerra e Paz alguns dias antes do início de 2016, mais precisamente no dia 30 de dezembro. Feitas as contas, e uma vez que o terminei no dia 17 de março, demorei quase todo o inverno para fazer esta leitura.

Mas foi uma excelente leitura. Neste post, dou a minha opinião geral sobre o que achei desta grande obra-prima, refiro algumas das personagens que ficarão para sempre na minha memória, o estilo de escrita do autor e apresentarei ainda uma sugestão sobre “como ler” esta obra.

O enredo de Guerra e Paz

Guerra e Paz, de Leon Tolstoy, relata-nos os eventos que aconteceram na Rússia e Europa entre 1805 e 1820. Para quem não tem as suas lições de história frescas na mente, recordo que este foi um período turbulento para a Europa: o Napoleão Bonaparte ergueu-se por entre os escombros da Revolução Francesa e desempenhou uma série de missões militares de forma a expandir o seu império por toda a Europa. Países como a Áustria, Itália, Espanha e Prússia sucumbiram às suas forças. Em Portugal, a própria família real fugiu para o Brasil e o país só resistiu devido à intervenção das forças inglesas.

Mas algumas nações fizeram frente ao Napoleão, nomeadamente Inglaterra e a Rússia. Sendo Tolstoy russo, é normal que Guerra e Paz se foque principalmente na guerra entre França e Rússia. Através de uma galeria de personagens que, tal como acontece em Anna Karenina, representam classes sociais e são usadas com um pouco de sátira, Tolstoy conta-nos então como era a vida da alta sociedade de St. Petersburgo e Moscovo em tempos de guerra.

Neste livro, vemos personagens deixar os salões da alta sociedade para partirem para o campo de batalha. Seja para provarem o seu valor enquanto homens ou procurarem glória, como acontece com Nikolai Rostov ou para fugir ao ciclo cansativo da aristocracia, como acontece com Andrei Bolkonshky. E sim, este é um livro que faz jus ao título. Há guerra neste livro, muito guerra: assistimos a descrições detalhadas do campo de batalha, conhecemos generais, capitães e soldados, somos apresentados a estratégias, assistimos a morte e derrota, a glória e vitória. Há capítulos e capítulos seguidos que têm como pano de fundo o cenário de guerra.

O título, no entanto, também inclui a palavra paz. Esta paz é encontrada na tranquilidade contrastante que se vive nas grandes cidades russas. Apesar de saberem que se trava uma guerra a quilómetros de distância de Moscovo e St. Petersburgo, a alta sociedade continua a viver entre bailes, soirées e samovárs.

As intrigas que certas personagens vivem nestes capítulos são quase como guerras entre chávenas de chá e jogos de cartas. Logo no início do livro somos introduzidos a Pierre Bezhukov, o bastardo de um conde abastado de Moscovo, que após a morte do pai herda a fortuna e o título e, de chacota social, passa a ser encarado como o solteiro mais desejado para casar. Tolstoy constrói toda uma teia à volta de Pierre, cujas aranhas têm em vista a sua fortuna, propriedades e favor. Pierre, levado pela inocência e fascínio, deixa-se apanhar por uma destas aranhas e não tarda a perceber a dimensão do seu erro.

É também neste cenário que encontramos Natasha Rostov, uma jovem rapariga de uma família que enfrenta dificuldades financeiras. Quando surge pela primeira vez no livro, não passa de uma criança. Porém, à medida que os capítulos vão passando, cresce para se tornar numa das personagens principais da história. Num mundo muito próprio, tem os seus próprios conceitos de amor e beleza, demarcados por uma inocência que, eventualmente, a coloca também em problemas.

Os caminhos de Natasha Rostov, Pierre Bezukohv e Andrei Bolkonshky eventualmente acabam-se por cruzar e por conduzir ao desenlace catártico que Tolstoy tão bem soube preparar através das palavras. Este é sem dúvidas um dos planos principais da história, o plano romântico, por assim dizer.

A minha parte favorita

Um dos momentos mais conhecidos desta guerra entre França e Rússia é a invasão de Moscovo pelas tropas francesas e a retirada, pouco depois, quando chegou o Inverno e as forças de Napoleão foram incapazes de encarar a adversidade meteorológica. Esta é uma das partes mais interessantes do livro.

Primeiro, porque é neste momento que as duas esferas da história se cruzam: a alta sociedade vê-se subitamente atirada para o meio da guerra. Na eminência de serem invadidos pelos franceses, os moscovitas fazem as malas e juntam tudo aquilo que conseguem para deixar a amada Moscovo para trás. Ao contrário de outras nações, recusam-se a dar o braço a torcer a Napoleão e não vão estar na cidade para serem submetidos às suas ordens e tirania.

Segundo, porque é durante a ocupação de Moscovo que Pierre Bezukhov, que até então se procurava a si mesmo entre Maçonaria, campos de batalha e valores liberais, consegue finalmente encontrar um sentido para a vida. Esta personagem fez-me lembrar muito Levin de Anna Karenina, talvez porque é a personagem melhor explorada a nível psicológico (e porque acredito ter sido escrita à imagem do próprio autor). Conseguimos perceber o que move Pierre, que motivos o convencem a ficar em Moscovo quando todos os outros fogem e como se transforma noutro homem – mais tarde, Natasha confessa mesmo que ele parece ter tomado um “banho moral” –, capaz de ver o que realmente importa na vida.

Terceiro, esta é a minha parte favorita porque mostra que a derrota de Napoleão não aconteceu simplesmente porque caiu um bocado de neve e o exército ficou frio. Foi muito mais do que isso. Tolstoy documenta esta retirada das tropas ao detalhe, fala-nos das condições de Moscovo, do incêndio que devorou parte da cidade, de como as provisões começaram a falhar, de como as tropas russas se começaram a reunir, de como Napoleão perdeu a mão nos seus homens por achar que tinha adquirido vitória. Tolstoy não se limita a relatar eventos: explica-nos por que razões aconteceram.

De forma quase dolorosa, assistimos à retirada das tropas francesas, à forma como são perseguidas pelos russos – não apenas pelo exército mas também pelo povo, que se ergue para defender a Mãe Rússia – e não descansa até se ver livre dos franceses. Sem dúvida uma das melhores cenas, intercalada com uma outra bastante dramática e que resolve todo um ciclo da história e que, para não estragar o livro a ninguém, não vou revelar aqui.

Uma outra parte que achei muito interessante diz respeito às reflexões que Tolstoy vai fazendo ao longo do livro. Mais do que relatar os acontecimentos militares, Tolstoy pergunta: porque é que é aconteceram? O que é o poder? Como é que a decisão de se pôr um país em guerra cabe apenas a um homem? O segundo epílogo não nos fala das personagens ou do enredo: todo ele é dedicado a este debate.

É aqui também que Tolstoy nos fala da teoria do determinismo, argumentando que o homem, mesmo não sendo livre, não sente que não o é. Basta olharmos para o meio em que nos encaixamos, o tempo que passou e as causas por detrás de um determinado ato que tenhamos cometido para perceber que a liberdade não existe. O nosso caminho está definido.

Poderia aqui adiantar-me a falar de tudo isto, mas isso implicava que este artigo tivesse o dobro do tamanho. Em alternativa, sugiro-vos que leiam o segundo epílogo do livro, com calma e tempo, para enraizar bem as palavras do autor. Vale a pena.

 

O estilo

Guerra e Paz é um clássico da literatura. É um dos livros que todos devem ler antes de morrer. É o expoente máximo da literatura russa. Quantas vezes ouvimos isto?

Mas a verdade é que Guerra e Paz não é um livro para qualquer um. Tal como tantos outros leitores, já tinha ouvido a reputação de que este livro era difícil, muito longo e aborrecido. Por isso, quando comecei a lê-lo, estava ligeiramente assustado acerca do que ia encontrar. Felizmente, os medos não se provaram reais.

Mesmo que este tenha sido o livro mais longo que li, aproveitei cada página, descrição e reflexão. Porém, falo por mim, que gosto tanto de História que ponderei seguir esta vertente no ensino superior, que já li alguns clássicos e que sempre nutri alguma curiosidade pela cultura russa.

Quem não preencher alguns destes requisitos pode facilmente ficar desmotivado após ler algumas páginas. Porém, como o próprio Tolstoy escreveu acerca desta obra, Guerra e Paz é um trabalho que combina detalhes históricos com prosa e que se apresenta num estilo artístico, muito ao contrário das crónicas de quem viveu entre 1805 e 1820. Se querem ler sobre este período, então este é provavelmente o melhor trabalho para o fazerem.

Como apontei no início deste post, demorei quase 3 meses para ler este livro. Isso não aconteceu porque sou um leitor lento. Tal como fiz com Anna Karenina, decidi fazer pausas ao longo do livro. Guerra e Paz encontra-se organizado da seguinte forma:

Volume I (3 Partes)

Volume II (5 Partes)

Volume III (3 Partes)

Volume IV (4 Partes)

Epílogo (2 Partes)

O que fiz foi simples: fiz uma pausa sempre que terminei um volume (excepto entre o Volume IV e o Epílogo). Nestas pausas, que nunca demoraram mais do que duas semanas, aproveitei para ler qualquer coisa mais leve e descomprimir um bocado. As minhas pausas, no entanto, procuraram ser sempre lógicas e nunca aconteceram a meio de um enredo importante.

Também existe a possibilidade de ler todo o livro seguido, claro. Porém, acredito que dessa forma o leitor se cansará facilmente caso não esteja habituado a ler livros com mais de mil páginas.

Que edição ler?

Em Portugal, a edição da Editorial Presença é composta por 4 volumes que, se não me engano, representam exatamente a ordem de leitura que fiz. O trabalho da divisão fica feito por si só. Além disso, as capas são lindíssimas e a tradução respeita o texto original, mantendo em francês certos diálogos que acontecem no livro (as partes em franceses são traduzidas em notas de rodapé).

Se preferir ler outras edições em língua portuguesa, tem ao seu dispor a edição da Saída de Emergência em dois volumes (Primeiro e Segundo) ou ainda a edição da Relógio d’Água, igualmente dividida em dois volumes (Primeiro e Segundo). Se preferir ler em suporte digital, recomendo a edição que pode encontrar aqui.

Se preferir ler em inglês, como eu, recomendo a edição da Vintage Classics que, além de respeitar também o texto original, contém um mapa que nos explica as posições militares da batalha de Borodino e conta, no fim, com um sumário muito sintetizado de todas as partes do livro.

Uma vez que a minha edição é um absoluto calhamaço e nem sempre dava jeito transportá-la durante as viagens de autocarro que faço diariamente para o trabalho, decidi descarregar a versão digital de Guerra e Paz disponibilizada pelo Projeto Guttenberg para ler mais comodamente no iPad. A edição é praticamente idêntica à da Vintage Classics. Em casa, retomava ao livro de papel.

Para finalizar este longo artigo, recomendo a série televisiva emitida no início de 2016 pela BBC que, em 6 episódios, adapta este livro de Tolstoy. Entre as várias adaptações ao ecrã, existe ainda uma outra a merecer destaque, de 1972, interpretada por Anthony Hopkins.

 

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