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Inês de Castro: uma fonte inesgotável de inspiração

Inês de Castro: uma fonte inesgotável de inspiração

 

Figura da História de Portugal, Inês de Castro serviu de inspiração para temas de várias obras literárias, não só da literatura portuguesa, mas também estrangeira. Prova disso são algumas trovas incluídas por Garcia de Resende (1470-1536) no seu Cancioneiro Geral, o III Canto de Os Lusíadas, de Luís de Camões (1524-1580), a tragédia A Castro, de António Ferreira (1528-1569) ou a Cantata à Morte de Inês de Castro que Bocage lhe dedicou.

Mais contemporâneas destacam-se obras como Pedro, lembrando Inês, de Nuno Júdice e Triunfo do Amor Português, de Mário Cláudio vencedor do Prémio Camões em 2004.

Neste post, recordamos alguns dos trabalhos mais emblemáticos sobre esta figura da história de Portugal, frequentemente evocada como símbolo de amor e tragédia.

Onde encontrar Inês de Castro na literatura portuguesa?

Trovas a D. Inês

No Cancioneiro Geral, obra que reúne mais de mil composições da poesia palaciana da época, em português e castelhano, Garcia de Resende inaugura o tema da poesia lírica, onde inclui “Trovas à Morte de D. Inês de Castro”.

Na primeira, é Inês de Castro quem fala, já cumprido o seu destino. Na segunda, quem detém a voz é um dos seus algozes, um cavaleiro de D. Afonso IV. A última e derradeira é proferida pelo eu-lírico, o desfecho do poema. Reportemo-nos, então, à primeira fala de D. Inês de Castro.

“Qual será o coração,

tão cru e sem piedade,

que lhe não cause paixão

ua tão grã crueldade

e morte tão sem razão?

Triste de mim, inocente,

que por ter muito fervente

lealdade, fé, amor,

ó príncipe, meu senhor,

me mataram cruamente”.

Episódio verídico

Se foi Garcia de Resende quem fez a estreia da tragédia de Inês de Castro no plano literário, é a Luís de Camões que se atribui a responsabilidade de ter consagrado esta temática.

Em Os Lusíadas, Camões incluiu no Canto III, o episódio de Inês de Castro que ocupa as estâncias 118 a 135 do canto, onde é relatado o seu assassinato, em 1355, pelos ministros do rei D. Afonso IV de Borgonha, pai de D. Pedro, seu amante.

A maior parte do poema é narrado por Vasco da Gama, que conta a história de Portugal ao rei de Melinde. Deixamos aqui uma estrofe sobre o episódio a quem Camões chamou de “Linda Inês”.

“Tirar Inês ao mundo determina,

Por lhe tirar o filho que tem preso,

Crendo co sangue só da morte ladina

Matar do firme amor o fogo aceso.

Que furor consentiu que a espada fina,

Que pôde sustentar o grande peso

Do furor Mauro, fosse alevantada

Contra hûa fraca dama delicada?”

Tragédia «A Castro»

António Ferreira escreveu a tragédia «A Castro», em 1587, a sua primeira obra impressa, considerada a mais admirável obra dramática do classicismo português e que tem como tema os amores de D. Pedro e D. Inês de Castro. A obra de Ferreira é relevante, ainda, por conferir humanidade às personagens, que longe estão de ser indivíduos de comportamento linear. O trecho a seguir mostra Inês a pedir clemência ao soberano D. Afonso IV e foi extraído do IV Acto.

“Inês – Meu senhor,

Esta é a mãe de teus netos. Estes são

Filhos daquele filho, que tanto amas.

Esta é aquela coitada mulher fraca,

Contra quem vens armado de crueza.

Aqui me tens. Bastava teu mandado

Para eu segura e livre tâ? Tesperar,

Em ti e em minhâ? Tinocência confiada.

Escusarás, Senhor, todo este estrondo

Dâ?Tarmas e cavaleiros; que não foge,

Nem se teme a inocência da justiça.”

Cantata a D. Inês

Manuel Maria Barbosa du Bocage, nome que ficou para a história da literatura portuguesa como Bocage, foi um poeta pré-romântico. Dos seus poemas sobressai o angustiado sentido da existência e do aniquilamento – expresso em oposições dramáticas como o amor, céu e inferno/a morte, horror e libertação – assim como o gosto pelo macabro. Bocage foi também outro dos poetas que se inspirou na tragédia de Inês de Castro e lhe dedicou uma cantata:

“Toldam-se os ares

Murcham-se as flores;

Morrei, Amores,

Que Inês morreu.

 

Mísero esposo,

Desata o pranto

Que o teu encanto

Já não é teu.

Sua alma pura

Nos céus enterra;

Triste da Terra,

Porque a perdeu.

Contra a cruenta

Raiva tenta,

Traça divina

Não lhe valeu

Tem roto o seio,

Tesouro oculto:

Bárbaro insulto

Se lhe atreveu.

Da dor e espanto

No carro de ouro

O númen louro

Desfaleceu.

Aves sinistras

Aqui piaram

Lobos uivaram,

O chão tremeu.

Toldam-se os ares

Murcharam-se as flores;

Morrei, Amores,

Que Inês morreu”.

Recordar o amor

Pedro, lembrado Inês, título da obra da autoria de Nuno Júdice, foi publicada em 2001. Aqui encontram-se reunidos poemas que recordam os amores de D. Pedro I e de D. Inês de Castro ligando-os com outros amores e com os elementos criadores da natureza: ar, terra, água e fogo. Aqui fica um pequeno excerto da obra em foco:

“Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que

me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a

manhã da minha noite. E verdade que te podia

dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas

não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos

apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me

a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,

até sermos um apenas no amor que nos une,

contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:

ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua

voz que abre as fontes de todos os rios,…”.

Aos amores…

O escritor Mário Cláudio, vencedor do Prémio Pessoa 2004, editou um livro, intitulado Triunfo do Amor Português, onde aborda doze casos de amores (reais, míticos e platónicos) entre os quais se encontra o amor de D. Pedro e Inês de Castro. Com ilustrações de Rogério Ribeiro, Agustina Bessa-Luís assina o prefácio, de que realçamos “O amor à portuguesa, tema deste livro de Mário Cláudio, escrito de maneira vernácula e às vezes irónica, esclarece-nos sobre a importância da culpa nos caminhos do amor. (…) Nem uma só das narrativas está despojada de culpa. Porque o amor se previne com a culpa para ser agente de mudanças. Se fosse preciso afirmar Mário Cláudio como um escritor, este livro Triunfo do Amor Português vinha coroar a sua obra”.

Neste amores encontram-se ainda Leonor Teles e João Fernandes Andeiro, Luís de Camões e a infanta Dona Maria, Mariana Alcoforado e o conde de Chamilly, a Severa e o conde de Marialva, Dom Pedro V e Dona Estefânia, António Nobre e Alberto de Oliveira, Camilo Castelo Branco e Ana Plácido.

 

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