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Jogos da Fome: pão e circo para a pantomina

Jogos da Fome: pão e circo para a pantomina

 

Uma amiga minha introduziu-me a Os Jogos da Fome pouco depois da publicação do último livro da trilogia. Não me recordo bem, mas sei que foi pouco depois que se começou a saber mais sobre os filmes, onde Jennifer Lawrence – vencedora do Óscar de melhor atriz – veste a pele de personagem principal.

Ao ver os livros na edição inglesa, com as suas capas estranhas marcadas pelas letras HG de Hunger Games (Jogos da Fome) não me senti muito compelido a ler. Ainda assim, recordo que a minha amiga me disse que tinha ficado de tal forma viciada em Jogos da Fome que em dois dias leu a trilogia inteira.

Talvez um dia os leia, pensei eu. Quase dois anos mais tarde, a poucos meses do lançamento do segundo filme da saga, decidi que estava na hora de pegar no livro. A mesma amiga que me tinha falado da trilogia emprestou-me o primeiro exemplar. Li o primeiro capítulo e gostei, continuei a ler e gostei ainda mais. Hoje, junto Os Jogos da Fome numa prateleira entre Harry Potter e 1984.

Pelas mãos da norte-americana Suzanne Collins, o leitor é transportado para um futuro distópico, com algumas semelhanças àquele mundo que George Orwell nos retratou na sua obra-prima. O mundo de Jogos da Fome encontra-se reduzido a uma única nação, Panem, situada no que resta da América do Norte.

O território encontra-se dividido em 12 distritos, cada um deles rodeado por vedações elétricas e sem acesso ao exterior. A cada distrito foi atribuída a produção de um tipo de bem necessário para Panem: o distrito 12, por exemplo, produz carvão enquanto o 11 se encarrega da agricultura.

A distribuição de todos os bens é assegurada pelo Capitólio, a única área de Panem onde existe liberdade. Aí, os cidadãos não trabalham e comem de tal forma que vomitam de propósito para poder comer mais, esquecendo facilmente que o resto da nação luta diariamente para ter comida na mesa. É neste contexto que surgem os Jogos da Fome.

Jogos da Fome: a faísca

Os Jogos da Fome assentam numa premissa que remonta aos dias do Império Romano. “Panem et Circensus“, traduzida do latim para “pão e circo”, resumia uma fórmula de sucesso que tinha como resultado final garantir a satisfação da população. Tudo implicava que as forças de autoridade assegurassem os serviços e o entretenimento às massas e que estas, por sua vez, se mantivessem obedientes.

Em Jogos da Fome, Panem – uma clara referência a essa suma antiga – é controlada pelo Capitólio e pelo sinistro Presidente Snow que garante que cada distrito recebe tudo aquilo de que necessita. O preço a pagar? Que trabalhem e que, todos os anos, ofereçam um tributo, entre os 12 e os 18 anos, para competir nos Jogos da Fome.

 

Mas o que é isto, de Jogos da Fome? Basicamente, dois tributos de cada um dos 12 distritos são colocados numa Arena, cheia de perigos e armadilhas. Os 24 concorrentes têm de lutar entre si, resolver os desafios que são impostos e erguer armas contra os restantes jogadores, mesmo que sejam seus amigos. A regra é só uma: sobreviver. O último sobrevivente é coroado vencedor e traz glória para o seu distrito.

Esta é uma excelente forma de entretenimento – uma vez que os jogos são transmitidos para a nação – e, acima de tudo, um castigo para recordar ao povo de que é o Capitólio a deter o poder. Sim, um castigo. Os primeiros Jogos da Fome aconteceram depois dos distritos iniciarem uma rebelião contra a autoridade.

É neste contexto que entra Katniss Everdeen, uma rapariga do Distrito 12, encarregue de sustentar a sua família desde que o pai morreu numa explosão nas minas de carvão. A mãe de Katniss é uma curandeira depressiva, para a qual Katniss parece não ter paciência. E resta Prim, a irmã mais nova, que está prestes a enfrentar o seu primeiro Reaping – a cerimónia onde são sorteados os tributos para os Jogos da Fome.

A faísca para todo o enredo deste livro, e até mesmo dos seguintes, é o sorteio. O nome de Katniss não é escolhido pela extravagante representante do Capitólio: é a sua irmã a selecionada para participar nessa edição dos Jogos da Fome. Incapaz de aceitar que tal aconteça, Katniss avança de imediato para se voluntariar como tributo no lugar da pequena Prim.

Ao lado de Peeta Mellark, o rapaz do distrito 12 que foi sorteado para participar nos Jogos, Katniss parte então para o Capitólio. Para trás, deixa a família destroçada, o amigo Gale que a acompanhava nos momentos de caça e toda uma vida à qual Katniss espera não voltar. A verdade é que os tributos do distrito 12 não vencem Os Jogos da Fome há anos.

Porém, será que Katniss conseguirá mudar essa tendência? E o que acontecerá quando entrar na Arena: terá de matar o jovem e simpático Peeta ou ser morta por ele? Aconteça o que acontecer, parece não haver esperança para o futuro. Tudo o que posso dizer é que os acontecimentos do livro acabam por acender uma faísca que pode resultar num grande incêndio, um incêndio grande o suficiente para devorar Panem inteiro.

 

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