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Jorge Luis Borges: o homem que encontrava histórias em sonhos

Jorge Luis Borges: o homem que encontrava histórias em sonhos

 

Apesar de nunca ter sido distinguido com o Nobel da Literatura, Jorge Luis Borges é um nome assíduo nas listas de melhores escritores do século XX. Escritor, poeta, dramaturgo e crítico literário, este homem das letras brindou o mundo com convicções fortes e obras marcantes, como Ficciones, de 1944, ou O Aleph, de 1949.

Filho de uma família de classe média, Jorge Luis Borges descende de uruguaios e de marinheiros portugueses que terão vivido na zona de Moncorvo, mas nasceu em Buenos Aires (Argentina). Com apenas 7 anos de idade, o pequeno Jorge disse ao pai que ser escritor era o seu futuro. As palavras podiam não ter passado de um sonho infantil, mas este não foi o caso. Com 9 primaveras feitas, Jorge Luis Borges (que dormia com Camões debaixo da almofada) publicava o seu primeiro conto, La Visera Fatal, um trabalho precoce inspirado em Dom Quixote de Cervantes. Estávamos então no ano de 1908.

Alguns anos depois, a família Borges decide mudar-se de Buenos Aires para a Suíça, na esperança de encontrar tratamento para a doença degenerativa de que o pai de Jorge Luis Borges padecia. Graças à mudança, grande parte da educação do escritor argentino foi europeia. Uma vez na Suíça, o jovem aprendeu francês e alemão, destacando-se como um dos melhores alunos do Colégio de Genebra.

A instabilidade politica vivida na Argentina determinou a decisão de que a família se mantivesse na Europa, predominantemente na Suíça e em Espanha. Por essa altura, Jorge Luis Borges entreteve-se com o estudo de grandes vultos da literatura e da filosofia como Arthur Schopenhauer, Gustav Meyrink, Guillaume Apollinaire e Filippo Tommaso Marinetti.

Jorge Luis Borges: a perda de visão

O regresso ao país natal aconteceu em 1921. Com 22 anos, Jorge Luis Borges começou a integrar-se no meio cultural de Buenos Aires. Dois anos depois publicou a primeira obra poética, um livro chamado Fervor de Buenos Aires. Começava assim uma longa carreira que acabaria por se tornar numa das mais importantes da América Latina e da corrente surrealista.

Durante os anos 20, Jorge Luis Borges publicou livros de poemas e ensaios. Chegou mesmo a inventar um novo género que se chamaria conto-ensaio. Em 1931 começou a colaborar com a revista Sur, um suplemento literário do jornal Criteria, do qual se viria a tornar editor. O estilo de escrita foi muitas vezes descrito como de outro mundo, no sentido em que tinha pouco de realista.

Neste suplemento encontramos referências aos seus famosos pesadelos recorrentes. “Sonhei com um espelho. Sonhei comigo com uma máscara, ou eu vejo alguém no espelho que sou eu, mas que eu não reconheço como o sendo. Chego a este local e tenho a ideia de ter estado perdido, e isso é horrível. O local em si não é como qualquer outro. É um quarto com mobília e a sua aparência não é horrível. O que é horrível é a sensação, não as imagens. Outro pesadelo frequente é o de estar a ser atacado por crianças; há tantas, tão pequenas mas fortes. Tento defender-me mas os golpes que dou são fracos”.

Com uma saúde cada vez mais frágil, Jorge Luis Borges herdou a doença paterna e cedo começou a perder a visão, deixando progressivamente de conseguir ler. Aliás, com 55 anos, a cegueira já era total. Apesar da condição física, o escritor nunca deixou de viajar, nem de ministrar vários cursos universitários. “Estando cego, vivo na solidão e, durante todas essas horas, resta-me imaginar. Tenho sempre uma história na cabeça, que se tornará conto ou poema. Eu tendo a transformar tudo em literatura. Não posso dizer que é o meu ofício. É o meu destino. Eu vivo na literatura”, disse o escritor argentino.

 

Enquanto o pode fazer, Borges foi um devorador de enciclopédias, facto que lhe deu não só conhecimento sobre a literatura, mas sobre várias áreas científicas e humanas. Como afirmou em várias entrevistas, a sua preferida era a IX edição da Encyclopædia Britannica.

Apoio a Pinochet, ativismo e casamento

Conhecido pelas opiniões políticas controversas, Jorge Luis Borges foi apoiante do ditador chileno Augusto Pinochet, político que inclusive o condecorou. O apoio justificado muitas vezes como pura ingenuidade valeu-lhe as atenções dos media e várias críticas de outros ativistas políticos. A posição política foi depois retirada durante um jantar em Estocolmo.

Com a chegada ao poder do partido peronista, no ano de 1973, o escritor foi obrigado a deixar a posição de diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Foi nessa altura que o trabalho como palestrante pelo mundo se intensificou. Durante as viagens era frequentemente acompanhado pela segunda esposa, Maria Kodama que anteriormente tinha sido sua leitora e secretária.

O escritor esteve várias duas vezes em Lisboa, onde se encontrou com António Alçada Baptista, escritor que tinha sido responsável pela tradução de O Relatório de Brodie. O encontro entre ambos inspirou A Pesca à Linha, Algumas Memórias (1998). Apesar das visitas a Portugal, Jorge Luis Borges nunca chegou a visitar Torre de Moncorvo, a terra das suas origens remotas. O escritor acabou por falecer em Genebra (Suíça), cidade onde se fixou no ano de 1986 e onde acabaria por morrer pouco tempo depois, vítima de cancro no fígado.

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