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Jornalismo e Literatura: (des)vantagens de uma dupla escrita

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Jornalismo e Literatura: (des)vantagens de uma dupla escrita

 

Ao longo de 128 páginas Helena Sousa Freitas explora uma relação polémica que envolve duas vertentes da escrita. O tema da sua primeira obra individual é “Jornalismo e Literatura: Inimigos ou Amantes“. Um ensaio permite a discussão do jornalismo sobre novas perspectivas.

Pela altura do lançamento do seu primeiro livro, em 2002, entrevistei Helena Sousa Freitas para fazer algumas perguntas acerca do seu trabalho. Hoje, alguns anos depois dessa conversa, voltou a publicar o resultado dessa entrevista onde se falou de jornalismo e literatura e da relação que ambos os géneros mantêm.

Jornalismo e Literatura: afinal, podem ou não coexistir?

A minha primeira pergunta vai directamente para o título do seu livro: “Jornalismo e Literatura: Inimigos ou Amantes?”

Tentei não tirar uma conclusão muito fechada acerca de serem definitivamente inimigos ou definitivamente amantes, isto porque em vários aspectos os dois termos convergem e divergem. No entanto, se tiver que escolher entre um dos dois serão mais amantes do que inimigos, na medida em que existem produtos que pedem um pouco ao jornalismo e à literatura, portanto são “filhos” daquele casal. Se fossem inimigos isso nunca seria possível e só como amantes podem gerar algo tão positivo.

Que critérios utilizou para a elaboração do livro?

Em primeiro lugar, escolhi apenas jornalistas da imprensa escrita. Apesar de ter existido a oportunidade de contactar jornalistas/escritores e obter os seus testemunhos, achei que isso ficaria para um outro trabalho. Para este seleccionei apenas a matéria que já estava publicada. Assim, num primeiro livro, decidi reunir toda essa informação que estava dispersa, só depois se justificaria um volume em que houvesse entrevistas directas com as pessoas ou pedir para que elas fizessem um texto testemunhal da sua experiência. Apenas houve dois casos em que foi feita uma excepção, o da Maria Teresa Horta e do Baptista-Bastos, porque já os tinha entrevistado para outros trabalhos jornalísticos. No âmbito desses trabalhos tinha colocado perguntas sobre a relação jornalismo/literatura no seu caso específico e neste livro utilizei esse material porque tinha sido eu própria a falar com eles. Embora toda a informação recolhida seja especificamente de Portugal, Brasil e Estados Unidos, há um capítulo dedicado a jornalistas-escritores estrangeiros e nesse caso tentei passar um pouco pelo mundo inteiro.

jorlitDos 180 periódicos que analisou os assuntos sobre esta matéria são mais visíveis a nível nacional ou internacional?

Não estudei propriamente 180 periódicos. Tornou-se uma panóplia tão grande pelo facto de ter de referir o local onde cada um dos jornalistas-escritores exerce a sua profissão. Penso que a nível nacional e internacional é muito difícil fazer uma divisão de quem fala mais sobre este assunto. Por exemplo, existem regiões em que isso é mais notório e Portugal tem muitos casos desde Vitorino Nemésio, Ferreira de Castro passando pelo Eça de Queirós e o Ramalho Ortigão. Também existem outras áreas do globo, nomeadamente a América Latina, que também têm essa tradição, com nomes como Gabriel García Márquez, Isabel Allende, Luís Sepúlveda… Contudo os autores que se destacam e que são mais conhecidos a nível internacional são talvez os da América Latina.

Reparei que adoptou o termo jornalista-escritor, porquê esta opção e não o inverso?

Há muitas pessoas que utilizam o termo escritor-jornalista, mas dizem que utilizar um ou outro é igual. No entanto, preferi usar o jornalista-escritor porque acho que a maior parte dos escritores foram inicialmente jornalistas. Mesmo nos casos que vêm de trás muitos escritores disseram que deviam muito do seu trabalho de ficção à passagem pelo jornalismo e que até na escrita literária se sentiam jornalistas, simplesmente, aquele era um outro meio de expressão: o livro e não o jornal. Talvez por isso a minha escolha que não foi pensada.

Algumas pessoas defendem que o jornalismo é uma escola para a literatura, outras que o jornalismo pode corromper o escritor, dada a voracidade da profissão, e há ainda quem afirme que é um complemento dos dois. Qual é a opinião da Helena em relação a estas três posições?

Penso que pode ser um complemento. Compreendo quando dizem que o jornalismo é uma boa escola dada a frequência com que se escreve, principalmente, se se trabalha num diário ou numa agência noticiosa como é o meu caso. Por outro lado, também compreendo a posição de quem afirma que corrompe, porque o jornalismo é uma profissão muito voraz e por vezes dedicamos mais horas ao trabalho do que o normal. Nesse aspecto isso prejudica a literatura, na medida em que o espaço que lhe podia ser consignado acaba por ficar mais reduzido.

Do que tenho ouvido de alguns jovens jornalistas, penso que se complementam na medida em que muitas das histórias literárias nasceram de reportagens que fizeram e no meio disso conseguiram observar um pormenor curioso. Ainda que aquilo não interessasse para o jornal, era uma boa matéria para um livro e nesse aspecto o jornalismo pode dar muito à literatura. Há muitas coisas que encontramos no convívio com as pessoas, com as nossas fontes que de repente nos despertam para uma boa ficção.

Dos autores nacionais e estrangeiros que estudou há alguma posição que lhe tenha chamado a atenção?

Uma das posições que gostaria de destacar é a do escritor Gabriel García Marquez, relativamente a uma frase que ele disse sobre uma jornalista que utilizou um caso inicialmente verídico, mas pelo facto de ter alterado algumas coisas acabou por perder o Prémio Pulitzer que tinha ganho. Ao tomar conhecimento desse caso, o escritor comentou que o problema dela foi ter usado um dado falso numa história verídica. Enquanto esse dado falso num caso verdadeiro desvirtuava toda a história, se fosse usada na ficção um elemento verídico, provavelmente, existe mais realismo do que trabalhar tudo no campo do imaginário. E a frase dele diz mais ou menos isto: “um só dado verídico pode dar um grande realismo a uma ficção, assim como um único dado falso pode estragar por completo um caso verídico”.

No seu livro são abordados vários géneros jornalísticos como os artigos de opinião, a reportagem, a crónica… Relativamente a este último, a crónica, para si é um género jornalístico, literário ou o complemento de ambos?

É um género misto, porque deve ao jornalismo e à literatura. Em regra geral, as crónicas estão sempre presas ao jornalismo pelo facto de serem escritas em torno de um assunto actual. E o que devem à literatura? Normalmente, o autor da crónica tem uma maior liberdade criativa em relação àquele assunto, porque pode ir buscar um assunto verídico actual e em torno dele a sua linguagem. O que ele escreve é a sua opinião. É a sua posição face a determinado assunto. Um jornalista numa situação normal tem que se restringir aos factos e não convém por muito da sua opinião na peça.

Para si quais são as vantagens e os inconvenientes desta dupla escrita?

Em relação às vantagens, penso que isso depende um pouco do meio onde se trabalha. Em agência, por exemplo, é muito complicado existir alguma literatura no jornalismo, porque a maneira de escrever é diferente, os parágrafos são curtos, as ideias são muito concisas e as noticias têm de ser pequenas. Nesta perspectiva, o jornalismo de agência exclui um pouco a literatura. No entanto, nas revistas que saem ao domingo com os jornais encontramos belíssimas reportagens que sendo fieis aos princípios do  jornalismo, tornam a sua leitura muito agradável porque estão escritas num tom mais poético.

E os inconvenientes?

A literatura pode ser negativa para o jornalismo quando se escreve de uma forma muito literária. Esse tipo de escrita pode prejudicar a compreensão dos factos ao leitor. Acho que este será mesmo o maior inconveniente.

Qual é a sua visão em relação ao jornalismo que se faz actualmente?

Estou condicionada pelo facto de estar inserida no meio, mas talvez não tenha uma visão tão negativa. Compreendo que ultimamente o jornalismo esteja a ser tão criticado, porque há uma grande tentação de dar aos leitores aquilo que se pensa que eles querem e de achar que o que eles querem é sangue, escândalo e confusão. Acho que é errado pensar que as massas não querem nada de muito profundo. Por outro lado, penso que é necessário compreender o que é ser jovem jornalista hoje em dia. Ao falar com colegas de outros jornais tenho a sensação de que as pessoas são muito pressionadas em termos de tempo, na medida em que num dia têm mais do que um trabalho. Nestas condições é impossível trabalhar com calma e ter tempo para fazer uma investigação.

Depois existe também a questão das rescisões de contratos feitos por muitos órgãos de comunicação, o que leva a que os jornais comecem a perder a sua memória. Deixámos de ter a oportunidade de esclarecer dúvidas com jornalistas mais velhos. Há ainda a condicionante de sabermos que existem muitas pessoas que querem entrar no jornalismo e se nos órgãos nacionais a pressão não é muito directa, nalguns órgãos regionais que conheço as coisas são postas nos seguintes termos: “se achas que este trabalho não é muito bom, há quem faça”. Este tipo de situações acabam por lesar o jornalismo, não pelo facto do jornalista ser incompetente, mas sim porque não tem a oportunidade ou as condições para fazer melhor.

Quando elaborou este livro tinha a noção de que ele pudesse ter esta projecção?

Não (risos). Apenas tinha a impressão de que o tema interessava. A primeira vez que tive a noção de que o livro poderia ter algum impacto foi, talvez, quando tive o prefácio do Baptistas-Bastos e vi como ele tinha gostado da obra. O mesmo aconteceu com o Urbano Tavares Rodrigues que fez a apresentação do livro em Lisboa e teve a mesma opinião. Esperava que as pessoas gostassem, que os alunos e professores se interessassem pela obra, mas uma reacção tão positiva não estava nada à espera. Tem superado as minhas expectativas.

 

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