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Chico Buarque: será que vale a pena chorar sobre Leite Derramado?

Chico Buarque: será que vale a pena chorar sobre Leite Derramado?

 

Chorar sobre leite derramado” é uma expressão muito comum que todos ouvimos, pelo menos, uma vez na vida. A frase é normalmente empregue quando se é confrontado com algo irremediável, quando nada resta a fazer ou não há solução. Porque é que não vale a pena chorar? Ora, porque “o que não tem remédio, remediado está” e, por isso, as lágrimas de nada servirão.

Tal como a grande maioria das expressões populares portuguesas, não se sabe ao certo de onde vem a expressão. De acordo com o Almanaque Brasil da Cultura Popular, a frase começou a ser usada depois de uma jovem camponesa ter deixado cair um balde de leite que transportava à cabeça. O leite devia ser vendido e, antes da queda, a rapariga já fazia contas ao dinheiro que ganharia com o produto. Embora triste, a rapariga admitiu que nada havia a fazer e, como tal, não valia a pena chorar.

Findas as explicações, voltemo-nos agora para o verdadeiro assunto deste post. Nas linhas que se seguem, tentarei analisar um dos últimos livros que li, o penúltimo editado pelo brasileiro Chico Buarque. A obra chama-se (adivinhem!) Leite Derramado, é a sucessora da aclamada Budapeste e foi através dela que comecei a olhar para a expressão com outros olhos.

Antes de mais, comecemos pelo princípio; pelo princípio do livro, porque o começo da história já lá vai há muito e, na verdade, estamos mais próximos da linha da meta do que da linha de partida. Fora do horário de visitas, folheamos as páginas para encontrar Eulálio d’ Assumpção, um velho moribundo que, a partir do leito da cama do hospital, recorda memórias de tempos pretéritos, mais presentes do que o agora.

O estado de descuido não deixa adivinhar as origens deste sujeito e todos parecem ignorar que o sangue que lhe resta, agora que completa cem anos, até já foi azul. Descendente de portugueses importantes que até frequentaram a corte, Eulálio passou grande parte da sua vida em Copacabana, local onde ele próprio teria escolhido criar raízes caso fosse uma planta.

Em monólogos analépticos e prolépticos, o velho leva-nos numa viagem pelo tempo até à sua infância para depois nos trazer de volta ao presente, embora este nunca pareça ter grande importância. Pelo meio, fazemos paragens por episódios mais ou menos marcantes, conhecemos o pai Eulálio, a mãe Maria Violeta, o “moleque” Balbino e a eterna amada, Matilde, uma jovem mulher branca de tez escura que alguns diriam ser mulata.

No leito da morte, Eulálio fala para quem o quiser ouvir e dá até indicações a uma enfermeira para que escreva as suas memórias. Entre histórias, diz-lhe para ter cuidado com a gramática porque, quando os outros lerem, todos pensarão que as palavras foram escritas por ele e ele não era dado a erros de ortografia. A enfermeira, tal como a filha, a já octogenária Maria Eulália não lhe dão grande cavaco, motivo pelo qual ficamos sempre com dúvidas se o que lemos foi realmente dito ou se não passou de uma torrente de pensamentos.

Tal como o pensamento, a escrita de Buarque torna-se é volátil, gerando confusão. Todos os descendentes dos Assumpção partilham o mesmo nome e, a certa altura, damos por nós a ter dificuldade de perceber que Eulálio é que fez isto e que Eulálio é que fez aquilo. Será que as memórias são do velho centenário ou dos antecessores? E quem são os rapazes novos de que nos fala? Será o neto, o bisneto ou trata-se já do tetraneto? Bem, no fim, isso pouco importa.

Os Eulálios cada vez menos Assumpção (com “p” mudo)

De forma desconexa e repleta de humor, o livro acaba por nos contar a linhagem de Eulálios, dos tempos monárquicos à atualidade, onde a ancestralidade do nome não tem relevância e o dinheiro já não provém das atividades régias, mas sim das atividades ilícitas. É com estas que se ocupa o Eulálio mais novo, que não tem Assumpção no último nome porque, anos antes, Eulálio de Assumpção, o centenário, tinha quebrado a corrente de filhos barões.

Coincidência ou má sorte, foi com o agora acamado que se iniciou o percurso de decadência dos Assumpção. Imagem débil do que outrora foram, Eulálio e a mãe, Maria Violeta (ou Viollete porque era dada às “francesices”), mantiveram as aparências e o nível de vida, apesar das perdas na bolsa algures nos anos 30 e da manifesta falta de dinheiro.

Quem não ia com a cara de Maria Violeta, era Matilde e o mesmo podemos dizer da sogra em relação à nora. Casada com Eulálio da Assumpção, Matilde era uma mulher jovem que atraía olhares e que deixou o nosso jovem, agora velho, com calores logo no primeiro encontro, quando ambos ainda eram muito novos e estavam prestes a comungar na igreja. Um banho de água fria resolveu o problema, mas a paixão acabou por dar lugar ao amor.

Descontos!
 

Juntos tiveram uma filha, Maria Eulália, a tal que rompeu a linhagem de filhos homens. Antes que pudesse reconhecer a mãe, Matilde resolveu sair da casa à beira mar, em Copacabana, e nunca mais regressou. Os motivos que a levaram a tomar essa decisão não ficam completamente explícitos, mas a verdade é que nunca mais Eulálio se viria a apaixonar por outra mulher.

Apesar do personagem principal não perceber, o livro dá a entender que a razão para o abandono está no ciúme – sentimento que para Chico Buarque tem tanto de cómico como de trágico.

Quase como uma maldição, Matilde deixou a família e tudo se desmoronou. Maria Eulália também não foi feliz e viu-se envolvida em, pelo menos, duas relações nada afortunadas. Da primeira, nasceu Eulálio da Assumpção Palumba, um miúdo inteligente que o avô tratou com carinho. Levava jeito para a política, mas para sua desgraça e relativo desgosto, acabou por se tornar comunista revolucionário. Deste sabe-se que morreu na prisão e que deixou um filho aos cuidados do avô e da mãe.

A partir daí, a história confunde-se, no entanto, há um aspeto curioso. Há medida que as gerações passam, os Assumpção parecem cada vez mais escuros. Porque será? Num país, onde a cor da pele ainda é motivo de racismo, Chico Buarque escolhe deixar uma visão irónica e algo cómica do processo de miscigenação. A diferença entre brancos e negros é notória e, no final, acabamos por perceber que, afinal, Matilde só é de “boas famílias” porque uma família de brancos a decidiu acolher. Estava, então, explicado o porquê de ela ser a mais escura das irmãs.

Leite Derramado e o olhar crítico sobre história do Brasil

Tendo sempre vivido e estudado Portugal, confesso que os conhecimentos históricos que possuo sobre o Brasil não são os mais profundos. Todavia, não são necessárias grandes análises para que percebamos que o livro é, de facto, um excelente retrato das grande mudanças operadas nos últimos anos, não só neste país, como no mundo. Da Monarquia à República, Buarque deixa-nos com uma narrativa que só tem princípio, meio e fim depois de a acabarmos de ler, compondo, no final, a história de um homem como outros que nasceu, viveu (às vezes melhor, outras vezes pior) e morreu.

Os maiores conhecedores da obra musical de Buarque dirão que Leite Derramado é a versão romanceada de uma canção do autor. Essa música chama-se O Velho Francisco e, depois de ouvir, é impossível não ver as semelhanças. Tal como no tema, em Leite Derramado, há um homem que já fez uma série de coisas, mas que a vida acabou por levar. A estrofe mais flagrante será provavelmente a que diz o seguinte: “Hoje é dia de visita / Vem aí meu grande amor / Hoje não deram almoço, né? / Acho que o moço até / Nem me lavou”.

Chico Buarque - O Velho Francisco

 

Em jeito de conclusão, resta reforçar o caráter simultaneamente cómico e trágico de Chico Buarque. Num livro sem parágrafos nem travessões, lemos como pensamos, só que desta vez os monólogos não são nossos, mas de Eulálio. A capacidade de transposição da personalidade para as páginas é admirável e justifica todos os elogios feitos a Leite Derramado.

Outra conquista que merece ser assinalada está no facto de, ao escrever, Chico Buarque ter sido capaz de fazer um retrato não só dos personagens, como também do seu país. Preconceito, superioridade nobiliárquica, comunismo e tráfico de cocaína são assuntos que, apesar de por vezes apenas levemente tocados, nos deixam ver o Brasil do passado ao presente.

Por último, não podemos esquecer a lição humana. Leite Derramado não é só uma referência a uma cena que se passa no livro: no fundo, trata-se de uma metáfora para o fim da vida. Às portas da morte, Eulálio trouxe para si as memórias de cem anos irrecuperáveis, que já passaram, que foram derramados. No final, quando já nada há a fazer, fica a questão: vale a pena chorar sobre leito derramado? A resposta fica a cargo do leitor.

 

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