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A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha: Lisbeth Salander está de volta

A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha: Lisbeth Salander está de volta

 

Apesar do sucesso alcançado pelo livro Os Homens que Odeiam as Mulheres, publicado pela primeira vez em 2005, na Suécia e, em Portugal, em 2008, já quase todos tinham esquecido a personagem incrível de Lisbeth Salander e a trilogia thriller que o autor sueco Stieg Larsson deixou como legado. Pelo menos confesso que já tinha esquecido a trilogia Millennium, que fez parte das minhas leituras há um bom par de anos. Recordo-me que adorei a saga, que devorei cada livro em poucos dias… Mas grande parte dos detalhes do enredo acabaram, inevitavelmente, por cair no esquecimento.

Além disso, depois de adaptações cinematográficas, – a sueca (que adaptou os três livros) e a norte-americana (assinada por David Fincher mas que não recebeu uma sequela) – a história parecia ter dado tudo o que tinha a dar. Infelizmente, não havia como continuar o thriller de Lisbeth Salander e do jornalista Mikael Blomksvit. Porquê? Porque o autor morreu antes de terminar aquele que teria sido o quarto volume da saga Millennium.

  
Os livros de Stieg Larsson só surgiram à luz do dia em 2004, após morrer na sequência de um ataque cardíaco (e este provocado, supostamente, porque teve de subir um lance de escadas de um prédio). Pelos vistos, o autor tinha escrito os livros nos seus tempos livres e começava a procurar uma editora disposta a publicá-los. Infelizmente, Stieg Larsson já não estava cá para assistir ao sucesso da trilogia. Ou para terminar o quarto livro, já numa fase avançada de desenvolvimento, que ia dar um esclarecimento ao final aberto de A Rainha no Palácio das Correntes de Ar.

Além do inacabado quarto manuscrito, foram também encontradas no computador de Larsson alegadas sinopses e planos para um quinto e sexto volume da série. Ainda assim, devido a uma disputa pela herança do autor, a sua companheira de longa data, Eva Gabrielsson, manteve todo este material “refém”, impedindo a sua publicação.

Os fãs deram então por certo que a morte de Stieg Larsson seria também a morte de Lisbeth Salander… Até que a editora sueca Norsteds contratou o jornalista David Lagercrantz para continuar a saga e lhe dar o fim merecido. Sem acesso aos planos e manuscrito de Stieg Larsson, o sueco lançou-se na produção do livro

E é assim que chegamos a 2015, 11 anos depois da morte de Stieg Larsson e altura em que se celebra o 10.º aniversário da publicação do primeiro livro. Um livro com o título A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha chega às livrarias. A capa é familiar, muito parecida com a de Os Homens que Odeiam as Mulheres. De novo uma rapariga com um dragão tatuado nas costas. Poderá ser mesmo o regresso de Lisbeth Salander? Ainda que reticente, fui à Fnac garantir a minha cópia assim que saiu a edição portuguesa do livro.

O que gostei mais e o que gostei menos

Sabia que não era fácil calçar os sapatos de Stieg Larsson mas tenho de reconhecer que, de forma geral, David Lagercrantz conseguiu preencher a posição de forma razoável. O estilo de escrita, reparei, não me pareceu muito diferente. Claro que não estava preparado para comparar o estilo de cada autor, porque mal me lembrava da trilogia original. Mas, de forma geral, a escrita permanecia agradável e fluída, capaz de nos deixar tão absorvidos que, a partir de certo ponto, mal damos por nós a virar as páginas.

Mas nem tudo é positivo: notei algo, pelo menos nos primeiros capítulos, que me fez torcer o nariz. Os diálogos estavam a incomodar-me. Não sei se era devido à tradução portuguesa ou se era mesmo culpa do autor, mas os diálogos pareciam-me forçados, quase mecânicos. Falas longas, respostas pouco fluídas e improváveis. À medida que fui avançando de capítulo para capítulo acabei por me habituar a estes discursos orais mais “robotizados”. Talvez a outros leitores este seja um detalhe que passe despercebido mas, para mim, foi algo que se notou bastante.

Por outro lado, uma das coisas que mais apreciei no arranque do livro foi a crise da revista Millennium. A famosa revista de investigação de Erika Berger e Mikael Blomkvist não se está a adaptar às mudanças da web 2.0. Já que estudei Jornalismo e trabalho agora em Marketing Digital, podem facilmente calcular que achei esta parte deliciosa.

 

É que faz todo o sentido: afinal de contas, o Facebook e o Twitter não existiam na vida de Lisbeth Salander e de Mikael Blomkvist na trilogia Millennium original. Estranho, não é? Parece que ainda foi ontem que lemos os livros e mal notamos que o universo digital era ainda uma criança quando comparada a hoje. O Facebook foi, aliás, criado apenas alguns meses antes da morte de Stieg Larsson e, pela altura em que o escritor morreu, estava ainda longe do sucesso hoje alcançado.  As críticas às #hashtags e a recusa de Mikael Blomkvist em fazer da Millennium um jornal sensacionalista que alimente as massas com histórias de brincadeira deixaram-me com uma enorme vontade de regressar ao jornalismo.

Olá, Lisbeth Salander, é bom ter-te de volta

Passaram-se alguns anos desde os acontecimentos de A Rainha no Palácio das Correntes de Ar e nem tudo está a correr bem. Tudo começa quando Blomkvist – que anda a procura de um furo jornalístico que salve a revista – recebe um telefonema de uma fonte que diz ter informação vital para os Estados Unidos. Aquele poderia ter sido apenas mais um telefone se a fonte não citasse uma hacker, com quem trabalhou, e cuja descrição corresponde na perfeição a Lisbeth Salander. Ainda que o contacto entre Mikael e Lisbeth não se tenha mantido regular durante os últimos anos, um novo caso polémico volta a juntá-los.

O facto de o enredo estar diretamente relacionado com Agência de Segurança Nacional (NSA) – que andou recentemente nas bocas do mundo depois do escândalo de Edward Snowden e Wikileaks – e de criar uma relação, ainda que ténue, com a atividade criminosa do pai de Lisbeth Salander, estabeleceram o cenário perfeito para o regresso da personagem. Lagercrantz consegue pegar nas pontas que Larsson deixou por atar no final da sua trilogia.

Sem querer estragar a história a ninguém, porque não é esse o objetivo desta review, recomendo que leiam uns resumos da trilogia original antes de ler este quarto volume. Ou talvez rever os filmes suecos, para avivar a memória. Quem se lembra, por exemplo, que Lisbeth Salander tem uma irmã gémea, totalmente o oposto dela? Este é um detalhe fácil de esquecer mas que deve estar na mente dos leitores. E mais não digo!

Com uma mestria surpreendente – especialmente se relembrarmos que David Lagercrantz não teve acesso aos apontamentos de Stieg Larsson – é nos dada uma explicação lógica para o nomes WASP – Vespa – que Lisbeth Salander usa entre os seus colegas hackers. E, acreditem, a explicação está tão bem montada que acho que, de todas as surpresas que o livro me deu, esta foi talvez uma das melhores e mais interessantes. Digo-vos apenas que envolve livros de banda-desenhada da Marvel e a personagem desta imagem aqui ao lado.

No desfecho do livro, sente-se uma espécie de triunfo que poderíamos ter encontrado em Os Homens que Odeiam as Mulheres mas também uma nota melancólica, como a encontrada no final de A Rapariga que Sonhava com um Fósforo e uma Lata de Gasolina e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar. E, claro, um final aberto para novas histórias.

Felizmente, já foi confirmação a produção de dois novos livros, um quinto, com data de lançamento prevista para 2017, e um sexto, planeado para 2019. Os dois voltarão a estar assinados por David Lagercrantz que, pelo menos a mim, já me convenceu de que A Rapariga com a Tatuagem do Dragão não está morta. Muito pelo contrário.

 

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