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Livraria Moreira da Costa: palavras da alma para um livro antigo

Livraria Moreira da Costa: palavras da alma para um livro antigo

 

Fundada em 1902, como Centro Literário Marinho e Costa, a Livraria Moreira da Costa, que há muito habita o nº 30 da Rua de Avis, é o mais antigo alfarrabista da Cidade do Porto. Um espaço singular, que esconde um tesouro da cidade e do mundo, que o co-proprietário Miguel Carneiro, partilha com quem o quiser apreciar.

A história da vida de Miguel, que se confunde já com a da própria livraria, na qual trabalha há 26 anos, faz-se de um amor profundo pelos livros antigos e usados. “Eu sou sobretudo um alfarrabista e não um livreiro”, realça Miguel Carneiro, sublinhando as diferenças: “O alfarrabista compra e vende livros usados, enquanto o livreiro vende livros novos, que compra ao editor, devolvendo-os ao fim de uns meses, se não os vender”.

Com um espólio de cerca de 50 mil livros, 20 mil já catalogados, e outros 30 mil ainda por catalogar, a Livraria Moreira da Costa, que tem escondida na cave a maior parte destas publicações, começou na Travessa da Fábrica, hoje Rua de Avis.

Outrora situada a alguns metros ao lado da loja na qual hoje funciona, nessa altura em cima do atual Túnel de Ceuta, a livraria conhece já a quinta geração desta família, que trabalha com livros desde o século XIX. “O meu trisavô foi caixeiro da Livraria Ernesto Chadron”, revela Miguel Carneiro, que começou a frequentar o espaço singular ainda no berço.

“Como a minha mãe trabalhava, quem tomava conta de mim era a minha avó, que me trazia para aqui numa alcofa. Lá em cima havia dois bancos muito famosos, onde os clientes se sentavam. Muitas vezes a minha avó deixava de vender para não interromper a conversa que estava a ter com os amigos”, prossegue Miguel Carneiro, que aos seis anos já separava os livros, consoante a respetiva editora!

Livraria Moreira da Costa: um mundo de histórias

Miguel Carneiro trabalha na Livraria Moreira da Costa desde muito jovem. Uma opção que tomou no fim do 12º ano por amor aos livros, em especial aos livros antigos e usados. Um percurso já extenso e com muitas mudanças, que faz questão de partilhar: “Hoje tudo é diferente, antigamente as pessoas vinham ver as novidades, entravam sem saber o que queriam, hoje com a Internet as coisas transformaram-se a adaptámo-nos aos novos tempos. Não quer dizer que as pessoas não venham à livraria de vez em quando, mas não é a mesma coisa. Nota-se uma diminuição da procura, até pelos efeitos da crise económica. Hoje vendemos muito mais para o estrangeiro e menos para Portugal”.

E Miguel prossegue, lembrando: “Já desde o tempo da minha avó que se vendia muito para Inglaterra por exemplo. No entanto há clientes que vêm à livraria há mais tempo do que eu sou vivo!”.

Descontos!
 

Com um sorriso estampado no rosto, Miguel, que é proprietário da livraria em conjunto com os pais, lembra algumas histórias curiosas que aconteceram nos anos que aqui já passou. “Nós tivemos um senhor que foi nosso cliente durante dez anos, e só ao fim desse tempo, por uma conversa, é que soube que era pai de uma figura pública. Nos anos 90 tivemos também um cliente que comprava centenas de livros por mês e só dormia três ou quatro horas por dia para os ler”, conta o rosto da Livraria Moreira da Costa, lembrando um outro episódio: “Uma vez apareceu-me aqui um homem, que me perguntou se vendia parafusos, e eu pensei que fosse brincadeira. Mas não, depois percebi que no século XVIII havia uma forma de encadernação com parafusos, e ele queria dois para recuperar uma encadernação que tinha”.

Com um recheio constituído na sua maioria por livros anteriores a 1900, a Livraria Moreira da Costa é especializada em literatura francesa, religião e autores portugueses e voltou este ano à Feira do Livro do Porto, tendo adquirido recentemente uma biblioteca de mais de um milhar de exemplares. Algo que há alguns anos já não acontecia.

Miguel Carneiro fala com orgulho de algumas preciosidades que por aqui já passaram. “O primeiro livro raro que comprei, ou seja, o primeiro que tive autonomia para comprar foram Os Lusíadas de Emílio Biel, que me custou trinta contos e que conservei durante vinte anos. Depois, e como os livros não podem ser eternamente nossos, alguém mo pediu e acabei por vender. Um outro que comprei foi o Mundo de Sofia, que queria ler. Mas não o comprei enquanto não apareceu usado, e por isso estive três anos à espera”, revela.

Miguel Carneiro, que considera essencial “sentir o livro”, realça o prazer de “fazer voltar ao circuito alguns livros que estiveram guardados durante muitos anos”, frisando que “ se nos prendemos muito a um livro não o vendemos”. Outro aspeto que Miguel considera fundamental na aquisição de livros são o grafismo e o nome do tradutor. “São garantias de confiança e qualidade”, assegura, enquanto o nosso olhar se perde por estas prateleiras, entre o pó e as palavras partilhadas pelo tempo.

 

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Comments

  • Ana Andrade
    24 October, 2015

    A descrição minuciosa que o escritor faz acerca da Livraria Moreira da Costa desperta a curiosidade em visitar pessoalmente este espaço.
    Parabéns pela forma como escreve e descreve este espaço.
    Continuação de bom trabalho!!!

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