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Manuel de Oliveira Guerra: amado em Espanha, esquecido por Portugal

Manuel de Oliveira Guerra: amado em Espanha, esquecido por Portugal

 

“Não se faz poesia,/ por toda a parte ela existe,/ O que é preciso é vê-la,/ e senti-la/ e colhê-la”. Pouco a pouco, Manuel de Oliveira Guerra foi colhendo a sua própria poesia. A simplicidade desde sempre caracterizou a obra e a vida do escritor, que apesar de esquecido em Portugal é tido na Galiza como um ícone literário.

“Ei-lo que passa de cabeça baixa,/ a mirar sempre, estranho, para o chão,/ como quem anda a ver se busca e acha/ rima difícil, chave ou solução…”. Neste poeta está caracterizado Manuel de Oliveira Guerra. Um homem calado, imerso nos seus pensamentos, de poucas palavras, autor de uma obra multifacetada que se desenrola entre os poemas, a ficção e os ensaios.

Um homem generoso, intuitivo, delicado, simples, amigo do seu amigo, transparente como a sua escrita e a loja de vidros da qual era proprietário. Sem aspirações estilisticas, o escritor era a sinceridade emocional em pessoa.

Quem foi Manuel de Oliveira Guerra

Manuel de Oliveira Guerra nasceu no ano de 1905, em Oliveira de Azeméis, Portugal. Era filho de Augusto Oliveira Guerra, um operário vidreiro bastante qualificado na sua profissão. Tão qualificado que conseguiu, com o seu esforço e conhecimento, transformar a empresa numa das mais rentáveis e prósperas que deu trabalho a muita gente. Um republicano intransigente, que se tornou no melhor guia do escritor.

Manuel acompanhou de perto a luta do seu pai e conhecia como ninguém os meandros da fábrica. Com onze anos, é atacado pelo “mal de Pott” doença que o levou a afastar-se da sua família e da fábrica, para ser internado no Sanatório Marítimo do Norte, em Francelos.

Lá passou nove anos da sua vida que marcaram para sempre a sua existência. Um rapaz habituado à agitação via-se agora amarrado a uma cama. Graças às lições que recebeu de um professor que visitava o sanatório, Oliveira Guerra concluiu o 2º ano no Liceu de Aveiro. Mas desde muito cedo que as leituras e a escrita preenchiam a sua vontade de conhecimento. E os seus primeiros passos na arte literária eram dados na redacção de um pequeno jornal do sanatório, «O Girassol».

Onze anos depois de ter sido internado, Manuel de Oliveira Guerra é dado como curado da maleita que o afectou ainda menino. Voltou a ocupar o lugar que tinha deixado vago na fábrica, numa época em que a agitação operária se fazia sentir. O proletariado lutava agora pelos seus direitos fazendo greves e manisfestações.

A sua primeira obra

Decorria o ano de 1932, quando publicou a sua primeira obra, intitulada «Padre Nosso». Um pequeno livro de poemas cujo prefácio foi assinado por Ramada Curto. Aqui sente-se a revolta de um homem que luta contra a hipocrisia e a mentira de uma instituição – a igreja católica – com a qual não se identifica. A única religião que seguia era a do trabalho e a do bem.

Nesta altura, Manuel de Oliveira Guerra era uma senão a única voz, que mais do que nunca fazia abanar os pilares de uma instituição milenar. Um livro esgotado em 15 dias que lhe valeu muitas complicações.

Como seria de esperar os sacerdotes movientaram-se e tentaram junto do seu pai, impedir que voltasse a escrever uma outra obra de cariz tão inflamado. E foi isso mesmo que prometeu a seu pai, que severamente o chamou à razão. No entanto, «Padre Nosso» acabaria por ser reeditado nos Anos 60.

«Avé Maria» foi o título do seu segundo livro, que por razões familiares ficou suspenso e acabou por não ser publicado. A par dos louvores e das apreciações favoráveis que recebeu, também lhe fizeram críticas subtis aos exageros patentes na obra, que mais não eram do que o fruto da irreverência da própria idade.

Tentaram calá-lo e chegou mesmo a levar umas valentes tareias. Mas de todas as críticas que fizeram à sua primeira obra, destacam-se dois jornais, que apesar da sua pequenez envaidesseram o escritor: «Correio de Azeméis» e «Opinião». E foi também através destes que «Padre Nosso» não ficou esquecido numa prateleira qualquer, mas suscitou o interesse e a curiosidade de leitura de muitos que o viam como um fruto proíbido.

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A sua ligação à Galiza

A vida literária de Oliveira Guerra não se limita apenas aos livros editados. A menina dos seus olhos foi sem dúvida a revista «Céltica – Cadernos de Estudos Galaicos-Portugueses», da qual existem apenas quatro números. Foi com ela que o escritor encetou uma aproximação profunda entre o Norte de Portugal e a Galiza, nos anos 60.

Embora difundida no nosso país, a revista ganhou maior notoriedade na terra de «nuestros hermanos», onde foi considerado um marco da cultura galega. Atitudes que demonstram o valor e o carinho que tinham pelo trabalho do escritor e cuja sua morte foi mais sentida pelos galegos, do que propriamente pelo país que o viu nascer. Um país onde poucos o conhecem e onde não faz parte da lista dos melhores escritores portugueses.

Uma simples vida a dois

Antes mesmo de ter publicado o seu primeiro livro, Manuel de Oliveira Guerra contraíu matrimónio com uma rapariga de poucos recursos económicos, mas de boas famílias. Estávamos no ano de 1928. Do casamento nasceram quatro filhas, uma das quais seguiu as pisadas do pai.

Virginia Monteiro, actualmente conhecida como Virginia Guerra, é escritora e guarda com ela todo o espólio que faz parte da vida e obra de seu pai. Um conjunto de manuscritos e documentação pessoal do escritor, nomeadamente fotografias, poemas, cartas, textos avulsos, livros oferecidos por intelectuais da época, caricaturas pintadas por dois grandes amigos, Carlos Carneiro e Amarelhe, crónicas das viagens que realizou à Galiza e a vários países da Europa, todas elas registadas com desenhos e pequenos percursos de mapas feitos pelo próprio escritor.

Os devaneios de Manuel de Oliveira Guerra

Contudo, o escritor tinha uma fraqueza. A fidelidade não era um dos aspectos a que desse muita importância, talvez pela sua juventude e pelo facto de não a ter gozado. Num dos seus deslizes de amor, Oliveira Guerra partiu para o Brasil numa viagem que desagradou a seu pai, que acabou por vender a sua quota na fábrica após a pressão do sócio.

Sem saber, o escritor partiu do seu país herdeiro de quase um império e viu-se à chegada, sem emprego e sem futuro. Surpreendido com tal decisão, pai e filho acabamram por ter uma acesa discussão que resultou na perda de grande parte da herança. Oliveira Guerra ficou apenas com um armazém de vidros, situada na Rua Pinto Bessa na cidade do Porto. Aqui trabalhou como comerciante e aqui se inspirou para outras das suas obras. Uma cidade que o acolheu de braços abertos, mas que infelizmente poucos ouvem falar de si e das suas escritas.

As outras obras

Foi em 1962, muito perto do final da sua vida, que Manuel de Oliveira Guerra publica em edições de autor um livro de contos, «Caminho Longo», que se caracteriza pela simplicidade dos diálogos, pela naturalidade com que estes fluem, pela forma agradável e tradicional com que a história foi criada.

A este seguiram-se dois poemários: «Coisas desta negra Vida» e «Algemas». Aqui estão presentes todas as frustrações e revoltas sentidas pelo escritor, contra tudo o que foi obrigado a pagar pelos erros que cometeu na sua juventude. O desprezo sobre um quotidiano estreito para as suas ambições intelectuais, onde não possuia dinheiro nem tempo para se dedicar ao que mais gostava de fazer: escrever.

Tal como se caracterizou a sua vida, a morte de Manuel de Oliveira Guerra também se pautou pela simplicidade. Cansado e desgastado pelas agruras da vida, morreu a dar uma bolacha à filha da empregada.

Como sempre fez na sua vida, Manuel de Oliveira Guerra partir deste mundo a dar e nunca a receber. E tal como a simplicidade que o acompanhava a sim foi o cortejo para a sua última morada. Num cemitério situado em Espinho, repousa numa capela modesta junto ao mar. Um cenário tão simples como foi o filme da sua vida.

 

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