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Entrevista com a Marquesa de Ficalho, neta de Eça de Queiroz (Parte II)

Entrevista com a Marquesa de Ficalho, neta de Eça de Queiroz (Parte II)

 

Nesta segunda parte da entrevista com Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello, a neta do Mestre da Ironia abordou as influências Queirosianas na sua vida. Apesar de nunca ter conhecido fisicamente o avô, Maria das Dores tem poucas dúvidas sobre a importância exercida por Eça de Queiroz durante a infância: “Não podia deixar de marcar a nossa vida, porque o meu pai vivia debruçado sobre os manuscritos para publicar os livros póstumos”.

Além desse factor, a Marquesa de Ficalho acrescenta: “Para mim foi muito importante psicologicamente, porque escrevi todas as minhas cartas de solteira na secretária do meu avô. Também tinha uma secretária no meu quarto, mas achava que aquilo era uma porcaria, de maneira que ia para a sala e escrevia em cima da pasta do meu avô. Era uma pasta muito simples e não tinha graça de espécie alguma, mas tinha a graça de ele ter estado debruçado sobre ela. A influência do meu avô na época resumiu-se a isso, porque na altura uma menina não lia Eça de Queiroz”.

A relação com a literatura produzida por um dos mais influentes escritores da língua portuguesa apenas foi estimulada anos mais tarde. Embora não aponte a data exacta, Maria das Dores recorda que A Cidade e as Serras foi o primeiro livro do avô vislumbrado pelos seus olhos. “Depois, li quase todos os livros do meu avô, mas na altura gostei muito desse. No entanto, só li Os Maias quando já era casada. A minha sogra achou muito mal, porque achava que não era um livro para uma senhora. Não liguei ao recado”.

Neta de Eça de Queiroz: “Sei tudo do meu avô como se o tivesse conhecido”

Em relação a outras obras, Maria das Dores declara que, por exemplo, não terminou O Crime do Padre Amaro. A explicação é simples: “Não acho mal dizer-se uma coisa que está errada mas que aconteceu, pelo contrário, acho justo dizer a Verdade, mas certas coisas daquele livro desagradaram-me. Sempre fui um bocado respeitadora, pelo menos numas coisas, enquanto noutras talvez não seja”.

Quanto à personalidade de Eça de Queiroz, Maria das Dores revela entre sorrisos: “Sei tudo do meu avô como se o tivesse conhecido, mas em concreto não sei nada. Ouvi muitas histórias através da minha família e divertia-me imenso com o que aprendia”. A morte precoce do avô, falecido no dia 16 de Agosto de 1900 em Paris, foi um rude golpe para D. Emília de Castro, conforme enuncia: “A minha avó nunca falava do meu avô. Nós sabíamos que ela tinha um grande desgosto com a morte dele, assim como ficou destroçada com o falecimento do meu pai, que morreu com apenas 40 anos, em 1928, por causa da febre tifóide”.

Somente nos últimos dias da vida é que D. Emília de Castro efectuou um comentário que Maria das Dores nunca esqueceu. “Apesar de ser uma pessoa que tinha medo da morte, quando percebeu que ia partir a minha avó disse-nos para não ficarmos tristes, pois estava contente porque finalmente ia estar com o marido e o filho”, declara com emoção.

 

Amizade profunda com Sophia de Mello Breyner

A influência da literatura na família nunca foi revertida para o campo da criação artística. Aliás, Maria das Dores demonstra como estava afastada desse campo: “Escrevia aos meus amigos, mas nunca senti a vocação de escrever. Certa vez, uma prima minha decidiu fazer um concurso de quadras e fiquei muito atrapalhada, porque nem uma quadra sabia fazer. Mesmo assim, fiz uma rima em ão, porque era fácil, em que referia um portão e o Lão. A minha mãe apanhou aquilo e deu-me um par de estalos. Achei aquilo injustíssimo, porque eu não tinha nada com o Lão. Gostava dele como se fosse meu irmão, apesar de ser meu primo”.

Entre as amizades de adolescência, Maria das Dores lembra-se muito bem do contacto com Sophia de Mello Breyner. A partilha de momentos de férias com a poetisa criou uma enorme amizade e admiração que ainda hoje perdura: “A Sophia era muito minha amiga. Lembro-me que ela punha-se em frente a uma janela virada para o mar e lia os versos que escrevia. Ficava completamente espantada com o que saía daquela cabeça de 14 anos e achava os versos dela uma coisa lindíssima. O português da Sophia é muito bonito e penso que a poesia dela é pura. Aliás, tudo para ela é poesia. Pode ser uma chaminé, um candeeiro, o mar, as ondas ou o céu. Achava esquisito como ela conseguia fazer aquilo”.

Entrevista publicada em Homenagem a Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello, Marquesa de Ficalho (1918-2004)

Entrevista com Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello – Parte I

Entrevista com Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello – Parte III

 

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