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Entrevista com neta de Eça de Queiroz: “Aprecio muito a Verdade” (Parte III)

Entrevista com neta de Eça de Queiroz: “Aprecio muito a Verdade” (Parte III)

 

Neste último segmento da entrevista com Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello, a neta de Eça de Queiroz avaliou os efeitos do 25 de Abril de 1974, reflectiu sobre o estado do Mundo e relembrou como aprecia a Verdade acima de todos os outros valores.

Sobre o sentimento que nutre pela poesia, a Marquesa de Ficalho também não tem dúvidas: “Aprecio muito a Verdade, mas há certa poesia que não tem Verdade nenhuma. Em geral, não gosto dos poetas. Gosto de algumas coisas do Fernando Pessoa, principalmente do Álvaro de Campos. Existem alguns poemas que são muito considerados e que acho que são uma bodega, de maneira que não sei nada de poesia. Apenas há uns que gosto e outros que não gosto”.

Já sobre a literatura em prosa, Maria das Dores confessa que aprecia muito os autores franceses, mas não se assume como uma conhecedora profunda. “Acho que na literatura actual ninguém seguiu as pisadas do meu avô, porque ele criou textos absolutamente únicos, mas sou muito inculta nesse aspecto. Tenho lido pouco e não tenho paciência para comprar livros. Agora, ando a ler as Notas Contemporâneas, que acho um livro fantástico. Contudo, de vez em quando, acho que o meu avô devia estar calado. Penso que ele escrevia de uma maneira inacreditável, porque vê-se os miolos a mexerem no texto, mas também metia algumas petas”, declara sem pudor e com bastante humor!

As perdas irreversíveis da Vida

O casamento com António Martins de Mello, Marquês de Ficalho, aconteceu aos 24 anos, tendo começado a vida matrimonial em Lisboa. Depois, tal como acontecia em 2003, dividiu os seus dias entre a casa de Serpa e a capital de Portugal. “Já conhecia o meu marido desde criança, através de umas brincadeiras soltas, porque o meu sogro viveu um tempo na Serra do Pilar e também tinha casa na Granja, mas só depois da família dele regressar da Índia é que o conheci melhor. Lembro-me que gostava das nossas brincadeiras, mas não lhe achava graça nenhuma. No entanto, depois casei com ele!”, afirma com um sorriso na cara.

Pouco depois, explica a origem do título de Marquesa e o sobrenome Mello: “O Marquesado de Ficalho não é antiquíssimo. Aliás, foi feito no tempo de D. Maria II. Por sua vez, os Mellos são muito antigos, mas eram só Mellos e depois foram senhores de Ficalho no século XVII”. A união entre António Martins de Mello e Maria das Dores aumentou a família com mais três filhos, dois rapazes e uma rapariga, além de quatro netos, que são mencionados diversas vezes com prazer e orgulho.

Sem recurso a dramatismos, a Marquesa não consegue apontar qual foi a maior alegria da sua vida, “não faço ideia, porque tive muitas alegrias”, mas nem precisa de pensar quando revela a maior tristeza: “A morte do meu filho mais velho foi muito dolorosa. Faleceu com 40 anos já há muito tempo. Era um caçador exímio, além de ser uma pessoa muito recta que não dizia uma mentira”.

Além da grande dor provocada por essa morte, Maria das Dores perdeu o seu companheiro eterno em 1990, falando muito pouco sobre o assunto: “Senti uma mudança grande na minha vida. Uma viúva é sempre uma viúva. Seja lá onde e como for essa perda é sempre um grande desgosto”.

A relação da neta de Eça com vila Nova de Gaia

Em relação ao Solar Condes de Resende, Maria das Dores guarda intimamente óptimas recordações: “Visitava muitas vezes a minha tia neste Solar. Lembro-me da casa estar velha e, sobretudo, recordo-me bem das camélias e dos degraus da entrada e da capela. Não faço a mais pequena ideia do que sinto neste local. Gosto muito de vir aqui, mas a gente às vezes não sabe porquê que gosta das coisas. Venho quase todos os anos a Gaia passar uns dias com a minha irmã, que mora em Santo Ovídio, mas tenho sempre vontade de visitar o Solar. Já vim cá de propósito ao Baile das Camélias”.

Contudo, existe outra casa que Maria das Dores gostaria de visitar e, sobretudo, ver com outro aspecto. Trata-se da casa da Granja onde passou tantos momentos de felicidade e que, desde há muito tempo, está num estado lastimável, devido à incúria dos proprietários mais recentes. “Gostava de falar com o presidente da Câmara Municipal para saber o que é possível fazer neste momento para recuperar aquela casa. Acho que foi comprada por alguém que está à espera que ela caia, o que é uma pena, já que tem a ver com a viúva do Eça e podiam utilizar aquele espaço de outra maneira”, lamenta a Marquesa, que não quer melindrar os actuais proprietários, mas apenas dignificar a memória da família.

Em 1999, a Câmara Municipal de Gaia decidiu comprar um valioso conjunto de documentos dos séculos XVI a XIX, que estava nas mãos dos descendentes de Eça de Queiroz, tendo em vista a sua transferência para o Solar Condes de Resende. Maria das Dores aproveita a ocasião para corrigir uma ideia que, segundo esclarece, nunca correspondeu à verdade: “Esses documentos estão aqui por meu intermédio, mas também por causa da minha irmã, ao contrário do que disseram. O arquivo estava provisoriamente em Santa Cruz, mas o meu sobrinho trouxe esse conjunto de documentos. Depois de organizar esse arquivo, a Câmara Municipal interessou-se e fez uma oferta que ambas aceitamos. Sempre pensei que o sítio ideal para o estudo desses documentos era o Solar Condes de Resende. Acho uma pena quando as famílias espatifam os seus arquivos e, por isso, esse espólio está aqui à disposição dos interessados”.

Durante meados de 2000 e até Junho de 2001, Portugal foi inundado com colóquios, livros, conferências, exposições e celebrações relativas ao centenário da morte de Eça de Queiroz. Porém, apesar de apreciar homenagens dedicadas ao seu avô, como as estátuas que permanecem em várias cidades nacionais, Maria das Dores não esconde sentimentos contraditórios sobre essas comemorações: “Gostei imenso que tivessem festejado o Eça, mas acho um pouco exagerado festejar uma morte. Por outro lado, claro que achei fantástico, porque saíram imensos livros e falou-se imenso sobre o meu avô”.

Descontos!
 

Um Mundo sem valores

Durante a longa caminhada que percorreu durante a vida, Maria das Dores assistiu a muitas transformações, tendo, por isso, uma opinião formada sobre algumas das mudanças que mais marcaram a sociedade portuguesa, como é o caso da Revolução dos Cravos. “No dia 25 de Abril de 1974 estava em Lisboa, mas não fiz nada de especial. Tinha um nó na garganta, porque estava nervosa por não saber o que ia acontecer em concreto. O meu marido ficou contentíssimo, porque não lhe passou pela cabeça o efeito que a Revolução teria sobre as propriedades do Alentejo. O meu marido foi aluno do Marcello Caetano e admirava o Salazar, por isso, dizia que era muito político, mas também dizia que não podia fazer política num País que não tinha democracia. Era um sentimento misto”, explica com naturalidade.

Depois, a Marquesa revela por que razão sentiu-se defraudada com os revolucionários: “No Norte de Portugal, a Revolução não foi porcaria nenhuma, mas no Alentejo foi uma porcaria, porque espatifou as propriedades e os patrões. As herdades foram tiradas, depois foram dadas, o que foi muito duro para toda a gente. Só 20 anos depois é que concederam as indemnizações mais ou menos acertadas”.

Após manifestar a sua adoração infindável pela casa de Serpa, Maria das Dores reflecte um pouco sobre os tempos actuais. Desde 1974 até 2003, Portugal sofreu alterações que marcaram profundamente o modo de vida da sociedade nacional. No entanto, a Marquesa revela um cepticismo crescente face aos valores do novo século: “Acho que está tudo maluco. As raparigas estão completamente malucas, despem-se até aos pés. Acho uma coisa horrorosa. Acho que há muitos menos valores, há muita corrupção, pelo menos é o que me dizem. As pessoas não têm palavra. Honra? O que é isso hoje? Honra? Acho que não há muita e tenho pena que seja assim”.

Chá, biscoitos e marmelada

No final da entrevista, quando o gravador já estava desligado, Maria das Dores começou o lanche, enquanto a conversa continuou bastante viva. Entre outros temas, voltamos a falar do Portugal actual, trocando ideias e sentimentos sobre a cobertura mediática que, por exemplo, os meios de comunicação social conferem à pedofilia e aos incêndios que assolam o país na época balnear. Porém, a conversa rapidamente girou para outros assuntos.

Será que Eça de Queiroz conseguiria denunciar e afectar os valores que governam o Mundo actual? “Da forma como está o Mundo já não faço ideia de nada. Acho que está tudo uma barafunda de sentimentos e pensamentos que não sei nada. Não posso imaginar o que meu avô escreveria actualmente. Gostava que fosse possível um outro Mundo. Podiam reler o Eça para aprender algumas coisas”, responde com vigor. Sobre as mentiras ou falsidades que, por vezes, surgem sobre a vida dos seus familiares, Maria das Dores confessa que não acredita que seja por maldade, embora não esconda alguma irritação: “Às vezes quando leio certas coisas com muito ênfase fico um pouco irritada e apetece-me perguntar como o meu avô: Como é que sabes? Estavas lá?”

Em nome da Verdade, Maria das Dores acrescenta rapidamente: “Pelo que sei, o meu avô não veio ao Solar Condes de Resende muitas vezes. Sei que foi aqui que se apaixonou pela minha avó, como está escrito numa carta. Às vezes, dizem-se coisas sobre a minha família que não correspondem à Verdade. Depende do que dizem, mas normalmente não faço cenas. Uma vez escrevi uma carta a contestar um artigo que comparava a minha avó com a Ana Plácido, mas o texto foi tão cortado que nem se percebia o sentido do que tentei explicar. A única pessoa que me telefonou a confortar foi a Sophia de Mello Breyner”.

Chá, biscoitos ingleses, marmelada e bom humor foram os ingredientes que condimentaram o diálogo durante os minutos seguintes. “A língua portuguesa é a minha pátria”, declara Maria das Dores, citando Fernando Pessoa e encerrando a entrevista com mais um conjunto de histórias tão deliciosas quanto a marmelada caseira que condimentou o lanche vespertino. Porém, tal como no início da tarde, Maria Dores não resiste a mais um comentário vertical e simples, que, no fundo, resume a sua visão sobre a Vida: “Tudo o que não é Verdade é mau. Nem vale a pena. Nunca disse petas. Quer dizer… Digo algumas, mas são mais desculpas inocentes do que mentiras. Gosto de dizer a Verdade às pessoas. Conhecer a Verdade é muito importante, seja ela qual for”.

Entrevista publicada em Homenagem a Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello, Marquesa de Ficalho (1918-2014)

Entrevista com Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello – Parte I

Entrevista com Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello – Parte II

 

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