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Ondjaki: Quem se convencer que escreve bem, não progride

Ondjaki: Quem se convencer que escreve bem, não progride

 

O nome de Ondjaki tem emergido na literatura nacional, tornando-se uma referência. Muitas das suas obras fazem já parte do Plano Nacional de Leitura, dando a conhecer aos mais jovens o talento literário desta voz literária com profundas raízes a Angola. Nascido em Luanda, em 1977, licenciou-se em Sociologia e é membro da União dos Escritores Angolanos. Hoje, conta com mais de 20 livros publicados no seu nome.

Pela altura em que tinha apenas 27 anos e se começava a afirmar como escritor, tive a oportunidade de entrevistar Ondjaki durante a VI edição do festival Correntes d’Escritas da Póvoa de Varzim. Nessa conversa, o autor revelou-me alguns detalhes da sua vida, inspirações literárias que influenciam o seu trabalho e as suas próprias perspetivas acerca da realidade social da época.

Hoje, é essa conversa que recordo, salientando os pontos que se mantêm atuais e que permitem conhecer melhor o trabalho de Ondjaki.

À conversa com Ondjaki

Goreti Teixeira (GT): Em qual dos géneros se sente mais à vontade na poesia ou na prosa?

Ondjaki (O): Sinto-me mais à vontade na prosa, nomeadamente no conto. Embora agora comece também a sentir uma vontade de escrever romances. Apesar de me inclinar mais para a prosa, esta acaba por ser às vezes muito poética.

GT: O Ondjaki marca a diferença em relação aos restantes escritores, talvez por ser mais jovem e um pouco irreverente. Os escritores que já estão num patamar um pouco mais elevado olham-no com estranheza?

O: Não. Felizmente sempre tive a facilidade de conviver muito bem com escritores de todas as idades. Sinto que os mais velhos têm por mim um certo carinho, olham para mim como o mais novo, mas no que diz respeito aos conteúdos literários e às intervenções que tenho feito tratam-me como um escritor, sem olhar para a minha idade.

GT: Mas conheceu algum que lhe tenha suscitado particular interesse?

O: Sim. Tive a oportunidade de conhecer o escritor brasileiro Tabajaras Ruas, que é uma pessoa muito interessante. Este ano fiquei a conhecer pessoalmente o Paulinho Assunção que também é brasileiro. Normalmente, as pessoas que são de cá e que são mais acessíveis eu já conheço. Agora estes que vêm da América Latina e da Europa são uma novidade para mim.

GT: O acto da escrita é solitário ou não?

O: É essencialmente solitário. O escritor convive, pensa e dialoga, mas no momento de criação – seja quando está a pensar a história internamente ou quando se senta para a escrever – é um acto de solidão. Às vezes até atrapalha quando as pessoas estão ou querem estar por perto.

GT: E os temas é você quem os escolhe ou são eles que o escolhem a si?

O: À medida que o tempo vai passando os temas vão-se afunilando. Vão sendo cada vez menos, porque o autor vai-se identificando com eles. No princípio pensa que pode escrever e falar sobre muita coisa, mas depois vai descobrindo que para falar bem é preciso, talvez, falar de pouca coisa.

GT: Tem surtos de inspiração ou esta palavra passou a ser um lugar comum no meio literário?

O: Não é um lugar comum. Acho que há uma zona de inspiração e outra de pensamento. Há uma zona de criação que é racional, porque tem que se pensar na história. Mas no momento em que te sentas para escrever, há rasgos de criação que podem ser chamados de inspiração.

GT: Porque é que diz que os prémios são perigosos?

O: Pelo facto de nos poderem levar a pensar que escrevemos muito bem. E o escritor que já estiver convencido de que escreve muito bem, não progride e pode ofuscar a possibilidade de vir a escrever um livro melhor. Os prémios são o reconhecimento e penso que é bom que o escritor o entenda como tal, mas também como um incentivo para fazer melhor.

GT: E sobre a escolha de Ondjaki para pseudónimo literário?

O: Até aos últimos dias de gravidez da minha mãe eu ia ter o nome de Ondjaki, mas uma vizinha avisou-a que o nome estava ligado a uma tribo e que a partícula “ond” significava testículo. Não seria muito agradável ser tratado na escola de ‘testiculozinho’ (risos). Então puseram-me o nome de Ndalu. Mas anos mais tarde descobri que isso não era verdade, por isso quando comecei a escrever e, fazendo uma correcção existencial, adoptei o nome de Ondjaki.

GT: Quando é que percebeu que queria seguir o caminho da escrita? Há alguém na família que também escreve?

O: Na realidade, o meu pai escreveu um livro, no entanto, nessa altura eu já tinha escrito três ou quatro. Ele tem um livro, mas não uma actividade literária. Há muita gente na minha família que escreve, não livros, mas está afecta às letras. Lêem muito, são pessoas interventivas e com muita criatividade começando pela a minha avó. É uma família de muita imaginação. Sou muito alimentado pela energia criativa deles.

GT: Outros dos seus interesses são o teatro e o cinema. Interesses que passam só pela escrita ou também pela representação?

O: Em relação ao teatro, o principal é mesmo a representação. Não sei se virei a escrever para teatro, mas o que gosto é de actuar e de ser encenado, porque uma pessoa está ali a ser manejada pelo encenador como se fosse barro. É entregarmo-nos ao trabalho de sensibilidade de uma outra pessoa. O cinema já é mais pela escrita e, talvez, um dia tenha a oportunidade de realizar.

GT: Diz que não é fascinado pelo seu país, mas que ele é para si uma descoberta. Como é viver num país que esteve maioritariamente em guerra?

O: Quando uma pessoa está inserida num contexto e cresce no seio dele, acaba por ser uma vivência natural. Não é como sair daqui e ir viver para um país que está em guerra. Essa situação seria mais complicada. O ambiente, as conversas que ouvíamos, os condicionalismos eram coisas naturais, mas é claro que influência as pessoas. Mas curiosamente e, apesar de todas essas circunstâncias, tive uma infância muito feliz.

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GT: O romance “Bom dia Camaradas” é o retrato dessas vivências?

O: Não da guerra, mas do reflexo da guerra e do contexto político e social que vivemos na década de 80.

GT: Uma das suas preocupações é o baixo indicie de crianças que frequentam a escola. O futuro de Angola estará comprometido nesse sentido?

O: Esta situação condena o futuro de uma sociedade. Está fazer-se um esforço para resolver este problema, mas a questão da educação deveria ser uma das grandes prioridades de qualquer governo em Angola.

GT: Pegando no verso do Manuel António Pina: “Um dos dois mente, o escritor ou o livro”, para si quem é que mente?

O: A vida e as pessoas vivas acontecem na fronteira entre a verdade e a mentira. Portanto, ambos mentem e ambos dizem a verdade, porque essa é a nossa vida. É oscilar, em todos os momentos e em todas as nossas declarações, entre a pouco de verdade e de mentira.

GT: Para quem o está a conhecer agora, que livro seu recomendaria?

O: Pelo que as pessoas me dizem “O assobiador”, mas aquele que eu digo é “Bom dia Camaradas”.

GT: Tem muitas referências?

O: Muitas. No entanto, as referências não passam tanto pelo nome dos autores, passam mais pelos livros e pela maneira como as coisas nos marcam. Para mim escritores como Gabriel Garcia Marquez, Olandino Vieira e Nikos Kazantzakis marcaram-me, não neste ou naquele livro, mas porque ao longo dos seus livros fui vendo que era possível ir muito mais adiante na liberdade dos textos do que aquilo que eu tinha pensado. Com alguma coerência, imaginação e beleza literária é possível levar o leitor a acreditar em coisas que na realidade não acontecem. É precisamente isso que diz o Manuel Rui: “a verdade dos livros é outra”.

GT: No encontro em que participou na escola Rocha Peixoto, afirmou que na sua opinião não é Camões o maior poeta português. A sua preferência vai para Fernando Pessoa, o que é que o atrai na escrita de Pessoa?

O: Mas Camões tem o seu espaço e a sua importância. No entanto, do pouco que li de Fernando Pessoa, o que me encanta é que ele tem um verso com verdades filosóficas muito simples e bonitas e leva essa verdade – que é simultaneamente uma verdade humana – a um grau de simplicidade incrível. O Pessoa é grande por isso. É simples nos seus versos, são perceptíveis e verdades universais, com ritmo e com beleza poética. Estou a lembrar-me de um verso onde ele diz:”quer pouco terás tudo, quer nada serás livre”. Realmente é verdade, quem não quiser nada já é livre, nós só somos presos àquilo que desejamos.

GT: Em tom de brincadeira também afirmou que entre os 37 e os 45 anos queria fazer filhos, mas que outros projectos estão delineados?

O: Quero trabalhar em todas as áreas que já foram referidas. Teatro, cinema, documentário e mais tarde queria aprender ou desaprender a esculpir. Escultura bruta, não para fazer esculturas ou para expor, mas esculpir por actividade quotidiana. Durante duas horas vou esculpir e depois fico feliz. São projectos de longa duração.

No cinema, por exemplo, se eu quiser escrever e fazer um filme são três/cinco anos da vida de uma pessoa. É muito complicado. Daí a importância da escrita ser uma actividade solitária. Quando decido escrever um livro pego nas minhas ferramentas, a minha cabeça, o meu papel e a minha caneta sento-me, escrevo o livro e está pronto. Agora no cinema também tenho de contar com 450 pessoas e com 450 mil dólares, porque senão não se faz um filme.

GT: E no meio destas actividades, onde é que ficou a pintura?

O: Está muito abandonada. Neste caso eu senti que precisava de mais técnica. Só trabalho com pastel de óleo, mas apetecia-me outros materiais e não tive tempo de receber formação nessa área. Então sinto que aquilo que realmente gostaria de expressar já não consigo fazê-lo apenas em pastel de óleo. Precisava de trabalhar com acrílicos, ceras, aguarelas…

GT: Alguns escritores acabam por fazer três ou quatro versões de um romance ou de um conto. Isso também acontece consigo?

O: O meu método de correcção é o de cortar. É eliminar e retirar tudo aquilo que está em excesso. Aquilo a que se chama gordura literária. Tirar, tirar, tirar até chegar a um esqueleto que me satisfaça.

GT: Vai dividindo o seu tempo entre?

O: Estou entre Luanda e Lisboa, porque estou envolvido em muitos projectos. Estou a tentar fazer um documentário que se passa em Luanda, onde lá estão os materiais e as pessoas. Mas cá tenho familiares, a minha namorada e então é muito complicado.

GT: Personaliza todos os seus autógrafos com um desenho?

O: Quase sempre. Assim esteja a minha mão pronta para fazer o desenho.

GT: Mas porquê?

O: É só para ficar diferente. Eu não gosto de autógrafos e nem os peço a outros escritores. No entanto, compreendo que as pessoas o façam e então para não estar sempre a escrever: com um abraço ou com amizade, pelo menos acho que é delicado a pessoa ficar com uma coisa um pouco mais única. Desenho uma flor ou algo à toa.

 

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