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O toque do Renascimento na literatura portuguesa

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O toque do Renascimento na literatura portuguesa

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A descoberta da tipografia em meados do século XV é estimulada pela existência de um público em crescimento, para o qual já não bastava a reprodução manuscrita do livro. Esta técnica veio acelerar a difusão das notícias e das novas ideias, constituindo um poderoso factor na mudança ideológica.

Porém, o desenvolvimento da sociedade mercantil e de toda uma cultura ligada à sua experiência põe em causa a síntese doutrinária lentamente elaborada pelo clero das universidades dos séculos imediatamente anteriores. Pouco a pouco, o esquema teológico da Criação, Queda e Redenção serve de modelo a este outro: luzes greco-romanas, trevas “góticas” e monacais, renascer da cultura antiga. Daqui a designação de Renascimento.

Os renascentistas italianos, no entanto, não abraçaram este conceito de braços abertos e decidiram enveredar por um outro termo: Humanismo. Os Humanistas, letrados cuja actividade se exerce geralmente fora da hierarquia clerical, constituem gradualmente um grupo cada vez mais numeroso. Movidos por princípios relacionados com a humanidade, a qualidade humana e a  estrutura moral, exprimem a crença num conjunto de valores morais e estéticos universalmente humanos.

Entretanto, a crise religiosa cria condições para uma atitude mais ofensiva por parte dos Humanistas. Os métodos da crítica histórico-filológica aplicam-se às Escrituras e à Patrística com o mesmo à-vontade com que tinham versado autores profanos. Os Humanistas arrostam então com a resistência das velhas universidades, e especialmente das Faculdades de Teologia.

Querem criar uma religião, uma filosofia, uma moral e uma pedagogia que substitua as do mundo feudal. A Idade Média está a chegar definitivamente ao fim e não há melhor forma de o demonstrar do que expressando isso mesmo através das letras.

Neste post, que faz parte de um especial do Mundo de Livros sobre a história da língua e literatura portuguesa, recordamos o período do Renascentismo e a forma como as veias humanistas se expressaram nas artes e letras em Portugal.

Aspectos gerais do Renascimento em Portugal

O Humanismo desenvolveu-se principalmente em Itália. O rei português D. Afonso V, educado por italianos, tinha então bem assentes os ideais desta corrente e fez questão que esta filosofia fosse introduzida em Portugal. Muitos nobres e eclesiásticos vão então a Itália, especialmente a Florença, para assegurar uma boa carreira mediante o conhecimento de “letras mais humanas”.

autodabarcadoinfernoMais tarde, o rei D. Manuel parece ter sido o primeiro a atribuir pensões a estes estudos no estrangeiro, que até então estavam principalmente a cargo dos institutos religiosos, e D. João III criou em 1527 cinquenta bolsas no célebre colégio universitário parisiense de Santa Bárbara. Alguns dos estudantes bolseiros tornaram-se celebridades europeias.

A difusão da tipografia fez-se com relativa lentidão. Entre as primeiras impressões predominam as de livros em caracteres hebraicos, para uso da comunidade hebraica. Os mais antigos livros cristãos impressos em Portugal datam de 1487 e 1489, sendo que em 1494 se imprime o primeiro livro em latim. Os volumes que eram impressos destinavam-se a um público selecto, predominantemente cortesão, o único, aliás com acesso ao objecto caro e raro que era, nesta data, o livro impresso.

Mas desde cedo que se imprimem também pequenos folhetos com obras destinadas a mais larga difusão. É o caso do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, impresso cerca de 1518, e de outras obras que constituem a chamada “literatura de cordel”, cujos exemplares se vendiam nas ruas.

Como iniciadores dos Descobrimentos Marítimos, os portugueses tiveram um grande papel nesta época. As viagens ao largo da costa africana exigiam numerosos aperfeiçoamentos técnico, adaptações e invenções. A experiência naval levantou dúvidas crescentes sobre muitas concepções antigas de transmissão literária.

Duarte Pacheco Pereira, entre 1505 e 1508 registou a sua prática de navegador e escreveu “a experiência é a mãe de todas as coisas”, e em nome dela rejeita certos mitos da Antiguidade. Por qualquer razão, não se deu em Portugal a generalização e sistematização desta atitude empirista como método cientifico aplicável a outras disciplinas. Assistiremos, pelo contrário , a uma retoma da Escolástica da Idade Média.

O entrave imposto pela Inquisição

Prova disso acontece em 1547 quando é definitivamente estabelecida a Inquisição em Portugal. Neste mesmo ano sai o primeiro rol de livros proibidos. O grupo de professores trazidos para Portugal por André Gouveia é posto à margem após um processo movido por inimigos do Colégio.

Desde cerca de 1550 foram silenciados mesmo os mais estrénuos eramistas, como André de Resende, Damião de Góis e Diogo de Teive, e por volta de 1580 está extinta a geração dos letrados e gramáticos antiescolásticos que tinham mostrado o seu talento por altura das grandes reformas escolares do início do reinado de D. João III.

Entre os autores proibidos pela Censura contam-se Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, João de Barros, Jorge Ferreira de Vasconcelos, entre outros. A impressão, a venda, a herança e a entrada de livros vindos do estrangeiro estavam sujeitos a uma vigilância apertada, incluindo inspecções domiciliárias, declarações periódicas e obrigatórias e as mais graves penalidades, com recompensa de denúncias secretas à custa dos bens confiscados.

 

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