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Samantha Shannon em Portugal: review a Estação dos Ossos

Samantha Shannon em Portugal: review a Estação dos Ossos

 

Com alguma surpresa recebi a notícia de que Samantha Shannon ia marcar presença na 2.ª edição do Comic Con Portugal, com data marcada para os dias 5, 6 e 7 de dezembro de 2015 e a acontecer, novamente, na Exponor. No ano passado tinha assistido ao evento e constatei, de facto, que havia pouco espaço para escritores.

Relembro-me que os grandes nomes do cartaz se referiam a uma atriz de Game of Thrones, a um ator de The Walking Dead e a três membros do elenco da série Da Vinci’s Demons. A eles juntavam-se alguns nomes das Banda Desenhada, assim como figuras do cinema e televisão português, como O Capitão Falcão. Porém, referente à literatura, notei que havia pouco espaço.

Retomando ao meu pensamento inicial, estranhei quando anunciaram a escritora para a 2.ª edição do evento. Ainda que seja apenas uma iniciante no universo da escrita, há quem já tenha perguntado se Samantha Shannon não seria “a próxima J. K. Rowling” – um título que vou contestar mais à frente. Além disso, conseguiu, com apenas a publicação de um livro, garantir a publicação de seis sequelas e vender os direitos de autor para a adaptação de um filme. Nada mal para a estreia de uma autora, na altura, com 20 anos, pois não?

Alguns meses após a publicação do livro, decidi dar ouvidos a todo o falatório que estava a haver na Internet e comprei a minha cópia do The Bone Season, traduzido em Portugal para A Estação dos Ossos e publicado pela Casa das Letras. Neste post, partilho convosco aquilo que achei deste livro e digo-vos se Samantha Shannon é ou não a próxima J. K. Rowling que tanto nos tentam vender.

The Bone Season: uma distopia vitoriana com espíritos

Se gosta de 1984 de George Orwell, do género steampunk e da época vitoriana, então este é um livro que deve assegurar na sua estante. A mistura de temas parece improvável mas a execução até está bem conseguida. A acção do livro acontece em 2059, numa Inglaterra distopiana que, por muitos anos que tenham passado, parece permanecer presa à Inglaterra da Rainha Vitória: quer na forma de vestir, quer na forma como as pessoas falam e como encontramos a cidade de Londres.

Uma vez que se trata de uma distopia, algo teve de acontecer para mudar a sociedade como a conhecemos. Por norma, as distopias ou são provocadas por tragédias ou guerras. Em A Estação dos Ossos, é um acontecimento paranormal provocado nada mais nada menos do que pelo rei Edward VII. No século XIX, ao fazer uma seánce – como era seu hábito, de forma a comunicar com espíritos do além – abriu uma espécie de portal entre o mundo terreno e espiritual, libertando espíritos para o nosso mundo.

O resultado? Certos humanos tornaram-se clairvoyants – ou seja, tinham capacidade para interagir com os espíritos e, assim, ficar dotados de certos poderes – enquanto uma fatia mais alargada da humanidade (os amaurotics) se mantêm inalterada e encara os outros como uma espécie a temer.

Daqui para a frente, a História do Mundo como o conhecemos diverge totalmente. Em Inglaterra emerge uma autoridade, chamada de Scion (representado pelo símbolo ao lado), que governa de forma ditatorial e condena os clairvoyants, instigando grandes perseguições para os capturar e executar em público. O mesmo parece ter acontecido com outras regiões da Europa, como França e até mesmo a Irlanda que, na sequência de várias resistências às forças da Scion, acaba por não resistir à força das autoridades inglesas.

Paige Mahoney é a personagem principal deste livro e é uma dreamwalker, uma clairvoyant capaz de entrar na mente de outras pessoas, de as controlar e de provocar danos letais. Por ter esta condição tão invulgar – invulgar até mesmo entre a restante comunidade clairvoyant – é raptada para Oxford, agora chamada Sheol I, onde uma espécie superior, os Rephaim, reúnem uma série de clairvoyants com poderes raros. Porquê? Porque uma outra raça sobrenatural, os Emim, ameaçam a humanidade ao quererem atacar e devorar humanos.

Como disse, os poderes dos clairvoyants variam imenso… Há sete ordens de clairvoyants e as primeiras contém mais de vinte géneros de clairvoyants. Cada género é definido por um método diferente de interação com espíritos: usar espíritos para atacar outra pessoa, usar espíritos para ver o futuro, usar espíritos para sei lá eu o quê. A história pode tornar-se por vezes confusa devido a toda esta variedade de poderes. O esquema abaixo, incluído no livro, tenta simplificar e pode ajudar o leitor… mas só depois de percebermos a diferença entre um Medium e um Soothsayer, por exemplo.

 

Como se os poderes não bastassem há ainda uma série de nomes, alcunhas e dialetos estranhos típicos da época vitoriana que nos obrigam a saltar entre a página que estamos a ler para o glossário que se encontra no final. Um livro que exige alguma ginástica!

Em que se concentra o enredo? A história de Paige a tentar fugir de Oxford para regressar a uma Londres onde os seus amigos – que trabalham numa espécie de sindicato que protege os clairvoyants do governo Scion e faz lucro com os seus poderes – tenta encontrá-la e descobrir o que lhe aconteceu.

Apesar de ter apreciado o livro, não posso dizer que me fascinou completamente. Achei aborrecido em certas partes, que havia personagens muito semelhantes, muitos nomes a decorar, um world building interessante mas que é tantas vezes descrito que se torna completamente maçudo.

Samantha Shannon: a próxima J. K Rowling?

Não. Não é a próxima J. K . Rowling e este título que a imprensa e as editoras continuam a impingir-nos, sempre numa estratégia desesperada de marketing, começa a cair no ridículo.  Primeiro, o que faz sequer de um escritor “a próxima J. K. Rowling“? Não consigo encontrar resposta a essa pergunta. Segundo, a saga Harry Potter dirige-se a um público mais abrangente, que tanto pode ir dos 5 aos 65 anos. Os livros de Samantha Shannon destinam-se a um público que, mesmo sendo jovem, está a entrar na fase adulta. Terceiro, vamos lá ser sinceros: A Estação dos Ossos pode ser agradável e capaz de entreter, mas Harry Potter e a Pedra Filosofal conta uma história mais cativante… e em menos páginas.

Não estou a dizer de forma alguma que Samantha Shannon é uma má escritora só porque não é a “próxima J. K. Rowling“. O que quero dizer é que Samantha Shannon conseguiu um início razoável para uma série promissora. A Estação dos Ossos foi a abertura de uma saga de sete livros e compreendo que, em certas partes, tenha sido mais descritiva por estar ainda a estabelecer o universo das sequelas. A autora ainda tem muito para melhorar? Sim, tem. Será capaz de o fazer? Só o tempo o dirá.

Entretanto, já li também a sequela The Mime Order – que ainda não conta com edição portuguesa – e posso garantir-vos que a história amadurece e a escrita melhora. Em novembro de 2016 chegará então o terceiro volume, com o título The Song Rising, que fará certamente parte das minhas leituras.

Samantha Shannon nasceu a 8 de novembro de 1991 e cresceu nos subúrbios de Londres, daí usar a sua escrita para fazer uma “ode á cidade que tanto adora”. Frequentou a Universidade de Oxford, que também tem um papel importante na sua saga. Neste momento, encontra-se a terminar o terceiro livrod a saga The Bone Season que tem publicação prevista já para 2016.

A autora vai estar presente no Comic Con Portugal nos dias 5 e 6 de dezembro.

 

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