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A História de uma Serva: uma distopia de extremos machistas

A História de uma Serva: uma distopia de extremos machistas

 

O título do livro, a capa com a personagem principal em trajes vermelhos vivos e a sinopse surpreendente convenceram-me a comprar A História de Uma Serva, de Margaret Atwood. Aproveitei uma campanha de promoções na Fnac para garantir a minha cópia. Há já uns tempos que a tencionava comprar. Era um daqueles livros que vemos uma vez e que, sempre que visitamos uma livraria, volta sempre a aparecer.

Neste livro, que li em apenas dois dias, somos introduzidos a uma sociedade distópica, mudada radicalmente por uma revolução teocrática. Na sequência de um atentado terrorista que matou o presidente dos Estados Unidos da América assim como a maior parte do Congresso, um movimento chamado Os Filhos de Jacob toma as rédeas do poder para restaurar a ordem. A Constituição, o documento emblemático da democracia norte-americana, é queimado. Não tarda nada, começam a ser aplicados princípios que enaltecem a figura masculina e subjugam as mulheres.

Os direitos das mulheres são, gradualmente, extinguidos: todos os seus registos financeiros passam a ser monitorizados, as mulheres perdem acesso às suas contas bancárias, o dinheiro é transferido para a figura masculina mais próxima,  o ato de leitura é proibido a qualquer pessoa do sexo feminino e, inevitavelmente, a maior parte da população feminina torna-se apenas em instrumentos. É esse o caso de Defred, a personagem principal deste livro.

A Serva que queria ser mais do que um útero

Defred é uma Serva. Em tempos, era uma mulher livre, casada com um homem que de hoje nada sabe e com quem tinha uma filha. Na tentativa de escaparem à ordem totalitária da República de Gileade, a família tenta fugir mas a fuga acaba por terminar em tragédia. Após ter sido presa, foi apurado que Defred era fértil e, por isso, devia ser posta a uso como Serva. O que é uma Serva então?

Neste livro de Margaret Atwood, uma Serva é uma espécie de concubina que, por ser fértil, pode ser usada pelas famílias da elite de forma a que tenham filhos. Como nos é explicado, os níveis de poluição e as doenças sexualmente transmissíveis conduziram a um declínio da taxa de natalidade e a um aumento da infertilidade. A maior parte das mulheres da elite, esposas dos comandantes militares e de altos dirigentes políticos, não são mais do que adornos interessantes (geralmente) incapazes de procriar. Se querem ser mães, estas senhoras muito chiques precisam de uma Serva que o marido possa engravidar.

A história de Defred é narrada na primeira pessoa. A Serva conta-nos em flashbacks como foi a sua vida no passado, confessa-nos desejos que a sociedade reprime e partilha connosco o pequeno raio esperança em que acredita. Porém, o plano principal da história refere-se ao seu trabalho em casa do enigmático Comandante e da sua esposa ciumenta, Serena Joy, que antigamente aparecia na televisão para pregar sermões religiosos.

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Mesmo depois de inúmeras tentativas de fecundação, Defred não consegue engravidar do Comandante. Se não provar o seu valor dentro do devido tempo, acaba por ser considerada infértil – porque os homens nunca são considerados inférteis – e enviada para as Colónias, um desterro poluído e nefasto, onde não durará muito tempo.

Uma proposta desesperada da esposa do Comandante, a recordação de amores passados e paixões novas e o reencontro inesperado com Moira, uma velha amiga, num local mais inesperado ainda, acabam por resultar numa manifestação de rebelião e amor.

O epílogo de A História de Uma Servaé surpreendente e a prova viva de que Margaret Atwood é uma verdadeira contadora de histórias. Nas últimas páginas, todo o registo de escrita muda.  Voltamos a encontrar uma personagem a falar na primeira pessoa do singular mas, desta vez, é o Professor Pieixoto, um investigador no ano de 2195 que, após estudar afincadamente o Período de Gileade – uma era que está há muito acabada – nos dá alguns esclarecimentos sobre o registo biográfico feito por Defred e especula sobre o que poderá ter acontecido à personagem.

O estilo de escrita é agradável e fluído, por vezes até mesmo quase poético. Esta distopia fez-me lembrar muito o livro 1984 de George Orwell que assume aqui algumas semelhanças, embora se distinga por ideologias diferentes. No futuro, pretendo acrescentar outros títulos de Margaret Atwood à minha estante.

 

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