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Shakespeare existiu ou não existiu? Eis a questão

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Shakespeare existiu ou não existiu? Eis a questão

 

Todos conhecemos William Shakespeare, mesmo que nunca tenhamos assistido a uma das suas peças ou lido os seus textos. William Shakespeare: o famoso poeta que fez plateias chorar com o amor trágico de Romeu e Julieta, que quebrou barreiras através de Hamlet e alimentou fantasias através de Sonho de uma Noite de Verão. Como é que não o podíamos conhecer?

Mas agora surge a questão: será que Shakespeare existiu mesmo?

Esta é uma pergunta que tem sido feita nos últimos séculos e devidamente investigada. Nomes como Sigmund Freud, Charlie Chaplin, Orson Welles e Mark Rylance não acreditam que o homem que supostamente assina as peças seja o verdadeiro autor de todo o trabalho literário que é atribuído ao nome Shakespeare.

No blog Mundo de Livros já fizemos um post sobre a vida e obra deste poeta. Pelo menos, apresentando os factos que são “supostamente” oficiais. Porque, na verdade, há vários investigadores que têm investigado os factos por detrás da história e chegado a conclusões interessantes e perturbadoras.

Aproveitando o facto de se celebrar em 2016 o quinto centenário da morte de William Shakespeare, decidimos fazer este post e averiguar se o poeta afinal existiu ou não. Uma vez que existe muita informação, tentamos condensar nos parágrafos que se seguem os pontos de discussão mais importantes sobre a identidade de Shakespeare.

Shakespeare existiu? Os motivos que levantam dúvidas

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Origem e classe social

De acordo com os registos que nos chegam até hoje, William Shakespeare nasceu, cresceu e foi enterrado em Stratford-upon-Avon, uma vila a cerca de 160 quilómetros de Londres. O pai do poeta tinha uma oficina e fazia luvas e, ao que parece, a família era analfabeta. Esta é uma conclusão deduzida pelos investigadores pela forma como os pais do poeta assinavam documentos, usando cruzes em vez de letras.

Este passado humilde, num meio rural, é por isso apontado logo como prova de que William Shakespeare não estava habituado ao contexto político, cultural e aristocrata que tão frequentemente representa nas suas peças de teatro. Além do mais, em várias peças Shakespeare retrata algumas pessoas da classe baixa de forma satírica, roçando mesmo o ridículo, quase como se não tivesse partido de tais origens. Isto começa logo a levantar dúvidas quanto à autenticidade de Shakespeare.

A educação

Calcula-se que William Shakespeare tenha estudado na King’s New School em Stratford, que ficava a menos de um quilómetro da sua vila. A educação nesse estabelecimento de ensino seguia os principais cânones da época, nomeadamente textos em Latim básico, gramática, obras da antiguidade clássica e retórica. Porém, eis que surge um problema: não existem documentos da King’s New School relativamente a nenhum aluno que tenha frequentado a escola nesta altura.

Como seria de esperar, todos os investigadores a favor da teoria de que William Shakespeare não foi de facto um poeta usam esse argumento para apontar que o poeta não poderia ter educação suficiente para escrever as peças que lhe trouxeram fama.

As diferentes assinaturas

Nas várias publicações existentes da sua obra, o nome de William Shakespeare é apresentado de diferentes formas, quase como se a obra tivesse sido assinada por diferentes pessoas. Na capa de 15 folhetins e em 2 edições de poesia (antes da publicação do Primeiro Fólio), encontramos Shake-speare ou Shak-spear em vez da versão mais popularmente conhecida: Shakespeare. Mais do que estranharem estas variações ortográficas, os investigadores acreditam que o hífen é a prova de que este era apenas um pseudónimo utilizador por outro escritor, já que era recorrente utilizar-se hífenes em pseudónimos.

A utilização do pseudónimo era uma prática popular na Inglaterra do século XVI e XVII. No caso da aristocracia, era uma forma dos nobres publicarem as suas obras para as massas sem quebrarem o paradigma de que a literatura era para ser partilhada apenas com membros próximos da mesma classe social. E entre os membros da classe mais baixa, os pseudónimos eram também usados para evitar que o poeta fosse perseguido por algo mais controverso que tivesse escrito.

Carreira literária?

Não há documento que aponte especificamente que Shakespeare é escritor. As evidências apontam, que William Shakespeare era na verdade um homem de negócios, estando a sua atividade relacionada com a venda de propriedades. Além do mais, a sua proximidade com o mundo do teatro devia-se apenas ao empréstimo e financiamento de dinheiro a grupos de teatro. Os investigadores adeptos da teoria de que William Shakespeare não foi poeta acreditam ainda que qualquer evidência de uma carreira literária foi plantada propositadamente para camuflar a verdadeira identidade do autor.

Morte

De acordo com os registos, acredita-se que William Shakespeare tenha morrido no dia 23 de abril de 1616, em Stratford, deixando um testamento muito simples e pouco poético onde, curiosamente, não menciona papéis pessoais, livros, poemas ou as 18 peças de teatro que continuavam aquando da sua morte. A única referência que surge ao mundo do espectáculo no seu testamento diz respeito a quantias de dinheiro deixadas a colegas atores para comprarem anéis de luto. Além do mais, este foi um desejo acrescentado tardiamente no testamento. Entretanto, não houve período de luto pela morte do poeta ou qualquer poema em sua homenagem. Isto, pelo menos, até 1623, quando foi impresso o Primeiro Fólio (obra que reúne algumas das suas peças).

O mais estranho é que numa publicação de 1609 – ou seja, 7 anos antes da morte oficial de Shakespeare – surge uma frase na capa que é ligeiramente suspeita: “o nosso sempre vivo Poeta”, um epíteto reservado por norma a personalidades que já faleceram. Significa isso que William Shakespeare tinha morrido, por exemplo, em 1604, ano em que Edward de Vere, o 17.º Conde de Oxford morreu? Isso vinha confirmar a teoria de que o Conde seria o verdadeiro nome escondido atrás do pseudónimo.

Mas quem poderia então ser William Shakespeare?

Historiadores e investigadores têm apontado vários nomes contemporâneos a William Shakespeare que estariam realmente por detrás do suposto pseudónimo. Até hoje, estima-se que tenham sido sugeridos mais de vinte nomes. Nos próximos parágrafos, apresentamos os principais “suspeitos” e porque motivos poderiam estar escondidos atrás de um pseudónimo.

 Sir Francis Bacon

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Francis Bacon é conhecido pelo seu trabalho nos campos da filosofia, ciência e direito. Uma vez que se tratou dos maiores nomes intelectuais do século XVII, não tardou a que fosse apresentada uma candidatura em seu nome. Esta candidatura é baseada essencialmente no estilo de escrita de Shakespeare e de Bacon e de temáticas abordadas nas obras do poeta, que estariam estreitamente relacionadas com ideias apresentadas em trabalhos publicados. Mas porque é que Bacon não assumiu a sua obra e se escondeu atrás de um pseudónimo, se a teoria se provar verídica? Basicamente, porque muitas das ideias apresentadas podiam ser vistas como uma ameaça à monarquia e isso afetaria o seu trabalho na corte.

Edward de Vere, 17.º Conde de Oxford

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Uma outra teoria, como mencionamos anteriormente neste post, diz respeito ao Conde de Oxford. Esta figura da história inglesa tinha uma relação próxima com o mundo do teatro, financiando companhias de música e representação. Tinha também um interesse assumido pela pena e pergaminho, tendo escrito inúmeros trabalhos de poesia e alguns de teatro (que não sobreviveram até aos dias de hoje). Tudo isto é apresentado como evidência a favor da teoria. Investigadores concluíram ainda que momentos descritos nas peças de Shakespeare coincidem com a vida de Edward de Vere e que anotações nas suas obras oficiais correspondem também a citações apresentadas nas peças. O facto de esconder o seu nome atrás de um pseudónimo não é difícil de entender: autores aristocráticos não assumiam publicamente a autoria de pelas para representação ao público, daí a necessidade de usar um nome que não fosse o seu.

Christopher Marlowe

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Christopher Marlowe era contemporâneo de Shakespeare e oriundo da mesma classe social. No entanto, ao contrário de Shakespeare, sabe-se que Marlowe estudou durante seis anos e meio na Universidade de Cambridge, tendo por isso acesso a uma educação superior. Conhecido por ter implementado na escrita um tipo de verso sem rima, que terá influenciado Shakespeare, Marlowe terá escrito 7 peças de teatro (das quais apenas uma ou duas foram representadas até 1593, anos da sua suposta morte). No entanto, alguns investigadores acreditam na possibilidade de Marlowe ter fingido a sua própria morte, como meio de fugir a julgamento pelas suas acusações de ateísmo. As teorias indicam ainda que, na “morte”, Marlowe escolheu Shakespeare para ser o rosto e nome por detrás do seu trabalho.

Uma vez mais, é uma teoria fundamentada nas semelhanças da escrita entre as obras anteriores de Marlowe e os trabalhos futuros de Shakespeare. Outro facto intrigante diz respeito à data de publicação de Vénus e Adónis, o primeiro trabalho de Shakespeare, que aconteceu exatamente 13 dias antes da morte de Marlowe. Curiosamente, Shakespeare e Marlowe eram quase da mesma idade e enquanto um já tinha publicado vários trabalhos, o outro estava só a começar.


 

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