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Svetlana Alexievich: quem é a vencedora do Nobel da Literatura 2015?

Svetlana Alexievic

Svetlana Alexievich: quem é a vencedora do Nobel da Literatura 2015?

 

A bielorussa Svetlana Alexievich foi distinguida com o Prémio Nobel da Literatura 2015, uma das mais aclamadas distinções literárias da atualidade. Esta é a 14º vez que a Academia Sueca distingue uma mulher, sucessora de Patrick Modiano, vencedor do ano passado.

Este ano as casas de apostas davam por certo que seria a bielorrussa Svetlana Alexievich a vencer o prémio. Entre os favoritos estavam nomes frequentemente referenciados, como Haruki Murakami e Philip Roth. De acordo com a Academia Nobel, a distinção deve-se à “escrita polifónica, um monumento ao sofrimento e à coragem do nosso tempo”. A frase não podia ser melhor escolhida, tendo em conta o percurso da escritora. Conheçamos agora a sua história.

Nascida em Stanislav, Ucrânia, a 31 de Maio de 1948, Svetlana Alexievich demarcou-se ao longo das últimas décadas na área do jornalismo de investigação e, mais tarde, como escritora de prosa. A sua carreira no jornalismo é marcada essencialmente por inúmeras reportagens que têm como foco vítimas de eventos dramáticos como a Segunda Guerra Mundial, a Guerra a Afegã, o desastre de Chernobyl e a queda da União Soviética.

Curiosamente, apesar de ter sido distinguida inúmeras vezes a nível internacional pelo seu trabalho, Svetlana Alexievich continua a ser alvo de críticas por parte dos seus compatriotas bielorrussos. A blogosfera bielorrussa, aliás, reagiu com alguma indignação ao anúncio da Academia Sueca. Entre as várias críticas tecidas à autora está o facto de escrever em Russo e de focar grande parte da sua obra literária na história da União Soviética, em vez de dar atenção à história do seu próprio país.

O comportamento da opinião pública deve-se, principalmente, ao facto de a Bielorrússia se manter sobre o domínio de um regime autoritário e opressivo. Os críticos literários, motivados por razões políticas, raramente reconhecem a qualidade de escrita da autora. A politização da literatura bielorrussa tem levantado até algumas questões quanto à qualidade da herança literária nacional nas próximas décadas.

Perseguida pelo regime de Lukashenko – que se mantém como Presidente da Bielorrússia desde 1994 – a autora foi inclusive obrigada a deixar durante mais de uma década. Em 2011, acabou por regressar à capital da Bielorrússia, onde vive atualmente.

Neste post, prestamos uma homenagem ao Nobel da Literatura 2015 enumerando algumas das obras mais notáveis da autora. Infelizmente, apenas uma das suas obras está publicada em português. As editoras portuguesas devem, no entanto, editar alguns dos seus trabalhos nos próximos meses.

3 livros de Svetlana Alexievich

o-fim-do-homem-soviético-svetlana-aleksievitchO Fim do Homem Soviético

Mais de 20 anos depois do fim da antiga URSS, o mundo ainda não recuperou totalmente do clima de Guerra Fria. Esse final tem sido sucessivamente adiado e, depois de um período de tranquilidade entre as nações, a instabilidade parece estar a regressar gradualmente. No ocidente, Gorbatchov é admirado, mas na Rússia há quem diga que a governação do estadista marcou o início da Catástrofe Russa.

Foi a partir desse momento que o país ficou relegado a um papel secundário na cena internacional, perdendo a importância de outros tempos. De acordo com a escritora, são muitos que encaram com saudosismo os tempos de Estaline, agora visto como um grande homem. Ao longo de O Fim do Homem Soviético – Um Tempo de Desencanto, Svetlana Alexievich dá voz a diferentes pontos de vista – cada um com a sua singularidade. Dos humilhados aos ofendidos pela queda da URSS, a escritora mostra as opiniões dos homens e mulheres pós-soviéticos, deixando um panorama do que restou da antiga utopia de leste.

voices-from-chernobyl-svetlana-aleksievitchVoices from Chernobyl: The Oral History of a Nuclear Disaster

O dia 26 de abril de 1986 será para sempre recordado como um dos mais negros da história. Em Chernobil, uma cidade perto da fronteira da Ucrânia com a Bielorrússia, um reator é danificado por um incêndio, libertando quantidades enormes de radiação nuclear para a atmosfera. O episódio é bem conhecido de todos nós e hoje são frequentes as reportagens quer sobre o que restou da cidade fantasma, quer sobre as pessoas que viram as suas vidas alteradas pelos problemas de saúde deixados pela radiação.

Voices from Chernobyl, de 2006, foi o primeiro livro a deixar um relato daquilo que que aconteceu na cidade ucraniana, contando com os testemunhos de um grande conjunto de pessoas afetadas, não só aquelas que habitavam na cidade, mas também os habitantes de outros europeus que, de uma forma ou de outra, foram afetados pela catástrofe. Antes de escrever o livro, Svetlana Alexievich, que tinha trabalhado como jornalista, fez milhares de entrevistas. Entre elas destaque para os relatos de cidadãos comuns, bombeiros e pessoas envolvidas no processo de limpeza pós-desastre. Medo, raiva e incerteza são fatores comuns à grande maioria dos relatos ouvidos pela escritora.

Em 2016, a editora Elsinore tenciona publicar o livro Vozes de Chernobyl, traduzido para a Língua Portuguesa, aquando das celebrações dos 30 anos passados do desastre.

zinky-boys-svetlana-aleksievitchZinky Boys: Soviet Voices from the Afghanistan War

No período de 1979 a 1989, mais de um milhão de tropas soviéticas estiveram envolvidas na Guerra do Afeganistão. Só nesse período, foram registadas mais 50 mil mortes de inocentes, entre eles milhares de jovens. Zinky Boys: Soviet Voices from the Afghanistan War foge à narrativa histórica convencional ao dar destaque às vozes que foram apanhadas no meio do conflito entre as grandes potências. Ao longo do livro, Svetlana Alexievich deixa-nos com um relato chocante, longe das fontes oficiais. O trabalho tem um forte caráter jornalistico, mostrando atuações que lembram muito a história dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietname.

O nome do título, Zinky Boys, é uma referencia aos soldados soviéticos, que mortos em combate, regressavam à União Soviética em caixões de zinco. O livro esteve envolto em alguma controvérsia já que ia contra a ideia defendida pela URSS de que o caso do Afeganistão não se assemelhava em nada ao do Vietname. Alguns especialistas do páis, consideraram a obra como sendo totalmente irrealista, classicando o livro como uma obra fantasiosa que só pretendia escandalizar. Entre os testemunhos ouvidos em Zinky Boys, há soldados, médicos, prostitutas e mães que receberam os filhos nos caixões. Trata-se, sem dúvida, de mais uma narrativa com forte cariz humanitário.

Nobel da Literatura 2015: uma vitória para o feminismo

Terminada a cerimónia de anúncio do Nobel da Literatura podemos dizer que este foi, sem dúvida, um ano que honrou o feminismo.

Apesar de a cerimónia ter seguido a tradição habitual (aconteceu às 12 horas de Portugal Continental, na Academia Sueca e a uma quinta-feira) foi introduzida uma novidade: pela primeira vez na história da Academia o anúncio foi feito por uma mulher, a Secretária Permanente da Academia Sueca, Sara Danius. Esta é uma curiosidade que não podíamos deixar de lado, especialmente tendo em conta que a vencedora é também uma mulher.

O prémio Nobel da Literatura foi entregue pela primeira vez em 1901 e, desde então, já distingiu 112 escritores entre os quais o português José Saramago. Para saber mais sobre a história deste prémio e o processo de atribuição do mesmo, recomendamos a leitura do post Nobel da Literatura: tudo o que precisa de saber.

 

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