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Tradução: António Pescada explica o processo em Portugal

Tradução: António Pescada explica o processo em Portugal

 

O mercado da tradução em Portugal nem sempre é devidamente reconhecido. Lemos livros internacionais em língua portuguesa sem, por vezes, repararmos no nome do tradutor ou em como a leitura fluiu naturalmente, como se tivesse sido escrita na nossa própria língua. Ou, se a tradução for má, acontece exatamente o contrário: encontramos os erros, tecemos as nossas críticas e por vezes até procuramos saber quem traduziu aquilo que lemos.

A Goreti Teixeira decidiu recuperar uma das suas entrevistas antigas a um reputado tradutor português que, para além de traduzir inglês e francês, traduz também a língua russa. Ao longo desta conversa com António Pescada, é possível perceber a dinâmica do mercado da tradução em Portugal.

Para António Pescada, a tradução não é só técnica: também é arte. Uma arte que diz ser ainda pouco dignificada em Portugal, apontando o dedo à falta de cumprimento da legislação no que se refere aos direitos do tradutor.

Ligado à tradução há mais de 40 anos, viveu e estudou em Moscovo durante 5 anos e tem trabalhado, nos últimos anos, em traduções de russo e inglês. Entre as traduções que passaram pelas suas mãos encontram-se Anna Karenina, Guerra e Paz, Doutor Jivago e Crime e Castigo.

Entrevista a António Pescada sobre a tradução em Portugal

Goreti Teixeira (GT): Como desenvolve o seu processo de tradução? Pega numa obra e traduz do princípio ao fim ou é uma tradução realizada por etapas?

António Pescada (AP):Depende. Se for uma obra muito grande, por vezes, é necessário parar. Principalmente, porque os tradutores enquanto trabalhadores independentes, não têm o ordenado assegurado ao fim do mês. Se estiver a trabalhar numa obra que demora seis meses ou um ano a traduzir só vou receber depois de a entregar. E como é que se sobrevive durante esse tempo? É necessário parar e fazer coisas mais pequenas para se poder viver.

GT: Mas quando diz que os tradutores têm de sobreviver e, por isso, têm de mediar o seu trabalho, não existe uma legislação que salvaguarde os direitos do tradutor?

AP: A legislação existe só que não é aplicada. Isto tem sido uma questão de relação de forças. Se os tradutores tivessem força na sociedade podiam impor as suas condições, como não têm essas são impostas pelo editor. O editor oferece o trabalho, propõe um contracto cujas condições são ditadas por ele ficando o tradutor sem quaisquer direitos. Depois do livro traduzido e entregue, o editor faz o que lhe apetece: publica ou não, pode ser editado mais do que uma vez e o tradutor não recebe mais por isso.

Normalmente, a razão invocada para que os tradutores sejam mal pagos é a inexistência de mercado. O mercado é pequeno, vendem-se poucos livros e se fossem pagar direitos de autor, as despesas eram incomportáveis. Mas isso é aplicável ao livro que, por vezes, só tem uma edição, mas em obras que têm mais edições essa medida não se aplica e não tem lógica. Se formos a outros países, como por exemplo, Espanha, Inglaterra ou Estados Unidos, o tradutor mantém uma parte dos direitos sobre a sua tradução. O que é justo.

Em Portugal, como a tradução não é considerada uma actividade digna, digamos assim, porque dá a ideia de que qualquer pessoa que saiba línguas pode fazer uma tradução, para os editores é mais fácil agir desta forma. O tradutor trabalha para eles, pagam-lhes o estipulado e não têm mais responsabilidades. Se houver lucros eles são todos para os editores, no entanto, às vezes, também há prejuízos. Mas entendo, que as condições não deviam ser sempre as mesmas, porque há livros que já se sabe de antemão que vão vender muito e outros que não. Mas existe também a situação inversa

GT: Pelas suas palavras, o trabalho do tradutor não é valorizado pelos editores. E pelo público?

AP: Pelo público, acho que é, porque o leitor consegue distinguir entre uma boa e uma má tradução. A generalidade dos editores, salvo algumas excepções, não valoriza o trabalho do tradutor. Mas os que já têm essa consciência decidiram não entregar as traduções a qualquer pessoa. Fazem uma selecção que acaba por ser o reconhecimento da importância das traduções mais ou menos bem feitas. Contudo, isso não basta para os tradutores.

GT: Quando parte para uma tradução que condições têm de estar reunidas?

AP: Uma das condições mais importantes é gostar da obra, porque quando se gosta as coisas correm melhor e os resultados são mais positivos. Mas o que acontece é que nem sempre o tradutor pode escolher e por duas razões fundamentais. Primeiro, se não traduzir aquela obra é provável que o editor já não o convide para uma outra tradução e, segundo, as edições não são assim tantas para que se possa estar sempre a escolher.

GT: Que géneros literários traduz com mais frequência?

AP: Traduzo, principalmente, ficção e teatro. Durante muito tempo traduzi ensaios, mas prefiro a ficção.

 

GT: Por alguma razão em particular?

AP: Talvez exista aqui um pouco do escritor frustrado. Nunca fui escritor, mas gostava de ser. Como não tenho livros meus vou reescrevendo, em português, aquilo que os outros escreveram nas suas próprias línguas.

GT: Além do russo e do francês que outras línguas traduz?

AP: Inglês e espanhol, mas já traduzi também italiano. Nos últimos tempos, tenho trabalhado, essencialmente, com o russo e com o inglês.

GT: O russo é uma língua difícil?

AP: É difícil, mas não impossível. Depende também muito dos textos e dos autores.

GT: E traduções do português para essas línguas?

AP: Já traduzi, mas não são trabalhos de grande responsabilidade. Ou seja, não são trabalhos ao nível da literatura porque, nesse campo, as coisas são mais exigentes. Não basta saber bem a língua é preciso estar embrenhado na cultura. Se se quiser fazer uma boa tradução em francês, por exemplo, é precisa ter vivido em França ou ter estado mergulhado na cultura francesa durante algum tempo. Aliás, qualquer pessoa sabe disso e alguns escritores que escrevem em línguas que não são a sua têm dificuldades. Por exemplo, o Nabokov, um escritor russo que viveu exilado nos Estados Unidos, tinha muita dificuldade em escrever em inglês. A maior parte das suas obras eram escritas em russo e depois traduzidas para inglês sob a sua supervisão.

GT: E o processo de revisão, como é que é feito?

AP: Inicialmente, faz-se uma primeira versão. Posteriormente, relê-se todo o texto, emendam-se os erros ortográficos e, às vezes, corrigem-se as próprias frases. Depois de se ler um livro, no final, descobre-se que algumas soluções adoptadas não estavam correctas ou que existiam soluções mais adequadas. É na revisão que se faz esse apuramento, esse limar de arestas. Por vezes, custa quase tanto fazer a revisão como a tradução.

GT: Recorda-se da obra que mais tempo levou a traduzir?

AP: Até agora houve dois livros que traduzi e que levaram, cada um, dois anos. Mas com outros trabalhos pelo meio. Neste momento, por exemplo, estou a acabar de traduzir um livro que já vai com dois anos e meio. Como vê se não tivesse outra maneira de subsistir ao fim deste tempo já tinha morrido à fome.

GT: Um desejo para o futuro da tradução?

AP: Gostava que existisse uma maior atenção da parte dos editores e das universidades portuguesas na formação de tradutores. Dão-se aulas de línguas e, muitas vezes, as pessoas não têm qualquer formação como tradutores e quando enfrentam o texto têm grandes dificuldades. A tradução implica uma parte de criação e há técnicas de tradução, mas a tradução não é só técnica também é arte. É preciso ter sensibilidade.

 

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