Se há um termo que define a ficção dos últimos dois anos, é romantasy — a fusão de fantasia e romance que deixou de ser um nicho para se tornar o género mais lucrativo do mercado editorial global. E se há um nome no centro dessa explosão, é Sarah J. Maas, cuja série «Corte de Espinhos e Rosas» (ACOTAR) a transformou num dos maiores fenómenos editoriais do planeta, com milhões de exemplares vendidos e uma comunidade de fãs quase devocional.
Em 2024, Maas foi uma das autoras com mais títulos no topo de vendas internacional. Não é um acaso nem apenas talento individual: é o sintoma de uma reorganização profunda do que as editoras compram e do que as leitoras procuram. Perceber o romantasy é perceber para onde foi a ficção popular — e, talvez mais importante, perceber porque é que foi para lá.

O que é, afinal, o romantasy
O romantasy combina os mundos imersivos da literatura fantástica — magia, criaturas, reinos, hierarquias de poder — com a tensão emocional e sensual do romance contemporâneo. Não é fantasia com um par romântico acessório, nem romance com um cenário decorativo. As duas dimensões têm peso igual: o leitor quer o mundo e quer a relação, e sente-se traído se faltar qualquer uma delas.
É, na verdade, uma combinação antiga — a fantasia romântica existe há décadas, com autoras como Anne McCaffrey e Robin McKinley como precursoras. O que mudou foi a escala e a intensidade comunitária. As fãs não leem apenas: desenham personagens, escrevem fan fiction, debatem casais durante meses, criam glossários e mapas dos mundos imaginários. O livro deixa de ser um produto isolado e passa a ser uma plataforma de pertença, quase um clube com língua própria.
Em Portugal, o crescimento do romantasy é visível nas listas de mais vendidos e nas prateleiras das livrarias. Títulos de Maas e de autoras como Rebecca Yarros (autora de «Fourth Wing») encontram-se agora em destaque onde antes estavam os thrillers — um sinal claro de que o movimento não é passageiro.
Os motores do sucesso
Três ingredientes explicam a dimensão do fenómeno. O primeiro é a imersão: são mundos grandes, com vários volumes, onde o leitor pode viver durante meses sem querer sair. O investimento emocional acumula-se ao longo de mil ou dois mil páginas — e quanto maior o investimento, menor a vontade de abandonar.
O segundo é a tensão romântica prolongada, que cria uma forma de dependência narrativa. Há sempre um próximo capítulo, um próximo livro, uma promessa por cumprir. A leitora que acabou o primeiro volume de ACOTAR precisa do segundo — não por obrigação, mas por não conseguir aceitar que a história terminou ali.
O terceiro, e talvez o mais decisivo no mercado atual, é a comunidade amplificada pelo BookTok, que transforma cada lançamento de Maas num acontecimento coletivo com contagem decrescente, vídeos de reação em tempo real e discussões que duram semanas. A dimensão social da leitura de romantasy é tão importante quanto a leitura em si.

Há ainda um quarto fator, mais profundo e menos falado: a sensação de que o género foi, finalmente, escrito a pensar nas mulheres como protagonistas e como público. Heroínas com poder, desejo, raiva e autonomia, em histórias onde a relação amorosa não anula a aventura — antes a intensifica. Para muitas leitoras, isto representa um espaço que a ficção mainstream raramente lhes ofereceu, e a resposta emocional a essa oferta é proporcional ao vazio que existia antes.
Moda passageira ou nova ordem?
É tentador arrumar o romantasy na gaveta das modas, à espera de que passe. Seria um erro de leitura. O que aconteceu não foi um pico isolado de vendas — foi uma mudança estrutural: as editoras reorganizaram catálogos, criaram selos dedicados ao género e disputam autoras de fantasia romântica com a mesma energia com que antes disputavam thrillers. O mercado reorganizou-se em função desta procura, e as reorganizações de mercado não se desfazem facilmente.
Sarah J. Maas não inventou o género, mas demonstrou a sua escala possível — provou que o romantasy pode sustentar impérios, adaptações ao ecrã e legiões de leitoras fiéis durante décadas. E quando um género prova que consegue tudo isso, não desaparece: institucionaliza-se. A questão para os próximos anos não é se o romantasy vai durar, mas quem será a próxima autora capaz de construir um mundo grande o suficiente para nele querermos viver.
Já leu Sarah J. Maas? Por qual das séries começou — ACOTAR ou «Trono de Vidro»? Deixe-nos a sua experiência nos comentários.
Para saber mais: Site oficial de Sarah J. Maas · Sarah J. Maas na Bertrand · «Corte de Espinhos e Rosas» na Bertrand · Pesquisar na Amazon





