Mais de quinze milhões de exemplares vendidos. Tradução em mais de quarenta idiomas. Direitos comprados para séries e filmes. Os números de Freida McFadden são esmagadores e não admitem discussão. A discussão começa noutro lado, e é mais espinhosa do que parece à primeira vista: vale a pena ler?
Ou estamos perante thrillers descartáveis, fabricados para consumir e esquecer numa tarde, sem deixar rasto nem memória? É uma pergunta legítima — e desconfortável, porque a resposta não é simples.
Há quem responda com desprezo e quem responda com devoção, e ambos os campos têm argumentos sérios. Em vez de escolher uma trincheira, vale a pena ouvir os dois com atenção — porque a verdade, neste caso, vive num espaço mais interessante do que qualquer dos extremos.

O caso da acusação
Quem critica McFadden aponta, em primeiro lugar, para a previsibilidade. As reviravoltas finais — a sua marca registada — repetem-se de livro para livro, e o leitor atento começa a antecipá-las a partir do terceiro ou quarto título. Não é que sejam mal executadas; é que o padrão se torna tão reconhecível que a surpresa, que é o ingrediente central do género, se dilui.
As personagens são funcionais, ao serviço da mecânica da trama, sem grande densidade psicológica ou evolução interior. A prosa é simples, quase invisível, sem qualquer ambição de estilo. Para um leitor habituado ao thriller literário — uma Tana French, uma Gillian Flynn nos seus melhores momentos —, é o equivalente a fast food: eficaz, saboroso, mas esquecido uma hora depois de fechado o livro.
Não fica nada, dizem os críticos: nem uma frase, nem uma ideia, nem uma personagem que se recorde dali a um ano. Títulos como «A Criada», «A Paciente» ou «O Consultor» seguem o mesmo molde, e essa repetição começa, a certa altura, a cansar.
O caso da defesa
Mas chamar-lhe «apenas» fast food ignora o talento que isso exige. McFadden domina como poucos o ritmo: capítulos curtos que terminam num gancho, informação doseada ao milímetro, a reviravolta colocada exatamente no ponto em que o leitor já investiu demasiado para largar o livro. Isto não é sorte nem facilidade — é ofício, e ofício raro.
Escrever algo que quinze milhões de pessoas literalmente não conseguem pousar é uma competência que muitos autores «sérios» dariam tudo para ter. O entretenimento puro, quando executado ao mais alto nível, é uma arte em si mesma — e desvalorizá-la apenas porque não tem ambições literárias maiores revela mais sobre os preconceitos de quem critica do que sobre a qualidade do que é criticado.

Há ainda um ponto de acessibilidade que não deve ser desprezado. Os livros de McFadden são portas de entrada na leitura. Muitos dos seus leitores não tocavam num romance há anos — ou nunca tinham terminado um. Um livro que se devora num fim de semana e deixa vontade de ler o seguinte presta um serviço que o romance difícil e exigente, por melhor que seja, simplesmente não presta a este público. Criar leitores é, em si, um valor. Se essa porta de entrada levar ao thriller literário, tanto melhor — pode começar pelas nossas reviews de livros para descobrir onde ir a seguir.
O que os números não dizem
Convém também desconfiar do snobismo automático. Boa parte da crítica que se faz a McFadden é menos sobre os livros e mais sobre quem os lê: jovens, mulheres, leitores de redes sociais. Géneros associados a públicos femininos foram historicamente menosprezados — do romance sentimental à telenovela — e nem sempre por razões estéticas honestas. Vale a pena perguntar quanto do desdém é sobre a qualidade e quanto é sobre o público.
O veredicto
A verdade incómoda é que as duas leituras estão certas ao mesmo tempo. McFadden não escreve literatura para os anais — e provavelmente nunca o pretendeu. Escreve máquinas de entretenimento extraordinariamente bem calibradas. Julgá-la pelos critérios do romance literário é como avaliar um êxito pop pela partitura de uma sinfonia: erra-se o alvo e fica-se com ar de quem não percebeu a pergunta.
O leitor honesto pode reconhecer o prazer genuíno de uma noite a virar páginas e, ao mesmo tempo, não confundir esse prazer com profundidade. As duas coisas cabem na mesma estante e na mesma vida. A pergunta interessante não é se McFadden é «boa» autora — é o que procuramos num livro em cada momento. E não há vergonha nenhuma se a resposta for, às vezes, apenas «quero não conseguir parar».
Para saber mais: Site oficial de Freida McFadden · Freida McFadden na Wikipédia · «A Criada» na Wook · Perfil na Amazon





