Existe em Portugal um fosso curioso, quase um país literário a duas velocidades. De um lado, os autores mais vendidos — Raul Minh’alma, Pedro Chagas Freitas e outros nomes com resultados expressivos nas listas da GfK — que escoam dezenas de milhares de exemplares, enchem as feiras do livro e geram sessões de autógrafos com filas que poucos autores «sérios» conhecem. Do outro, a crítica literária e a academia, onde estes mesmos nomes quase nunca aparecem.
Vendem tudo e são, ao mesmo tempo, praticamente invisíveis na conversa considerada séria sobre literatura portuguesa. Não são discutidos nas faculdades de letras, não aparecem nos suplementos literários dos jornais de referência, não ganham os prémios que a academia controla. É como se existissem em universos paralelos que nunca se tocam.
Vale a pena olhar para este fosso sem os dois reflexos fáceis. Desprezar quem vende, tratando o público de parvo, é tão preguiçoso como ridicularizar quem critica, tratando-o de elitista amargo. A realidade é mais interessante do que qualquer destas caricaturas — e mais reveladora sobre o que a literatura é e para quem serve.

Porque é que a crítica os ignora
A crítica literária — pelo menos a crítica que se publica nos suplementos e nas revistas de referência — tende a valorizar a inovação formal, a densidade de estilo, a ambição temática, o diálogo com a tradição. Os livros mais vendidos deste segmento jogam noutro campo por completo: frase curta, emoção direta, mensagem acessível, ligação afetiva imediata com o leitor.
Não procuram desafiar nem desconcertar — procuram acompanhar e confortar. Para os instrumentos tradicionais da crítica, há ali pouco para dissecar, e daí o silêncio. Um ensaio de dez páginas sobre a estrutura sintática de Minh’alma não existirá tão cedo — não porque não haja nada a dizer, mas porque esse não é o terreno onde a crítica se sente em casa.
Há também uma questão de origem que pesa mais do que se admite publicamente. Muitos destes escritores cresceram nas redes sociais, fora dos circuitos literários consagrados. Minh’alma, por exemplo, construiu o seu público no Instagram e no Facebook, muito antes de entrar numa livraria com livros próprios. Não vêm das revistas, dos prémios, das tertúlias ou das universidades — vêm de um espaço que o establishment literário não controla e, por isso, desconfia por instinto.
É uma desconfiança parcialmente honesta: a consagração académica serve também para proteger um cânone, uma hierarquia, uma forma de perceber o que é «literatura» versus o que é «produto editorial». Mas essa proteção tem um custo — e o custo é deixar de fora fenómenos culturais reais que merecem análise séria, independentemente do juízo estético que se faça deles.

O argumento do outro lado
Mas há uma pergunta incómoda para a crítica: se um livro toca centenas de milhares de pessoas, as conforta e as leva a ler, não merece sequer ser pensado? Ignorar um fenómeno cultural por ele não caber nos critérios habituais pode ser menos um sinal de exigência e mais um sinal de irrelevância crescente. A crítica que só fala para si própria perde, aos poucos, o direito de se queixar de que ninguém a ouve.
Acresce que a história da literatura está cheia de autores hoje canónicos que foram, no seu tempo, desprezados como populares ou menores. Charles Dickens foi folhetinista de massas antes de ser clássico. Edgar Allan Poe morreu na miséria e foi considerado literatura de segunda. O julgamento do presente sobre o que é «sério» tem um historial de erros que recomenda alguma humildade.
E há ainda um argumento funcional: estes livros criam leitores. Pedro Chagas Freitas ou Minh’alma são muitas vezes o primeiro livro que um jovem compra por iniciativa própria, sem obrigação escolar. Se esse jovem continuar a ler, eventualmente chegará a outros autores — talvez até aos que a crítica consagra. Uma literatura que se orgulha de criar leitores não pode desprezar o livro que os iniciou na leitura.
Dois registos, não uma hierarquia
A saída deste impasse talvez seja abandonar a ideia de uma escada única, com a «alta literatura» no topo e tudo o resto em baixo, à espera de subir. Estes livros não são literatura falhada — são outro registo, com outra função social. Servem para consolar, motivar, acompanhar o luto ou a paixão, criar hábito de leitura em quem não o tinha.
Avaliá-los pelos critérios do romance experimental é tão absurdo como avaliar uma canção de embalar por não ser uma ópera de Wagner. Os dois existem, os dois têm valor, os dois servem funções que o outro não serve. O problema não é a coexistência — é a hierarquia que insiste em ver uma das partes como inferior.
A pergunta verdadeiramente interessante é, por isso, dupla: estará a crítica a perder relevância por se fechar sobre si mesma, ou serão estes livros mesmo de outra natureza, que pede outros instrumentos de análise? Provavelmente as duas coisas, em doses que variam de caso para caso. Conheça também a perspetiva de quem conseguiu unir os dois mundos, lendo sobre Valter Hugo Mãe — o autor português que vende bem e tem a crítica do seu lado.
E é exatamente nessa zona cinzenta — sem desprezo de nenhum dos lados — que vale a pena ter a conversa. O que acha? Os autores mais vendidos merecem mais atenção crítica, ou são realmente outro tipo de coisa que não precisa de legitimação literária?
Para saber mais: Quem mais vende em Portugal (Observador) · Minh’alma, o mais vendido de 2024 · Pedro Chagas Freitas na Wikipédia





