Quando se pergunta quem é o autor português que mais vende, há dois nomes que dominam a conversa — e representam dois mundos quase opostos. De um lado, Raul Minh’alma, o fenómeno da frase curta e da emoção imediata, apontado pela GfK como o autor português mais vendido em 2024. Do outro, José Rodrigues dos Santos, o jornalista da RTP que há mais de duas décadas constrói thrillers históricos volumosos e mantém um público fiel de centenas de milhares de leitores.
São dois modelos de sucesso tão diferentes que compará-los é, em parte, comparar épocas, públicos e conceitos de leitura completamente distintos. Mas é precisamente por isso que vale a pena olhar a sério para os dois, em vez de fugir para o cómodo empate diplomático do «são ambos excelentes à sua maneira».
Esse empate não responde a nada. E há uma resposta possível — mais honesta e mais útil — para quem quiser encontrá-la.
Dois caminhos para o mesmo topo
Minh’alma chegou ao primeiro bestseller ainda muito jovem e percebeu antes de quase toda a gente o poder das redes sociais e da escrita emocional próxima do leitor. Os seus livros — «Imperfeito», «Serei Sempre Teu», «De Ti Para Mim» — leem-se depressa, citam-se em legendas de Instagram e funcionam como pequenos objetos afetivos que se oferecem e se partilham. O segredo não está na trama; está no reconhecimento imediato: o leitor sente que aquilo foi escrito para ele, sobre o que ele sente.
José Rodrigues dos Santos joga um jogo completamente diferente. Com mais de vinte romances, oferece enredo, investigação histórica e centenas de páginas densas. O leitor que o segue quer mergulhar, aprender, perder-se numa intriga que cruza ciência, religião, espionagem e geopolítica. Títulos como «A Fórmula de Deus», «A Última Deusa» ou «Equação Divina» são propostas exigentes em tempo e atenção, e a fidelidade que geram foi construída lentamente, livro após livro, ao longo de mais de duas décadas.

Os números e o que escondem
Olhar só para o ranking de um ano engana. Minh’alma tem demonstrado uma força explosiva em anos de pico, capaz de colocar um título no topo absoluto das vendas com uma velocidade que poucos autores portugueses alguma vez conseguiram. Mas o thriller de JRS vende de forma diferente: distribuído por um catálogo enorme, com lançamentos anuais que reativam as vendas dos livros anteriores e edições que continuam a escoar muito depois do lançamento.
Por outras palavras, num único pico anual Minh’alma pode vencer. Somando toda a obra ao longo do tempo, JRS dificilmente é alcançado. Comparar os dois exige, portanto, escolher entre duas perguntas distintas: quem vendeu mais este ano, ou quem vendeu mais ao longo de uma carreira inteira?

Os critérios da comparação
Para responder com honestidade convém separar três eixos. Em exemplares vendidos num único ano, Minh’alma tem mostrado uma força difícil de igualar — o impulso das redes sociais e a leitura rápida geram volumes que o thriller volumoso raramente consegue num único lançamento.
Em consistência e longevidade, JRS é imbatível: vende muito, todos os anos, há mais de vinte. Isso é incomparavelmente mais difícil de conseguir — exige reinventar-se sem perder o público, manter a qualidade ao longo de décadas e sobreviver a múltiplas mudanças de tendências no mercado.
Em influência cultural, são dois escritores incomparáveis: um moldou a forma como uma geração escreve sobre sentimentos nas redes sociais e popularizou a literatura emocional curta; o outro popularizou e dignificou o thriller histórico em língua portuguesa, levando a temas científicos e filosóficos complexos a um público que nunca os teria procurado noutro formato. Para aprofundar o contexto da crítica literária em Portugal, leia também o nosso artigo sobre os autores que vendem muito mas a crítica ignora.
Um veredicto (assumido)
Se o critério for o impacto sustentado ao longo do tempo, José Rodrigues dos Santos é o rei. Vender muito durante vinte anos é incomparavelmente mais difícil do que vender muito num ano, porque exige reinventar-se sem perder o público. Mas se o critério for capturar o momento — saber exatamente o que o leitor de hoje quer e entregá-lo com precisão cirúrgica —, então Minh’alma é o autor da década, mesmo que não seja o da carreira.
A escolha, no fundo, revela mais sobre quem responde do que sobre os autores. Quem valoriza a obra acumulada escolhe JRS; quem valoriza a sintonia com o presente escolhe Minh’alma. E é aí que esta discussão se torna verdadeiramente interessante: diga-nos nos comentários qual deles leva a coroa, e com que critério.
Para saber mais: Site oficial de J. Rodrigues dos Santos · Análise do Observador · Notícias ao Minuto: Minh’alma o mais vendido





